maravilhoso

O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

Onde pode sentar?

Já teve a sensação de não ser bem vindo na sua própria casa? Não? Isso é porque não tem espinhos em cima da sua cama. Está na hora de repensar a arquitetura e o planejamento urbano, trazer mais calor humano e menos frio metálico.


arquitetura hostil.jpgÉ adorável circular na minha cidade. O prefeito decidiu que a manutenção de asfalto é muito onerosa, então, agora, temos ruas de granito. Um gasto pequeno, visto que os prédios públicos são de mármore. É tão prazeroso andar na minha cidade. As praças tem roseiras por toda parte, o perfume do orvalho matinal, e sempre que me canso de peregrinar há um banco de couro estofado ou uma cama para repousar. Posso me aventurar no meio da rua a qualquer momento, os carros param para a gente passar. É uma pena, uma lástima, nunca ter conhecido minha cidade, pois vivo apenas na minha torre de marfim. Não quero reclamar da imperfeição de minha cidade, sem granito, sem mármore, sem roseiras, sem orvalho, sem cama nem banco estofado. Vim reclamar da minha cidade, como todas as cidades, sem prazer. Nenhum lar é perfeito, todo apartamento de solteiro é vazio, toda casa de família sempre precisa de alguma reforma. Mas, pelo menos, debaixo do pó das paredes quebradas e em meio ao cheiro de tinta fresca, há um lugar com chão e um pedaço de teto que posso chamar de lar. Preocupo-me com um mundo onde as ruas são para os carros e os shoppings são para os cachorros, e ai do pedestre se se demorar na faixa. Pet friendly, buzinada... ainda na busca por um lugar “human friendly”. Preocupo-me quando qualquer poro e furo na estrada é razão de alarde, mas ninguém se importa com as passarelas caindo aos pedaços. Parece que Alguém construiu o mundo para os homens e os homens construíram um mundo para os carros. O livro “Autocracia” – Rumble Strips –, de 2008, pelo quadrinista britânico Woodrow Phoenix, denota como a cidade é arquitetada, não para humanos, mas para carros. Nós mesmos internalizamos de tal modo a cultura e a sociedade do automóvel que há quem se oponha a uma lei que obrigue carros a pararem e esperarem enquanto o pedestre cruza a faixa. Fosse a rua o único problema, inda se salva. Mas o problema está nas calçadas, está nos bancos, está nas praças. Já viu espinhos debaixo de um viaduto? No assento dos bancos? No chão da praça? Contornando canteiros? Esse é o conceito de arquitetura hostil, fortemente disseminado e empregado. Mas por quê? Porque é feio ter mendigos dormindo debaixo da sua sacada. Porque é impróprio um casal sentar muito próximo. Porque não é moderno todo esse contato humano. Esse calor orgânico é difícil de administrar. Muito melhor manter todos trancados. Cada qual confinado em sua própria cela seu quarto. Uma cidade só para carros é como uma clínica de fisioterapia para cadeirantes que só tem escadas. E resolve se consertarmos as passarelas? Não, absolutamente não. Por que é que o tráfego humano deve ser desviado? Coloquem os carros para darem voltas infinitas, cruzarem a cidade para atravessarem uma rua, pode perguntar, eles não se importam. E com todo esse frio metálico, essa rigidez concreta, ainda se perguntam por que a cidade é cinza. É mais do que bater uns pregos e pintar as favelas. É a beleza de uma criança andando de bicicleta, costurando por entre as árvores, não por entre os carros. É o frescor de um piquenique ao pé de uma árvore, não de um prédio. Por uma vista colorida, por um horizonte limpo, por um ar que não me envenene, por não ficar preso em meu quarto. Pela minha humanidade. Esse mundo cão, onde moradores de rua são tratados como pombos e ratos, não está preparado para ser pet friendly. Não pode sentar nas escadas. Não pode sentar nas calçadas. E quando, no mais das vezes, me aventuro na ciclofaixa, ouço motoristas reclamando em caixa alta. Portanto, por favor, vamos deixar os aparatos de tortura, os chicotes e os espinhos, para as masmorras medievais e as sessões de masoquismo. Quero circular na minha cidade com o prazer da liberdade, ao sabor do vento, porque, até onde sei, quem paga imposto sou eu, não é meu carro.


Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos.
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