maravilhoso

O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

Prometeu ovolactovegetariano

Por que não aderir ao veganismo? O mundo ficaria livre da brutalidade e do sofrimento de seres criados em cativeiro, amputados e abatidos para mera satisfação dos prazeres humanos, não é? Bem, na verdade...


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Provavelmente você já ouviu falar do mito de Prometeu, mas, em síntese, ele foi o cara massa da mitologia grega que roubou o fogo do Olimpo e o trouxe para nós, meros mortais, permitindo o avanço da civilização. Não vim discorrer sobre o simbolismo entre luz do fogo e conhecimento. Gostaria, sim, de compará-lo aos nobres vegetais que recobrem nosso amado planetinha azul. Não, não no sentido de que eles realizam fotossíntese, adquirindo a energia luminosa do Sol e fornecendo energia potencial química, que, ao seu modo, é essencial para o avanço da civilização. Isto não, sou por demais moderno para tanto. Gostaria de estabelecer a comparação através da resolução do mito do menino Prometeu e o destino que reservamos aos nossos verdejantemente adorados petiscos.

O brilhante Prometeu, salvador da humanidade, recebeu uma recompensa por seus feitos honrosos e os desdobramentos destes: ser acorrentado a uma pedra no acme de uma montanha, onde uma águia lhe devoraria o fígado – isso mesmo, a bicadas –, que se regeneraria, diariamente. Imaginação inventiva a desses balcânicos, mas não muito agradável. De que modo isso se refere ao veganismo, o leitor pergunta? Em tempo, chegamos lá.

Veja, há uma grande chave para a lenta, porém estável, expansão desse método alimentar. A “Regra de Ouro” – não causar aos outros aquilo que não se quer que recaia sobre si – é o fundamento sobre o qual se edifica esse estilo de vida. No caso, os outros seriam os animais irracionais, doravante denominados “bichos”, que sofreriam genocídios diários para abastecer as linhas de produção de marcas de alimentos pré-prontos, como Sadia e afins. Ora, se não nos soa agradável sermos confinados, recheados, sedados, mortos, esquartejados, moídos, embalados a vácuo, organizados em caixas belamente adornadas, assados, fritos, cozidos e devorados, então por que bichos deveriam sofrer esse destino? Nisso, se apoiam no fato de que bichos, embora irracionais, são, não menos, sencientes – tem a capacidade de sentir –, e, portanto, sofrem.

A conclusão lógica é que, para se cultivar alimentos de forma extensiva, tendo em vista, obviamente, o abate, seria uma medida mais “humanizada” optar por uma alternativa sem a invejável habilidade de sofrer. Afinal, qual foi a última vez que você ouviu plantas mugirem desesperadas antes de rumarem para o matadouro? Quando se viu plantas chorarem com a gradativa chegada do momento definitivo em que são brutalmente arrancadas de seus lares?

Mas... e se elas de fato sofrem, porém simplesmente não compreendemos seu plangor?

Já sonhou que foi enterrado vivo? Sem conhecimento de quando ou onde está, sem saber se há alguém por perto que possa ajudar, ofegante, uivando de medo, berrando, mas sem saber se estão ouvindo. Ou, pior, exposto em praça pública, em um aquário de vidro que impeça a saída de sons, com água entrando e preenchendo o interior; o público? uma multidão de cegos, insensíveis ao seu martírio.

Acredito que essa seja a descrição mais aproximada possível de tal cena. Seria uma pena se, ao pouparmos bezerrinhos do fado cruel, condenássemos uma legião imensamente mais numerosa de seres vivos ao mesmo caminho. E se as coisas às quais geralmente nos referimos como “aquilo” forem, na verdade, seres, aos quais deveríamos chamar “eles”? Essa foi uma das questões levantadas pelo jornalista estadunidense Michael Pollan após análise de uma compilação de diversos dados apresentados por estudos recentes na controversa área da “neurobiologia botânica”.

A princípio, é necessário esclarecer que o nome é, de fato, inapropriado. Não, plantas não possuem neurônios, ou terminações nervosas, – inclusive cérebro – como os animais. Entretanto, também não possuem sistemas propriamente digestivos ou circulatórios, mas, não menos, a botânica estuda capacidades análogas dos vegetais – fluxo de seiva e fotossíntese.

Os diversos estudos se iniciam com a doutora Monica Gagliano, da Universidade da Austrália Ocidental. A Doutora liderou um experimento em que examinava a habilidade de resposta e “aprendizado” – posteriormente explicarei as aspas – da espécie sul-americana Mimosa pudica, assim nomeada por fechar suas folhas ao sentir qualquer toque. A descoberta que lhe rendeu fortes repreensões no mundo científico foi a de que o éter poderia ser utilizado para reduzir o impacto do estímulo “toque”, levando-a a diferenciá-lo dos demais, além de reter a informação por períodos tão extensos quanto um mês. O problema é que éter é utilizado para inibir estímulos elétricos neurais, então plantas não deveriam ser afetadas.

