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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

O ESTRANHO SEGREDO DO DOUTOR

Todos tem segredos. O da sua avó é algumas raspas de laranja na massa do bolo, embora ela chame de “amor”; o do jogador se chama “ás na manga”; o da juventude eterna de Keanu Reeves, digo, Dorian Gray era um pacto com o demônio; mas qual seria o segredo da maravilhosa bilheteria de Stephen Strange.


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O senhor, aliás, doutor Stephen Strange se revelou ao mundo em 2016 com um extraordinário arsenal de truques, magias, mandalas e fractais em seu repertório. Um verdadeiro espetáculo para os matemáticos de plantão observar aquela experiência caleidoscópica. Entretanto, o maior mistério ainda está para ser desbastado: sua fascinante bilheteria.

Claro, não é nenhuma surpresa que filmes de super-heróis tenham uma boa recepção entre a comunidade dos novos geeks e nerds pós-modernos. No entanto, o faturamento de, até sua terceira semana de exibição, seiscentos milhões de reais – com estimativa para oitocentos –, superando em muito outros lançamentos secundários maravilhosos – e com isso quero dizer marvelous, de onde surge o nome da empresa responsável por sua criação –, como Homem Formiga, e se equiparando a alguns dos maiores, como Capitão América: O primeiro vingador.

Evidentemente, o lucro do Doutor não se compara ao de outras séries, como Homem de Ferro, pois todos tem seus segredos. O segredo do vingador de lata, como sempre, é o homem dentro do traje, Robert Downey Junior. Outros sucessos de aventuras fictícias, também o ultrapassam em termos de lucro, mas não em quebra de expectativas, como Animais Fantásticos e O Despertar da Força – cujos segredos são os deslumbrantes mundos construídos pelas séries que os antecederam.

Contudo, além do contratempo de não ter uma série anterior que lhe fornecesse algum suporte, Doutor Estranho sucede uma exaustiva e entediante sequência de filmes heroicos clichê, tais como Batman Vs. Superman, um impressionante show de... luzes e piromania confusa.

Porém, essa limitação e humildade diante de forças superiores é justamente uma parte do segredo que consagrou Estranho como um dos maiores protagonistas entre a audiência. A avaliação 13% superior a Animais Fantásticos e equânime à de Despertar da Força no portal Rotten Tomatoes são produtos diretos do realismo fantástico e da redução dos recursos comerciais empregados pela produção.

A tratar da amputação das frivolidades luminosas absolutamente fantasiosas e dispensáveis, percebe-se a subordinação crível dos poderes apresentados a medidas palpáveis e limites coerentes com a lógica interna do enredo. Não há raios de luz hiperbólicos atravessando a tela em todas as direções, o dito “Efeito Michael Bay”, caracterizado por explosões inexplicáveis, patriotismo exacerbado ou demais técnicas de captura da audiência a despeito da qualidade narrativa, a audiência se sente intelectualmente valorizada.

Tal decisão de manter limites tangíveis para as ações das personagens e os eventos é denominada “verossimilhança”. Verossimilhança é diferente de veracidade, esta consiste na simples transposição da realidade cotidiana. Verossimilhança é um contrato muito mais fluido, definido não por parâmetros factuais, externamente predefinidos, como a física, mas uma combinação das possibilidades apresentadas pelo universo fictício disposto na própria narrativa.

Esse processo trabalhado desde a Antiguidade Grega é o que permite explicar como se considera possível que o Batman construa um carro de tecnologia estupidamente avançada, que o Super-Homem perfure placas de aço com as próprias mãos, mas não que o Batman vença o Super-Homem em uma luta. Isso, pois as lógicas internas às quais as duas personagens estão submetidas são diferentes, enquanto uma possui obstáculos iminentemente humanos, outra possui potencial virtualmente infinito.

Essa humildade, essa capacidade de trabalhar com o mundo mais concreto – perceba que os poderes recaem sobre reinvenções, abstrações, do mundo concreto –, esse senso de realismo ao abordar o místico, trazem um caráter muito mais sóbrio à narrativa, muito mais aceitável.

Porém o essencial é o desfecho da trama, que culmina justamente na afirmação e na aceitação da pequeneza de Estranho mediante o poder descomunal do antagonista Dormammu. Embora outros elementos do chamado “caminho do herói” sejam respeitados – protagonista anônimo encontra um propósito superior através de um mentor que posteriormente falece –, não há a típica autossuperação.

Estranho não quebra paradigmas, não desconstrói o senso comum de barreiras da magia, ele simplesmente negocia com o vilão dentro de suas limitações. Convenhamos, ele, apenas um aprendiz com sorte dos mistérios da mágica e das dimensões, por maior e mais pungente que fosse sua inclinação para a prática, jamais poderia enfrentar a entidade suprema do mal em pé de igualdade. E, por respeitar essa constatação óbvia à maior parcela do público, a audiência sente que sua capacidade intelectual foi respeitada.

Nas produções cinematográficas comerciais em geral, este efeito é abandonado em detrimento de um mais catártico e “esperançoso”, visto que todos os conflitos encontram a resolução mais positiva possível – o mocinho encontra o poder máximo, nenhum mal apresenta uma ameaça significativa e relevante, junta-se com a mocinha, vivem felizes para sempre. Mas tudo que se presuma perfeito – no caso, temporalmente perfeito, “eterno” – é meramente ideal, utópico, impossível no mundo real, concreto. Prevendo assim a possibilidade de recorrência dos problemas, a história se aproxima de nossa realidade; mesmo que seja todo fantástico, é um realismo fantástico, sentimos algum nível de identidade com a narrativa.

Através da restrição da aplicação de efeitos especiais ao universo concreto, a construção mais palpável do enredo e das habilidades das personagens, a quebra de expectativa, a humildade, o respeito à racionalidade do público, todos esses fatores se somam na produção de uma obra que gera legítimo espanto por parte da audiência. Esse produto atuando na construção de uma das cenas mais icônicas e disseminadas que um filme comercial de super-heróis já proporcionou ao mundo. Esse conjunto de sensações e cenas é o tempero de família, a cova no canto do sorriso, ou qualquer uma dessas coisas que chamamos de segredo e que invariavelmente nos conquistam e compõem uma bilheteria maravilhosa.


Ettore Cagni

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