mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

Escrever sempre e mais um pouco

Escrevo por necessidade física. Escrevo para não enlouquecer. Escrevo para me descobrir, para interagir com o mundo. Numa sociedade em que todos tivessem este hábito, como seriam as relações? O que aprenderíamos se, por constância, tivéssemos um contato mais íntimo com nós mesmos?


6661771443_532d13e8e3_b.jpg Foto por: Terry Madeley. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

Eu tenho urgências de espaços em branco e de linhas tortas. Sim, não aprendi a escrever com métrica, nem harmonia ou arrojo. Eu escrevo como um bêbado que embriagado de si, tonto de despropósitos, alheio ao senso comum, desavergonhadamente vomita bílis nos outros. Minha escrita é vomito sujando sapatos e atrapalhando o meio fio. Qual o papel da escrita, se não jogar cara constatações ignoradas e desconfortos sossegados? Nem minha poesia boba e imatura é impune. Nem as frases de efeito dos filmes clichês são impunes. A subjetividade torna imprevisível a forma como o tiro irá atravessar determinado corpo, ainda que a bala não se aloje no coração, ainda haverão aqueles que sentirão leves pontadas acima do fígado. E por fazer sentir, já vale escrever.

Minha mania de escrever ao caso vem de uma vontade forte de compreensão. Distribuindo minhas ideias em frases, mais ou menos, coesas eu descubro um pouco mais de mim. É um exercício sadio quando se tem uma cabeça bagunçada e esquisita como a minha. Escrevendo, por exemplo, já resolvi grandes teoremas afetivos do meu passado, inventei máquinas do tempo, entrei em contato de quarto grau com extraterrestres, passei a lidar melhor com o fato de ter feito de xixi nas calças na frente de toda quarta-série, etc. Podem parecer coisas importantes apenas para mim, mas é um modelo de autoconhecimento que pode ser estendido e aplicado a qualquer um. Bom, pelo menos eu acho, se houver predisposição, paciência e alguma coragem.

O hábito de escrever é subvalorizado porque, hoje, temos a falsa impressão de que quanto menos nós dissemos melhor nos comunicamos. Tudo está baseado em reações pré-programadas e compartilhamentos lacônicos que, raramente, não ultrapassam algumas linhas. Óbvio que o mal hábito de escrever nos torna leitores preguiçosos. Isso cria um ciclo vicioso difícil de romper porque está arraigado em uma questão sociocultural muito complexa. No entanto, ainda acredito nas exceções e no poder do hábito e da insistência para desconstruir comportamentos perniciosos, economia de caracteres e carência de ideias e de falas.

Daqui de onde eu escrevo, meu texto tem potencial de passatempo barato, de leitura pela metade, descaso completo ou troca direta pelo feed do Facebook. Ele é frágil porque não conta uma história por trás de suas reflexões vagabundas. Apenas convida o leitor a um exercício imaginativo abstrato sobre porquês, o quê e não seis. Confesso que posso fazer pouca coisa a respeito deste problema porque, na maioria das vezes, escrevo com pencas de dúvidas, que, às vezes, amadurecem em algumas certezas antes de eu chegar ao fim. Uma certeza: textos metalinguísticos não costumam ser atraentes a leitores críticos. As argumentações não parecem bem estruturadas e isso é notável à primeira vista. Outra certeza: o texto ficou razoavelmente legal, apesar de confuso, então, fragilidades são desculpadas. Fato é: escrever é legal.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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