maravilhoso

O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

a pena e a coisa

A literatura é uma imprescindível ferramenta de compreensão do mundo, mas estamos nos esquecendo de como ela ocorre e o que é de fato, muito mais do que uma leitura lúdica, é uma ciência e uma arte.


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É impressionante a variedade de maneiras pelas quais a literatura nos ajuda a avaliar e reavaliar a vida. Como algo tão abstrato pode possuir um vínculo tão profundo com o mundo concreto? Por outro lado, não se espera outra coisa, afinal, é produto do trabalho dos homens, embebidos em realidade. A título de exemplo, veja a recente polêmica acerca da possibilidade de re-publicação de Mein Kempf – Minha luta –, ditado por Hitler enquanto estava de férias na cadeia.

De tantas formas este simples evento nos desvenda a sociedade! A reação inicial do homem comum e com um mínimo de conhecimento histórico é um ligeiro calafrio ou um desconforto pungente. Isto porque sabemos a qualidade da oratória de Hitler, o quão perigosa é a exposição às suas fantasias megalomaníacas, mas também por reconhecermos o estado fragilizado da mentalidade global. Observamos o soerguimento do conservadorismo generalizado e a multiplicação de movimentos fascistas, mas não nos atentamos. Não nos importou que alguém estivesse perto de uma panela com água fervente, até que percebemos que a pessoa em questão é uma criança.

É disso que se trata Ele está de volta – Er ist wieder da –, obra satírica do escritor alemão Timur Vermes, de 2011, e que já possui adaptação cinematográfica. Simplesmente, um dos livros mais brilhantes recentemente lançados. No livro, Adolf Hitler desperta em um terreno baldio, no ano de 2011, sem saber o que se passou durante sua ausência. Após se contextualizar, descobre a ferramenta de propagação midiática Youtube, na qual publica um vídeo discorrendo sobre a necessidade do nazismo para a sociedade alemã. E a pior parte: o vídeo se torna um fenômeno, adquirindo grande adesão popular.

Uma análise óbvia do livro permitiria verificar que se trata de um alerta sobre a mentalidade mundial, mas a forma pela qual essa mensagem é subliminarmente transmitida aproxima a obra do estado de arte. É banal observar que a narração é feita em primeira pessoa e pelo próprio Hitler, no entanto, com uma visão mais aprofundada, o efeito dessa escolha é encantador. A técnica ilustra o modo e a razão pelos quais essa ufania doentia parece salutar para um fascista, mostra como é evidente para um fascista que ele esteja certo, mas sem fazer propaganda da ideologia. Os delírios de grandeza de um fascista são muito semelhantes aos meus, aos seus e aos de qualquer pessoa comum, porque eles são pessoas comuns.

Fascistas não são parentes do lobo mau, descendentes de vampiro e originados nas trevas. São seres humanos, possuem famílias e amigos, odeiam, mas também amam. E parte importante do combate é a desmistificação. Ninguém pode combater Deus, nem a Cuca, nem o Bicho Papão. Só se combate o que há de concreto. Como disse a personagem V, da série de quadrinhos V de vingança: “Ideias são à prova de balas.” Não devemos combater “o fascismo”, não há um monstro nas linhas inimigas, há soldados, há homens. Há homens, oprimidos por outros tantos monstros. Homens, assolados pelo Medo, pelo Frio, pela Solidão. Apenas homens, enfrentando os mesmos monstros que nós. Quem pode culpá-los por criar um monstro ainda maior na tentativa de derrotar aqueles que já os aterrorizam?

A literatura nos permite uma leitura, não somente de um livro, mas de uma sociedade. Esse efeito é mais explícito quando se estuda escolas literárias, como o romantismo, que surgiu quando as projeções da civilização destoavam dos fatos, quando a realidade subjetiva, sonho, divergiu da realidade objetiva, vida, de modo que a amargura levava a produções textuais imbuídas de sofrimento, distanciamento do ideal, e obscuridade.

Há, também, além do conteúdo, a forma da literatura. Pode-se perceber, como afirma o polímata Gilberto Freyre, que sociedades coloniais de cunho religioso predominantemente católico, como a brasileira, não eram férteis para o surgimento de diários pessoais, graças à forte presença religiosa católica, que contava com costume confessional, em que o crente comunga com Deus por meio de uma autoridade sacerdotal. Sociedades originariamente protestantes, como a norte americana, por não possuírem o mesmo costume, fomentavam a confissão por meio do diário.

Já discuti aqui diversas formas pelas quais a literatura permite ativamente o estudo da sociedade: a transmissão indireta, que observa aspectos como a reação popular à existência de determinada obra; a transmissão direta essencial, que se traduz no conteúdo da escrita, nos temas abordados, nos significados das palavras; e a transmissão direta formal, tratando exatamente do molde, do corpo, da distribuição, da aparência do texto. Falta apenas a transmissão passiva, aquela que a literatura não prevê, a ausência de mensagem, o estudo do que NÃO É publicado, em vez do que É publicado.

Esta funciona como uma descrição negativa. Em vez de dizermos que “Fulano é alto”, dizemos que “Fulano não é baixo nem médio”. Como exemplo; podemos citar os eventos de ocorrência das “Fogueiras das vaidades”, no século XV, em que as autoridades queimavam itens que, de alguma forma, remetessem ao pecado, incluindo alguns livros; a Bücherverbrennung – literalmente, “queima de livros” –, promovida pelo partido nazista, em 1933, avaliando o conteúdo dos livros queimados; a censura empregada por ditaduras totalitárias ao redor do mundo; ou a manipulação midiática, seja por desonestidade intelectual, selecionando apenas os dados favoráveis para a formulação de conclusões convenientes, ou simples omissão da imprensa.

Portanto, não, os dados que os professores de literatura tentam transmitir não são vazios, não são inúteis, tem total aplicabilidade prática. O estudo literário é essencial para a compreensão de contextos históricos, seja clássico, medieval, humanista, moderno ou contemporâneo, oriental ou ocidental. Todo e qualquer detalhe de uma cultura é essencial para a sua plena compreensão. Não leia apenas as palavras, leia o texto, muito mais do que um aglomerado vocabular. Não absorva apenas o texto, absorva a mensagem, muito mais do que meia dúzia de aforismos diagramados. Veja o que há, como há e por que há, contemplando também o que não há. Esta é a verdadeira arte da literatura, o resto é amadorismo, leitura despretensiosa por pessoas pretensiosas.


Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos.
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