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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

Olímpiada à brasileira: elefante de marfim

As Olimpíadas de 2016 são positivas, negativas ou... irrelevantes?


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Como se sabe, o Brasil foi o candidato eleito para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, o que inclui o desfile carnavalesco da Tocha por diversas capitais e demais cidades do país. No dia 29 de julho, na cidade carioca de Angra dos Reis, essa tocha foi apagada.

Há opiniões divergentes sobre o assunto: alguns apoiam esse ato como protesto, rechaçando as crises nacionais econômica, política e social; outros refutam o mesmo ato, alegando truculência e ignorância em relação aos valores filosóficos simbólicos embutidos na Chama. Eu, pessoalmente, permaneço confortavelmente inerte.

Como, você pergunta? Simples. De fato, a intenção originária era de que a Tocha Olímpica e o trajeto percorrido fossem ícones de ideais como cooperação, esperança, altruísmo, justiça, igualdade, demonstração da influência do poder desportivo e inspiração para a juventude. Entretanto, no contexto brasileiro atual, não possui mais significado do que qualquer promessa de campanha eleitoral. Desse modo, meu descaso se revela ambivalente, pois, da mesma forma que não ligo especial importância ao símbolo, tampouco me apetece a iconoclastia cética.

Uma causa primordial de ceticismo seria o destino dos investimentos referentes ao evento. Uma das primeiras medidas adotadas pelo governo foi a construção de barreiras sonoras ao lado das rodovias, para que o intenso fluxo de automóveis não prejudique as populações locais. Curiosamente, essas paredes foram construídas somente em locais em que obstruíssem uma vista plena de comunidades pobres a partir dos carros – isto é: ou ricos não precisam de silêncio, ou o objetivo não é proteção auditiva.

Outro exemplo dessa organização sectária é o trajeto adotado pela Tocha, que evita as periferias, concentrando-se, sempre que possível, nos centros urbanos. Sendo assim, de que modo o percurso da Tocha expande a influência do esporte, visto que os únicos que o visualizam são os integrantes das classes média e alta que já compraram ingressos para todos os Jogos, que já assistem a modalidades diversas de esportes internacionais, e cujos filhos já estão matriculados em aulas de natação, tênis e basquete? De que modo a Chama inspira a juventude carente e a afasta das drogas e da criminalidade, se esse nicho está exilado a quilômetros de sua luz?

Essas e outras injustiças sociais, como a realocação de populações marginalizadas e demolição arbitrária de favelas pelo estado com vistas a fomentar a iniciativa privada – empreendimentos domiciliares, alternativas de entretenimento particular e afins –, ganham visibilidade no documentário produzido pelo grupo Vox, 2016 Olympics: What Rio doesn’t want the world to see – "Olimpíadas de 2016: O que o Rio não quer que o mundo veja". Mas as falhas teóricas e éticas não são as únicas presentes no processo olímpico brasileiro, as massas de facções dissidentes também apresentam certo grau de contradição interna.

Um dos interesses nacionais presentes nos Jogos é a possibilidade de captação do capital estrangeiro e investimentos que tragam benefícios sociais permanentes. Bem, uma das causas do afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República foi sua demasiada preocupação com as Olimpíadas em meio a déficits orçamentários e dificuldades de fornecimento de serviço público. Ostentando, entre outras mais significativas, esta causa, um impeachment foi conduzido, para que o presidente interino Michel Temer revertesse a situação. Uma de suas primeiras Medidas Provisórias, contudo, foi delegar quase três bilhões de reais para que a capital do Rio de Janeiro se adaptasse melhor às necessidades de acomodação turísticas. Ainda assim, não se ouve mais as famigeradas panelas. Em outras palavras, essa revolta contra as prioridades nacionais parece deturpada, dissimulada e parcial.

Por outro lado, há aqueles, dentre os fanáticos pela extinção do fogo, que não tem a pretensão de objetivo maior do que o puro divertimento, o... esporte. Estes são os que mais me cativam a afinidade, pois me são indiferentes. Além do mais, há um sentido de ordem que rege seu caos.

Em geral, em outras ocasiões, a Tocha Olímpica celebra os valores propostos, sim. Promove união, fraternidade, paz e todas essas coisas maravilhosas. No entanto, o símbolo presente não cumpre com os papéis que lhe foram atribuídos em sua concepção. Em verdade, se há algo como um Espírito Olímpico que habita aquele fogo – uma versão alternativa do Espírito Santo com polainas, regata e calça de ginástica –, ele estaria bem contente com a extinção da Chama. Ela é um símbolo, sim, não mais do que se pode chamar de ideais, mas de sua perversão.

Novamente, porém, essa perversão torna o símbolo de tal forma vazio de significado que sequer vale a pena o esforço de apagá-lo. Qualquer trabalho dispensado é mero desperdício, é fútil. Não obstante, sob um ângulo mais comum, percebe-se as já exauridas manchetes acerca da falta de infraestrutura nos mais variados campos de atuação e interferência do Estado: a insuficiência quantitativa do transporte público, dos hospitais públicos e ferramentas relacionadas à saúde em geral; bem como aspectos negativos do viés qualitativo dos serviços referidos e a precariedade da segurança pública e seus agentes, no despreparo prático para o exercício de manutenção da paz.

O cenário olímpico brasileiro é de tal forma bizarro que os absurdos notórios, não somente transformam a perspectiva de realização do evento em um risco internacionalmente contemplado, como o tornam um ritual de devassamento dos princípios propostos pelo próprio acontecimento. Por um lado, a conjuntura é indefensável, por outro, não compensa a rebelião. Cinco anéis olímpicos, cada um, um furo n’água. Essa grande festa do esporte é um grande elefante branco de marfim, um símbolo degradado, cujo significado foi contaminado em sua essência e pela sua essência com a interferência de supostos artesãos que dessa arte nada entendem, se não o que lhes convém.


Ettore Cagni

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