Carol Pereira

Carolina de Jesus Pereira é tradutora, revisora, editora e elaboradora de livros didáticos. Tem graduação em Letras (USP), pós em Tradução (UGF) e é mestranda em Educação (USP).

@carolinajesper

A Madre Teresa do imaginário popular e nossa ânsia por salvação

Mesmo depois de estudos e documentos que comprovam que Madre Teresa de Calcutá submetia os enfermos a processos de sofrimento deliberadamente, sua imagem é conservada como símbolo de bondade e altruísmo. Seria nosso apego por figuras de salvação um reflexo de nossa necessidade inerente em desejar uma solução que nem mesmo sabemos se existe?


journey-to-mystery-michelle-curiel.jpg Pintura "Journey to Mystery", da artista Michelle Curiel

Premiada com o Nobel da Paz em 1979 e beatificada em 2003 pela Igreja Católica, Madre Teresa de Calcutá é considerada um símbolo da bondade cristã. Lembrada como a missionária que dedicara a vida aos pobres e doentes de Calcutá (Índia), sua imagem resiste a provas e testemunhas que questionam os verdadeiros propósitos de suas ações.

Médicos e voluntários que trabalharam nos centros de atendimento das congregações afirmam que não havia medicamentos para os doentes e que, muitas vezes, pessoas morriam sem que tivesse havido qualquer intervenção, o que pode criar a falsa impressão de que as missões da religiosa careciam de recursos. A precariedade, entretanto, não estava relacionada à falta de fundos, uma vez que as missões recebiam milhões de dólares em doações, mas à filosofia de Madre Teresa, que via no sofrimento um caminho para a salvação. O objetivo deste texto não é questionar a fé ou a religião, mas compreender a relação de uma figura como Madre Teresa de Calcutá e nossa postura em outras esferas da sociedade.

Ao ser questionada acerca das circunstâncias em que viviam os pobres e moribundos nos centros de atendimento pelos quais era responsável, a missionária afirmara, em certa ocasião: "Acho muito bonito que os pobres aceitem o sofrimento, assim como Jesus fez. Acredito que o mundo tem muito a ganhar com o sofrimento deles". Quando adoecia, entretanto, a religiosa era atendida em hospitais de alto padrão. Além das denúncias de recusa em providenciar tratamento aos doentes, há documentos que comprovam sua ligação com políticos corruptos e a existência de contas bancárias secretas que recebiam dinheiro de fontes dúbias.

A proposta da Madre, segundo suas próprias palavras, era de que as pessoas esperassem ser salvas tão somente pela fé em Deus. Pregava que o maior problema do mundo moderno era “os gritos não ouvidos das crianças que não nasceram”, ou seja, o aborto e o uso de anticoncepcionais. Por meio de suas ações, a religião servia como pretexto para impulsionar essas causas, promover uma espécie de autodivulgação e justificar o sofrimento humano deliberadamente prolongado nas “prisões” em que mantinha os doentes. Dando aos pacientes um tratamento ritualístico de eras passadas, negava a eles o avanço da medicina a que ela própria tinha acesso e assistia, satisfeita, a uma cena em que pessoas com doenças contagiosas dividiam espaço com todas as outras em leitos insalubres.

Apesar de pouco divulgadas, essas informações não são novidade. Em 1995, o jornalista britânico Christopher Hitchens já havia publicado um livro detalhado acerca dessas acusações. Recentemente, um grupo de pesquisadores canadenses publicou um estudo realizado com base em mais de 300 documentos que comprovam esses fatos e põem em xeque o suposto milagre reconhecido pelo Vaticano. Segundo eles, a indiana “curada” pela Madre não era vítima de um tumor maligno, como fora declarado, mas de um cisto que desapareceu após meses de tratamento médico.

Mesmo diante de dados como esses, como explicar nossa insistência em citar Madre Teresa como exemplo a ser seguido, modelo de altruísmo e caridade? Nossa necessidade pela salvação parece ser a resposta. O próprio título “Madre” sugere tratar-se de uma pessoa à qual devemos recorrer quando o que nos aflige está além de nossa capacidade ou compreensão. Incapazes de assumir nossa posição no mundo concreto, recorremos a uma autoridade que nos leva a compartilhar qualquer crença que torne mais confortável e menos hostil nossa percepção sobre aquilo que nos cerca.

Um paralelo desta análise para nosso contexto atual é o que se observou nas últimas eleições. A maioria das pessoas parecia querer ser “salva de um país ruim” e defendeu, às vezes de forma agressiva, o político de sua preferência, como se ele, sozinho, pudesse ser responsável por uma reviravolta para o destino do Brasil. Embora tenha ares de necessidade biológica, a salvação instantânea, essa solução imediata para todos os problemas que nos assolam, é uma impossibilidade.

Em nossa infância, a única salvação pela qual ansiamos é o alimento, mas essa possibilidade de completude se esvai tão logo começamos a crescer. Segundo estudos da psicologia, a criança passa por períodos nos quais ainda não tem noção de si mesma, como quando falha em se reconhecer no espelho, por exemplo. Esse período é decorrente de nosso processo de adaptação ao mundo fora do útero, provavelmente o lugar mais confortável pelo qual alguém pode passar. Nessa situação de percepção inicial do mundo, a criança ainda não é capaz de abstrair os acontecimentos e interage sobretudo por meio de percepções sensoriais: sente fome, chora por instinto e recebe alimento, na forma do leite materno, além de colo, calor e amor. Compreende, por meio de um condicionamento simples pavloviano, que chorar traz a realização de seus desejos. Da mesma forma, os adultos, que lidam com problemas infinitamente mais complexos, também anseiam por alguma solução que alivie o sofrimento por completo, algo inexistente no mundo real.

O que nos leva a eleger “potenciais salvadores” em vez de nos responsabilizarmos por aquilo que nos aflige? Cabe pensar que a história do ser humano na Terra é marcada por uma longa e dolorosa caminhada: durante centenas de milhares de anos, fomos perseguidos por predadores; morremos de infecções que, hoje, seriam consideradas simples; e, por muito tempo, ignoramos grande parte dos fenômenos da natureza. Para os gregos, num exemplo de história um pouco mais recente, um eclipse solar bastava para atestar a existência de deuses: afinal, se o dia podia virar noite, o que seria impossível para esses seres fantásticos? Cientes de nossa pequenez, passamos a esperar soluções grandiosas e exteriores a nós.

Assim como na infância, nossa zona de conforto ideal seria um lugar onde nosso desejo fosse atendido prontamente, tal qual ocorria no colo materno. Essa etapa de nossas vidas evidentemente nos deixa resquícios psicológicos quanto a “pedir e receber”. Dessa necessidade narcisista de que o mundo nos socorra vem nosso desejo pela salvação divina, pelo imponderável benevolente. De certa forma, o que faz as pessoas acreditarem que seus desejos de salvação serão atendidos é o próprio desejo de salvação. Mesmo tendo noção clara de onde nosso corpo termina e o resto do universo começa, sofremos a dor existencial inerente à nossa espécie. Não sabemos por que estamos aqui, mas sofremos e desejamos que o universo nos ofereça seu seio. A nós, ainda falta entender que assumir nossa posição no mundo concreto é uma tarefa que não pode ser delegada.

(Escrito em parceria com Fernando Candalaft)


Carol Pereira

Carolina de Jesus Pereira é tradutora, revisora, editora e elaboradora de livros didáticos. Tem graduação em Letras (USP), pós em Tradução (UGF) e é mestranda em Educação (USP). @carolinajesper.
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