mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

TARDIS: A loucura tem um lado bom

Quando criança, eu criei um sistema simples de código em que as consoantes e vogais do texto eram substituídas por formas e traços geométricos. Naquela idade, eu achava que minhas histórias eram especiais demais pra serem compartilhadas. Elas iriam ser decifradas e me tornariam famoso anos mais tarde. Criei uma falsa aura de espetáculo em cima daquelas bobagens cujos enredos já saíram da minha memória. Agora, uns 13 anos depois, estou perto de lançar meu primeiro livro e, com ele, uma boa parte de mim vai ser exposta, avaliada, julgada, apreciada e criticada. Ainda que as proporções sejam improváveis, me sinto ainda como aquele menino inseguro com suas letras pré-fabricadas e o desejo ingênuo de conquistar o mundo.


frame.jpg (Ilustrações: Delianne Lima)

O processo total de fabricação de TARDIS durou seis meses. Mas o grosso do livro, mais ou menos 200 páginas, foi escrito em aproximadamente 20 dias apenas. A história foi contada quase que totalmente quando eu estava em hipomania. A bipolaridade tem dois pólos: a depressão e a mania ou hipomania, que, ao contrário da primeira fase, causa excesso de energia, aumento da criatividade, pensamentos compulsivos, atitudes impulsivas, delírios de grandeza, além de outros sintomas. O que aconteceu foi que meu cérebro estava trabalhando tão acelerado que o livro acabou me levando para um novo surto psicótico, antes de eu terminar ele. Eu queria problematizar a loucura e acabei enlouquecendo de novo no processo.

Tem dois capítulos no livro, que foram os mais difíceis de escrever, em que eu narro os delírios dos surtos como se eu estivesse novamente passando por eles. Foi um exercício de linguagem que eu fiz, de certa forma, enlouquecendo a estrutura narrativa, para oferecer ao leitor um ponto de vista de como é perder completamente o juízo a partir de uma visão de dentro.

O livro é totalmente baseado em fatos reais, mas tem, talvez, uns três por cento de invenção e enfeite, além dos nomes trocados. Sei que isso não garante isenção plena, nem segurança de que as pessoas não serão identificadas, mas quase nenhum dos personagens/pessoas da narrativa têm seu nome real. Tem alguns segredos e referências dentro da história que poderão ser descobertos com uma leitura mais atenta e o leitor com o background certo.

Minha intenção principal com o livro é ajudar às pessoas que leiam TARDIS e, talvez, se identifiquem, de alguma forma, com as situações em que eu me encontrava, com os sentimentos pesados que eu possuía, a não cometerem o mesmo erro que eu. Procurem ajuda. Procurem ajuda rápido. Problemas mentais não são frescura. Depressão não é frescura. São doenças que, além de incapacitarem, matam. A taxa de suicídios é alarmante e muitas mortes poderiam ser evitadas se as pessoas tivessem a ajuda que precisavam.

A reação ao livro é algo que eu não consigo prever. Eu espero esgotar rápido a primeira tiragem, espero que gostem, que divulguem, claro, mas não sei. Eu me expus completamente, sem vergonha nenhuma, e, confesso, estou com um pouco de medo dos julgamentos que podem vir. Eu não fiz o livro, de maneira nenhuma, com a intenção de chocar, nem nada do tipo, mas sei que algumas pessoas podem se sentir desconfortáveis lendo alguns trechos. Porém, paciência, era uma história que precisava, merecia ser contada e que acho que tem seu valor. Eu tentei dar o meu melhor. Aquilo que não existe também pode ser real. TARDIS é um gesto de amor, a coisa mais nobre que eu pude fazer.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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