Portanto, sim, plantas “sentem”, de alguma forma, dor. Esta também foi a conclusão à qual chegaram o pesquisador Heidi Appel e o professor Rex Cocroft, ambos pertencentes à Universidade de Missouri. Após exporem Arabidopsis thaliana – espécie comumente relacionada ao agrião e que produz um óleo de mostarda extremamente tóxico para seus predadores quando ameaçada – a uma lagarta faminta. Os cientistas gravaram áudios da mastigação, posteriormente separando as plantas em grupos, cada um ouvindo um som diferente por determinado período de tempo. Os indivíduos expostos ao sádico simulador sonoro da refeição da lagarta, mediante novo estímulo real, puderam reagir mais rapidamente do que os demais. Novamente, as plantas apresentaram competências antes consideradas possíveis apenas em ficções científicas.

Agora, apesar de todos esses dados, a comunidade científica ainda se apresenta receosa em considerar plantas enquanto seres conscientes, portadores de inteligência e capazes de aprendizado. Vale lembrar que o termo consciência não é sinônimo de autoconsciência, não se propõe que plantas se detenham em divagações existenciais acerca de sua individualidade, apenas que percebam estímulos externos e respondam a eles, o que seria próximo a... você dormindo. Um fator que leva a essa controvérsia é que, enquanto vários psicólogos definem inteligência, em termos gerais, como a habilidade de alcançar com uma meta, outros tantos a humanizam de tal forma a outorgar requerimentos arbitrariamente antropocêntricos, tal qual a presença formal de um cérebro. Além do mais, observada a baixa, porém existente, capacidade de questionamento e adaptação desses seres, muitos preferem considerá-la irrelevante.

Acredito que minha frustração com pseudocientistas e acadêmicos que cessam seu raciocínio lógico quando este os leva para longe de sua zona de conforto e superioridade, e que mais se assemelham a crianças frustradas, não encontra espaço neste texto. Porém, assumamos, em detrimento do rigor acadêmico, que plantas podem ser considerados seres dotados de capacidade intelectual, poderíamos, então, considerá-los – etimologicamente, não cientificamente – animais – isto é, seres providos de anima (alma)? Em um questionamento mais aprofundado ainda, seria, desse modo, tão maquiavélico ingerir qualquer pé de alface quanto seria um pedaço de bacon? Ou, até mais relevante indagação, você se importa?

A resposta para esta última questão é previsivelmente “não”. E é previsivelmente não por uma razão extremamente simples: plantas não tem rosto. Um tipo de psicose leve – não se assuste, somos todos loucos a esse respeito –, a apofenia é a inclinação para procurar ordem no caos, ou seja, reconhecer padrões em eventos aleatórios. Sua manifestação mais clara é a pareidolia, quando ouvimos um CD da Xuxa ao contrário e concluímos que ela está invocando demônios, ou quando escutamos Pink Floyd em sincronia com o filme Alice no País das Maravilhas, mas, principalmente, quando reconhecemos rostos humanos em todos os lugares.

Os carros mais consumidos, a organização dos papéis higiênicos, a mancha de café na camisa, tudo estrategicamente arquitetado, ou pelo marketing, ou por Deus. Isso também acontece com animais. Enquanto eles, de fato, possuem faces, não são faces humanas. Não obstante, reconhecemos suas faces, estabelecemos paralelos com os humanos e até nos afeiçoamos a eles. A prova mais concreta está na já explicada origem da palavra “animal”.

Enquanto a Igreja Católica originalmente jamais admitiria que bichos são dotados de almas imortais, esse foi o termo adotado pela ciência biológica para descrever o traço distintivo entre os reinos metazoa – animais (humanos e bichos) – e metafita – vegetais. Aqui se instalou outra expressão da apofenia, pois, ao percebermos esse padrão facial, estabelecemos paralelos entre nós e os bichos, constituindo a “alma”. No caso, a alma consistiria na já citada capacidade de senciênca, e, em alguns casos, atribuímos-lhes mesmo a sapiência – consciência.

Percebe-se, assim, que uma planta não é tão diferente de um animal menos esperto, ela apenas não parece um, e muito menos humana. Em outras palavras, o pecado que a condena ao genocídio para saciar as necessidades humanas em detrimento dos bichos é sua aparência, que falha em nos causar a empatia necessária para a sobrevivência. Não que eu pretenda mudar os hábitos alimentares de quem quer que seja, quis apenas desmistificar a sacra generosidade vegana um texto de cada vez.


Ettore Cagni

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