mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

Her: sobre o afeto no digital

Como pode alguém pode amar tanto algo que, em essência, não é real, não existe de fato? No plot de “Her” (2014), que se passa num futuro próximo, Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor que se apaixona por Samantha (voz de Scarlett Johansson), uma inteligência artificial criada, inicialmente, para atender suas necessidades profissionais. Lembro de ter me emocionado bastante quando assisti ao filme do diretor Spike Jonze pela primeira vez. Eu estava saindo de um relacionamento complicado (ou melhor, que eu compliquei) e a trama me atingiu em cheio. Nos últimos tempos, tenho pensado bastante nos temas centrais da história: a fragilidade dos laços na sociedade contemporânea, a virtualização das relações afetivas, a idealização do amor em meio a expectativas que não se concretizam, a indiferença e a individualização coletivas em meio ao caos urbano: um caos que, mesmo higienizado, nos causa claustrofobia pelo excesso de pessoas e informações.


her.jpg Frame do filme "Her" (2014), de Spike Jonze.

“Her” não é um filme para se assistir quando o humor não está bom, a menos que a intenção do espectador seja piorá-lo. O longa é melancólico, lento, contemplativo, cheio de digressões e, em alguns momentos, pode até ser considerado lírico. No entanto, a queda dos personagens principais é triste e, no final, não há redenção. Para quem já viveu relacionamentos à distância, a identificação com alguns trechos é inevitável, sobretudo, a frustração de querer algo que não se pode tocar. “Her” é, em linhas gerais, um retrato intensificado da contemporaneidade, com cores fortes que, talvez, não estejam tão longe de nós. Experiências com inteligência artificial mostram que os progressos na área apontam que, em um futuro não muito distante, teremos máquinas capazes de emular, com alto grau de proximidade, sentimentos e ações humanas (sobre o assunto, recomendo o filme “Ex Machina”, de 2015, do diretor Alex Garland).

Creio que a maior reflexão que Her nos deixa é o olhar crítico a respeito de como estamos nos relacionando uns com os outros. Será que estamos fortalecendo, com propriedade, nossos laços afetivos ou estamos nos perdendo na frieza superficial de relações mediadas por ferramentas como WhatsApp, Facebook, Skype, Instragram, Twitter? Compreendo e reconheço que laços fortes e duradouros podem surgir a partir de ambientes virtuais, porém, estudos recentes comprovam que o excesso de virtualidade é responsável por fortalecer ou desenvolver patologias como depressão e fobia social. Não é minha intenção aqui, de forma alguma, demonizar as mídias sociais e condenar a internet como produtora de isolamento e segregação social, até porque eu sou um usuário ativo dela e creio, a princípio, que nada em excesso faz mal necessariamente. O que eu proponho é um pensamento mais demorado para investigar se não estamos priorizando mais os contatos virtuais que os contatos e as trocas físicas. Parece-me perigoso, por exemplo, não sabermos balancear o tempo que temos entre as obrigações com amigos, amores ou familiares que estão ao nosso alcance, com quem podemos ter conversas olhando no olho, utilizando os cinco sentidos.

Durante muito tempo, fui como Theodore me apaixonando e idolatrando pessoas que não eram, por natureza, reais. Foi preciso estar perto e ter compartilhamentos concretos para que eu pudesse aprender o valor de cultivar interesses com que eu podia ver e tocar, ainda que demorasse bem mais do que deveria para processar isso. Foi um período duro de aprendizado e eu perdi coisas valiosas no caminho, mas, para mim, ficou a clareza de que o mundo material proporciona vivências que não devem ser subvalorizadas pelas potencialidades das mídias virtuais. Uma conversa longa no fluxo de mensagens de alguma plataforma virtual é tão distante que nunca vai se comparar ao valor simbólico de uma boa conversa ao vivo, por exemplo. Talvez, Theodore, no final de “Her”, mesmo sem Samantha, tenha aprendido a lição que a sua amiga Amy (Amy Adams) ensinou: “Estamos aqui apenas de passagem e neste momento eu quero me permitir alegria”. Carpem Diem: de preferência, sem passar o dia olhando para uma tela que, apenas, simula vida.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// //Tiago Júlio Martins