Mariana Staudt

Jornalista, ariana, apaixonada por sol, verão e praia, por viajar, por fotografar e por escrever. Sou a pessoa mais curiosa que eu conheço e tenho os pensamentos a mil quilômetros por hora.

Construção de um ídolo no esporte

Representando a geração conhecida como “brazilian storm”, em dezembro de 2014, Gabriel Medina foi o primeiro brasileiro a conquistar um título mundial de surf no WCT. Além da vitória, conquistou também o público e ganhou centenas de fãs e torcedores, mesmo praticando uma modalidade sem tanta visibilidade na grande mídia. De que forma acontece a transformação de um atleta em um ídolo do esporte brasileiro? O torcedor é, na maioria das vezes, puramente passional, ou seja, ignora a técnica e espera apenas que alguém o represente com excelência. O esporte é uma grande válvula de escape, onde o brasileiro esquece ou ameniza os problemas e as críticas ao país, e se orgulha quando um atleta coloca a bandeira verde e amarela no topo, levando a imagem do Brasil de forma positiva.


gabrielmedina_asp.jpg Foto: Kirstin Scholtz / ASP

*Resumo do artigo "CONSTRUÇÃO DE UM ÍDOLO PELA MÍDIA: AS REPERCUSSÕES DO TÍTULO MUNDIAL DE GABRIEL MEDINA NO SURFE". O trabalho tinha por objetivo analisar a abordagem das reportagens exibidas no Jornal Nacional, entre março de 2014 e junho de 2015, sobre o surfista Gabriel Medina, no que diz respeito a transformação do atleta em um ídolo do esporte brasileiro.

O surfista Gabriel Medina nasceu na cidade de São Sebastião, em São Paulo, e é o mais jovem brasileiro a ingressar no seleto grupo do ASP World Tour para o WCT (World Championship Tour ou Circuito Mundial de Surfe), que é a elite do surfe mundial, restrito aos 36 melhores atletas do planeta, promovido pela WSL (World Surf League ou Liga Mundial de Surfe). Em dezembro de 2014, entrou para a história do surfe brasileiro como o primeiro surfista a conquistar o título mundial da elite do esporte, o WCT, que conta com 11 etapas ao redor do mundo. Com apenas 20 anos, Medina conquistou a taça em Pipeline, no Havaí.

A representação social dos ídolos é fundamental na produção de eventos de massa, exercendo um enorme fascínio no público. O universo do esporte é permeado pelo aspecto de luta, batalha, competição, pelo sucesso sobre o fracasso do oponente. Ou seja, para um acontecimento de massa se sustentar é necessária a presença de “heróis”, “estrelas” e “ídolos”, tornando possível a identificação do espectador com aquele evento, pois essas figuras representam a superação de obstáculos, as conquistas. A narrativa da saga de um herói precisa de um contorno mais humano, falando de desafios, provações e superações. Os meios de comunicação e a mídia como um todo têm responsabilidade na formação dos discursos sociais sobre espetáculos esportivos. Dentro das teorias construcionistas, existe a defesa de que o jornalismo constrói a realidade e mostra, entre outras posições, que a “linguagem não pode funcionar como transmissora direta do significado inerente aos acontecimentos, porque a linguagem neutral é impossível” (TRAQUINA, 2005). Portanto, não se deve ignorar a existência do “alguém” que narra, nem dos fatores que o permeiam.

A Copa do Mundo de Futebol, por exemplo, é um momento em que as manifestações culturais tornam-se muito mais intensas e dramáticas. Pertencer a uma comunidade é “partilhar um nome, uma história e uma consciência mútua” (GUSFIELD in BURKE, 1989), e o esporte apresenta um grande potencial em promover esta consciência de êxtase. Segundo DaMatta (1975), a sociedade encontra sentimentos únicos nas manifestações coletivas, assim como um caráter lúdico e singular do sentido patriótico e da identidade nacional. O esporte permite as demonstrações de paixão nas ruas, nas residências, no trabalho, estimulando o senso de comunidade.

surfe_pipeline2_pedrogomes_photography.jpg Foto: Pedro Gomes Photography

Fora do futebol, que há décadas tem resultados expressivos internacionalmente e transformou-se em um potencial produto de marketing, o Brasil apresenta uma carência de ídolos no esporte, criando assim “heróis sazonais”, ou seja, grandes atletas que se mantêm em evidência por um período de tempo.

Nas modalidades individuais, temos exemplos emblemáticos como Ayrton Senna, na Fórmula 1, e Gustavo Kuerten, no tênis. Senna, talvez o maior ídolo nacional, foi três vezes campeão mundial e morreu tragicamente em um acidente durante o Grande Prêmio de San Marino de 1994, emocionando e deixando de luto o país inteiro. Já o tenista Guga ficou 43 semanas como o número 1 do mundo e conquistou três títulos no Grand Slam, mas precisou encerrar a carreira no auge em função de uma lesão crônica no quadril.

