mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

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Bipolar, sim. Mas muito mais que isso.

Não é porque enlouqueci uma vez que posso ser considerado permanentemente louco. Saúde mental é bem mais complexa do que julga o senso comum. Para entender a mente de alguém em sofrimento psíquico, é necessário afeto e empatia. Esta é parte da minha história.


1.jpg Foto: Sidney Oliveira (@sidneyoliveiraimagem)

Há tragédias que não ocorrem do lado de fora, no mundo, mas sim, dentro da nossa cabeça. De repente, o caos. Era tanta energia dentro de mim, que eu simplesmente acreditei que iria explodir. Tive lapsos de tempo e de memória. Na minha percepção desequilibrada, o céu escureceu em segundos. Eu gritava no meio da confusão. Minha cabeça foi invadida por dezenas de pensamentos conflitantes. Senti como se tivesse morrendo. Sensação insuportável. O controle se foi. Desde aquele dia, em novembro de 2013, minha vida nunca mais foi a mesma.

A descrição subjetiva pode não ser tão clara, mas fica mais fácil se eu explicar: às vésperas de completar 23 anos, após enfrentar um surto psicótico, fui diagnosticado como portador do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB). A doença psiquiátrica atinge cerca de 8% da população adulta brasileira.

A bipolaridade é caracterizada, principalmente, por alternância entre as fases de depressão e mania. Os ciclos, geralmente, são longos, levam meses ou semanas. No estado depressivo o portador apresenta sintomas como melancolia, falta de energia, isolamento social, ideações negativas e até pensamentos suicidas. Na mania, o oposto, a pessoa passa por períodos com excesso de energia, euforia, pouca necessidade de sono, ausência de juízo crítico, megalomania e comportamentos de risco.

Quando não tratada corretamente e freada a tempo, um episódio maníaco pode evoluir para um surto psicótico. Foi o que aconteceu comigo. Depois desta primeira crise, que abalou a mim, minha família e meus amigos, precisei encarar a necessidade de iniciar um tratamento sério e me cuidar melhor. Era isso ou viveria em estado de descontrole e vulnerabilidade constante.

3.jpg Foto: Sidney Oliveira (@sidneyoliveiraimagem)

O início não foi nada fácil. Eu não me sentia confortável com o psicólogo. Nunca havia me consultado com um antes. Eu me sentia exposto e muito invadido tendo que falar de sentimentos tão íntimos. Também não aceitava tranquilamente a necessidade de tomar remédios, apesar das recomendações expressas da psiquiatra. Achava que eu não precisava deles e não queria ser taxado de “louco”. O preconceito era meu para comigo mesmo, ironicamente.

Quando precisamos encarar uma mudança muito brusca e repentina na nossa vida, não aceitamos passivamente o choque de realidade. Eu era muito mais imaturo do que sou hoje, desconhecia minhas emoções, meus limites e minhas possibilidades. O TAB me tirou completamente da minha zona de conforto e me colocou às claras com meu lado sombrio, meus defeitos e meus limites mais secretos.

Com o tempo, fui aprendendo a administrar o tratamento, tanto médico quanto psicológico. Troquei de psicólogo e passei a criar uma identificação maior com a nova psicoterapeuta, que me acompanha até hoje. Da mesma forma, aceitei que meu corpo precisa de remédios, ainda que em doses baixas, para regular componentes bioquímicos. Coisa que meu corpo não faz muito bem naturalmente. Foi um longo e difícil aprendizado meu processo de autoconhecimento, que ainda não acabou e nem acabará.

2.jpg Foto: Sidney Oliveira (@sidneyoliveiraimagem)

Tive outras crises e recaídas depois da primeira. Saí mais forte de todas elas. Hoje, me sinto orgulhoso de ter enfrentado tantas dificuldades e ter permanecido de pé, mesmo com tudo me jogando para baixo. Com um grande esforço, meu e da minha mãe, Goretti, que merece todo reconhecimento do mundo, pude realizar o sonho de publicar meu primeiro livro. Mais do que uma simples obra jornalística e autobiográfica, “Cabeça Bipolar”, um espelho da minha vida até 2018, é um abraço de carinho e afeto a todos os portadores de transtornos mentais.

Além do livro, me tornei administrador exclusivo do projeto “Vida De Um Bipolar”, criado por Marilha Corrêa. Com ramificações no Instagram, YouTube e Facebook, onde possui mais de 82.000 seguidores, a iniciativa busca oferecer suporte e incentivar o tratamento, propor uma visão positiva da condição e prestar apoio indireto a quem esteja precisando. Nunca pensei que, depois de ter ido ao fundo do poço, eu me reergueria ao ponto de ajudar tantas outras pessoas com minhas palavras.

A vida é algo realmente extraordinário e imprevisível. Não vale a pena tentar imaginar razões que justifiquem o mal que nos chega, muito menos nos sentir culpados por coisas das quais não temos o menor controle. Precisamos, sim, encarar o presente e nos preparar para o futuro. O passado é uma roupa que não nos cabe mais.

O Transtorno Bipolar é parte de mim. Parte da minha personalidade, da minha identidade e do modo como vejo a realidade. Mas ele não me define. Somos muito mais que um diagnóstico, uma doença. Somos seres plurais, complexos e carregamos em nós um infinito de possibilidades.

Eu sei que, talvez, você, que está lendo isso agora, esteja passando por uma fase difícil e complicada, como eu já passei. Uma dor ou um problema que estão lhe tirando a paz e lhe entristecendo. O que eu posso dizer, do alto das minhas limitações, é: aceite que você precisa de ajuda e procure ajuda. Não é demérito para ninguém, não te faz mais fraco, nem menos digno.

Tenho muitos privilégios e não guardo nenhum rancor da vida. Não tenho espaço para guardar mágoas. Continuo fazendo meu tratamento ciente de que não é uma ciência exata. De que, se eu bobear, posso ter uma nova crise. Mas tenho o espírito fortalecido pelo amor de quem me cerca e me quer bem. Aprendi, eu também, a me amar nesse caminho. O que o futuro me reserva, não sei. Quero muito, no entanto, sei pouca coisa. Porém, sei que não vou permitir nunca mais chegar perto de desistir de tudo por traição da mente e cegueira momentânea. Porque é apenas isso: momentos. Eles passam. A gente fica.


Tiago Júlio Martins

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