Carol Pereira

Carolina de Jesus Pereira é coautora da coleção Circles (editora FTD), tradutora, revisora, editora e elaboradora de livros didáticos. Tem graduação em Letras (USP), pós em Tradução (UGF) e mestrado em Educação (USP).

@carolinajesper

Impotência amorosa

Como compreender a fragilidade dos vínculos humanos em uma era na qual “relacionar-se” parece uma necessidade imperativa?


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A ideia acerca do amor romântico nunca foi unânime. Por um lado, existem aqueles que acreditam nos modelos tradicionais de amor entre duas pessoas. Por outro, há quem defenda que relacionamentos amorosos duradouros são, na verdade, uma maneira de disfarçar o medo da solidão. Dentre tantas noções diferentes, há também quem acredite que o princípio básico dos relacionamentos é o sacrifício de projetos pessoais e que, portanto, vínculos humanos mais frágeis seriam indício de indivíduos mais fortes. Como saber se vivemos, de fato, uma era em que nos bastamos ou se estamos diante de uma crescente incapacidade para amar?

Um discurso corrente nos dias de hoje é a ideia de que compromissos duradouros são uma armadilha a ser evitada a todo custo. Se uma escolha implica a eliminação de todas as outras opções, por que abrir mão de uma gama de possibilidades “românticas” em nome de um único amor, naturalmente defeituoso, talvez insatisfatório, provavelmente incompleto? Do ponto de vista dos relacionamentos, há uma necessidade constante de negociação entre os impulsos e os compromissos, ou entre as vontades e as responsabilidades, uma situação a que muitos preferem não se submeter. Amar não é coisa de gente preguiçosa.

Para um dos grandes pensadores da sociedade contemporânea, o sociólogo polonês Bauman, uma das marcas dos relacionamentos atuais é o desejo conflitante de “apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos”, de tal modo que seja possível desfazê-los a qualquer momento. Ele ressalta o dilema presente no desejo por uma mão amiga, que ofereça segurança e estabilidade, e a desconfiança da condição de “estar ligado”, que poderia trazer “encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar”.

Uma expressão da língua inglesa pode ajudar a ilustrar o dilema: “you can't have your cake and eat it too”. Assim como não se pode comer o bolo e conservá-lo ao mesmo tempo, desfrutar de um relacionamento sem lidar com as eventuais amarguras parece uma impossibilidade lógica. Fugir do amor acaba sendo a saída encontrada por muitos. Bauman, no entanto, acredita que, assim como a morte, não se pode desviar dele: “chegado o momento, o amor e a morte atacarão — mas não se tem a mínima ideia de quando isso acontecerá. Quando acontecer, vai pegar você desprevenido.”.

Em um cenário no qual a fuga deliberada do amor parece cada vez mais popular, também não é raro que indivíduos que se veem na posição de “recebedores” do amor alheio desenvolvam por eles um sentimento de repulsa. Como explicar essa tendência?

Minha primeira hipótese remete a um texto no qual a jornalista Juliana Cunha comenta “esse respeito esquisito que a gente sente pelas coisas que nos rejeitaram”, seja ele relacionado a empresas que não nos quiseram, instituições que não nos aprovaram ou pares amorosos que nos deram o fora. Como em um sistema não oficial de castas, aquele que não nos tem amor passa a ocupar a posição de “bem inatingível”, automaticamente colocando em posição inferior quem nos deseja. Como bem concluiu a jornalista, “tem um pouco de Groucho Marx nisso: no fim, ninguém quer fazer parte de um clube que o aceite como sócio. Ser aceito é uma coisa que deixa a falta de critérios da instituição muito latente.”.

Para a segunda hipótese, recorro a Bauman novamente. Ele acredita que, em uma cultura consumista como a nossa, que oferece tudo pronto para uso imediato, prazer instantâneo, satisfação garantida “ou seu dinheiro de volta”, ter de aprender a amar se coloca como uma oferta falsa, insegura e irrelevante em contraste às outras mercadorias, que seduzem ao prometer “desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço”. Por fim, conclui que a vontade de consumir se traduz em desejo, ao passo que o amor, por outro lado, consiste na vontade de cuidar: “não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas.”.

Minha terceira hipótese baseia-se na “legião de autoindulgentes” sobre a qual escreveu Ivan Martins no início de 2014. Trata-se de uma multidão de gente tomada pela aversão a todo tipo de compromisso, culpa ou responsabilidade; gente que não aceita sacrifícios e que não vetaria, a si mesmo, qualquer tipo de prazer. Autoindulgentes sentem tanta pena de si que se julgam dignos de não ter de enfrentar nenhuma circunstância negativa; merecem tão somente satisfações. “Especialistas na arte de se autoperdoar”, como afirmou o autor, não fazem cerimônia ao ignorar o sentimento dos outros. Amar envolve alteridade, disponibilidade, responsabilidade; estar a serviço do outro, ajudar, proteger. Para os que creem na urgência de suas vontades, o lado B do amor pode parecer insustentável.

O perigo proveniente da idealização coletiva da fuga amorosa é que, funcionando como uma lógica tácita, que paira no ar, ele pode nos colocar, inconscientemente, em posições passivas. Como peças de um tabuleiro de um jogo que não é nosso, nossos movimentos passam a não nos pertencer, obedecendo a uma dinâmica externa e não questionada. Contaminados por um imaginário coletivo, podemos não deixar espaço para singularidades, surpresas e mudanças de planos. Qualquer tentativa de relacionamento estará, portanto, fadada ao fracasso, visto que seu destino estará pré-decidido independentemente das circunstâncias. Na ausência de comprimidos para tratar a impotência amorosa, talvez o primeiro passo seja compreendermos que será preciso perder algo para permitir que o outro entre. Certas coisas só são alcançadas quando se abre mão de outras.


Carol Pereira

Carolina de Jesus Pereira é coautora da coleção Circles (editora FTD), tradutora, revisora, editora e elaboradora de livros didáticos. Tem graduação em Letras (USP), pós em Tradução (UGF) e mestrado em Educação (USP). @carolinajesper.
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