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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

A HISTÓRIA DE VOCÊ

Já parou para pensar em você? Sim, “você”! Talvez devesse pensar mais a respeito, porque “você” tem uma história interessantíssima. Veja o desenvolvimento desse vocábulo que atravessou oceanos e se metamorfoseou de acordo com os lugares em que desembarcou.


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Já parou para pensar em você? Sim, “você”, que os técnicos definem como pronome pessoal –que serve para designar os envolvidos na conversa – de caso reto, empregado gramaticalmente como terceira pessoa do singular, mas com valor de segunda pessoa na fala cotidiana. Talvez devesse pensar mais a respeito, porque “você” tem uma história interessantíssima, iniciada em Portugal e muito influenciada do outro lado do Atlântico, pela escravidão no Brasil.

Eu gostaria de fazer uma ressalva, de que esse texto se trata do desenvolvimento do referido pronome especificamente no Brasil. Outros Países de Língua Oficial Portuguesa seguem por caminhos linguísticos diferentes. Portugal, por exemplo, conserva o pronome “tu”, justamente por não sofrer a influência imigratória que comentarei em breve. Colônias portuguesas na África, no entanto, assim como o Brasil, por sofrerem esse deslocamento cultural citado adiante, desenvolveram formas similares e análogas ao “você”.

A origem desse termo, que possivelmente é bem conhecida, está em um Pronome de Tratamento – servindo para se dirigir a autoridades –, “Vossa Mercê”, que indicava respeito e deferência, sendo usada apenas para falar com o próprio rei português. Afinal, não dá para se imaginar falando com o Presidente, por exemplo, usando o “tu”, não é mesmo?

“Mercê” significa “graça”, “misericórdia”, e apenas o rei podia ser misericordioso, pois ele era o único que possuía a verdadeira autoridade, o poder real, o direito de infringir sofrimento, e, portanto, o único que de fato estava sendo piedoso ao não o fazer. Mas, como bem se sabe, poder é uma questão de perspectiva, e, levados para além-mar, os portugueses conheceram novos líderes. A organização política do Brasil Colônia teve duas características essenciais pra essa modificação: a população particularmente selecionada para essa empreitada e a distância da Coroa Portuguesa.

As pessoas convocadas para povoar as terras recém-descobertas da América eram criminosos e ilustres desconhecidos, soldados rasos, as pessoas precisavam ter um ótimo motivo para aceitar um convite – passagem provavelmente só de ida – para um lugar selvagem e misterioso com índios – supostamente – canibais e uma vastidão de novas doenças. Essas pessoas que governaram nas Capitanias Hereditárias e especialmente seus súditos e guardas eram de baixíssima escolaridade, não dominavam o idioma, que, até então, também não tinha muitas convenções.

Nessa terra distante, as relações de poder mudavam. Os donos do mundo não eram mais os reis, os juízes, os padres, em suma, a corte e a nobreza. Quem ocupou seu lugar foram os donos de armas, senhores das terras, eles mandavam e desmandavam, eram os deuses daquele microcosmo social colonial.

Os colonizadores, que já não conheciam direito essa língua, encontravam novas formas de autoridade. Era inevitável que ocorresse uma banalização desse Pronome de Tratamento, usado para chamar qualquer autoridade, não apenas a Corte. Esse fato originou as formas mais populares do “Vossa Mercê”, como o “vossemecê”. Mas, a princípio, a “metrópole” – Portugal – não via muito potencial para exploração econômica na “colônia” – Brasil.

Foi só muito depois, com a descoberta do pau-brasil e, principalmente, da cana-de-açúcar, que algo realmente inusitado afetou a Língua Portuguesa: o uso de mão de obra escrava africana. Essa ideia – péssima sob todas as perspectivas – acarretou em um efeito bem peculiar na língua, a adição forçada de indivíduos absolutamente alheios à cultura europeia ocidental.

Os escravos não compartilhavam dos valores culturais dos colonizadores, suas culturas eram completamente diferentes, não entendiam exatamente os significados das palavras, nem quais os contextos mais apropriados para usá-las, a diferença entre um “Vossa Mercê” e um “tu”. Assim, começaram a usar o “vosmecê” indiscriminadamente, não só para autoridades – como os senhores de engenho –, mas para qualquer interlocutor, como se fosse um Pronome Pessoal, mudando a própria natureza do pronome.

As outras mudanças, o surgimento de “vancê”, “você”, “cê” – e, aparentemente, agora, “vc” – são bem mais simples, decorrentes do uso frequente e a necessidade de agilidade na comunicação – e muito provavelmente a preguiça de pronunciar as palavras mais longas. É apenas um pedaço insignificante da história humana, mas espero que a história de “você” faça parte da sua história agora, que deixe clara a importância de entender a língua para entender o mundo, e vice versa.


Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos.
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