Anderson Silva, também conhecido como Spider, lutador de MMA (mixed martial arts ou, na tradução, artes marciais mistas) conquistou 17 vitórias seguidas e dez defesas de título consecutivas como Peso Médio no UFC. Como destaca José Ricardo Leite (2014), até 2011, “era apenas um brasileiro que se destacava em um esporte com palco nos Estados Unidos e que muitos torciam (e ainda torcem) o nariz para sua prática. Depois do cinematográfico chute frontal sobre o queixo de Vitor Belfort, Spider pegou um elevador que em poucos segundos o levou à idolatria. Ele mesmo já se comparou a Kuerten e Senna”. Outro atleta que se destacou foi o nadador Cesar Cielo, dono de recordes nas piscinas e diversas medalhas, como a de ouro nos 50 metros livres e a de bronze nos 100 metros livres nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Diferente de Medina, Cielo não cativou tanto o público por seu jeito mais tímido. O surfista tem a seu favor o carisma e a humildade, aspectos semelhantes aos de Guga, que até hoje carrega uma imagem quase incontestável perante aos fãs.

O torcedor, muitas vezes, ignora a técnica e é puramente passional, esperando que alguém o represente com excelência, coloque a bandeira verde e amarela no topo e que mostre o jeito alegre e brasileiro de ser. Dotados de talento e carisma, singularizando-os e diferenciando-os dos demais, estes “heróis” são paradigmas dos anseios sociais e, a partir de suas trajetórias, uma cultura se expressa e se revela (HELAL e MURAD, 1995).

A vitória de Gabriel Medina, além de inédita, aconteceu na era da informação e dos compartilhamentos virais, o que talvez tenha contribuído para sua rápida ascensão. A festa na praia de Pipeline com bandeiras do Brasil repercutiu como um título da Fórmula 1 ou do Grand Slam, ainda mais no ano em que a seleção de futebol alemã protagonizou o inesquecível 7x1 em cima do Brasil na Copa do Mundo.

Em 2014, Gabriel Medina apareceu em 14 reportagens exibidas pelo Jornal Nacional, sendo 11 apenas no mês de dezembro e, destas, cinco no dia 20 de dezembro, quando foi noticiada a conquista do mundial. Já em 2015, até o mês de junho, foram 11 reportagens veiculadas.

A saga de um herói precisa de um contorno mais humano para cativar o público. A representação social do ídolo no esporte fala de desafio, competição e, principalmente, superação, permitindo a identificação do espectador com aquela figura. A festa na areia lotada de brasileiros em Pipeline, no Havaí, demonstra isso. Muitos que estavam ali não acompanhavam o surfe em outras oportunidades, mas quando um brasileiro está no topo e é manchete em toda a imprensa, a torcida se expande.

É impossível negar que o Brasil ainda é o país do futebol. Não mais por seus resultados, mas pela paixão que envolve os brasileiros nesta modalidade. E como o surfe é um esporte novo na grande mídia, as comparações com a bola não faltam, como se as referências com as vitórias do futebol dessem a verdadeira dimensão dos acontecimentos. Este paralelo também pode acontecer para ressaltar o jeito brasileiro de ser, que com o carisma de Gabriel Medina e a paixão coletiva por praia, mostra bem a alegria do povo, assim como acontece no futebol. Durante muito tempo, o “esporte nacional” foi representado pela noção do mito heroico com base na noção do “futebol arte”. Neste âmbito a alegria e as habilidades dos jogadores de futebol (hoje, atletas) era o mais relevante a ser destacado, ensejando comentários, mesmo em situação de “derrota”, do tipo: “perdemos, mas jogamos com alegria”, “o craque brasileiro é diferente – joga um futebol malandro, alegre”. (SUASSUNA, 2008)

650x375_1332884.jpg A dramatização de um fato pode ser mais importante do que o acontecimento em si nos princípios que norteiam o imaginário popular. Portanto, um olhar mais demorado sobre o material jornalístico esportivo pode auxiliar na compreensão dos recursos acionados pela mídia na construção mítica de um ídolo do esporte (HELAL, 1998).

É bastante perceptível que o surfe ganhou mais destaque no Jornal Nacional após a conquista inédita de Gabriel Medina. Isso fica bastante claro ao percebermos que, nos mesmos meses do período analisado nesta pesquisa – de janeiro a junho –, em 2014 foi exibida uma reportagem, enquanto em 2015 foram 11. Pode-se observar também, que o destaque iniciou em dezembro, quando o atleta já tinha grandes chances de vencer o Campeonato Mundial, tanto na quantidade de aparições, quanto nos termos utilizados como “vitória espetacular” e “fazer história”.

Conforme Traquina (2005), é necessário levar em conta a presença de um “alguém” que narra os fatos. Ou seja, apesar de as informações serem verídicas, a forma com que são apresentadas pode influenciar na recepção do espectador. Na maioria das vezes, Gabriel Medina foi chamado de herói e ídolo nacional pelos jornalistas de maior referência no país. A partir do momento em que um esporte de pouca visibilidade aparece no Jornal Nacional com tanta notoriedade, é inegável que isso tenha consequências para o público.

Além do relevante feito esportivo, o Brasil tem certa carência nacional por um ícone. Com memória curta, o brasileiro vive intensamente aquele momento de vitória em um esporte diferente, como foram os casos do surfe, do tênis, do automobilismo, do vôlei e tantas outras modalidades, e depois, normalmente, se esquece dos seus “grandes” ídolos, revelando uma necessidade de problematizar os modelos construídos pela mídia sobre os esportes de alto rendimento.


Mariana Staudt

Jornalista, ariana, apaixonada por sol, verão e praia, por viajar, por fotografar e por escrever. Sou a pessoa mais curiosa que eu conheço e tenho os pensamentos a mil quilômetros por hora..
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