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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

A INVENÇÃO DO AMOR - PARTE I - O AMOR PELA HISTÓRIA

Por que amamos da forma que amamos? Quem inventou o amor como ele é? Muita gente ao longo da história influenciou o que você sente hoje.


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Esse texto é sobre o cotidiano. Não há nada mais profícuo à felicidade do que o cotidiano. A vida apresenta vários imprevistos – em oposição ao cotidiano –, que geralmente são profundamente desanimadores. Para não nos deprimirmos, decidimos não pensar a respeito na hora. A felicidade é um produto direto da ausência de reflexão. Quando as coisas se mantem, somos felizes. Nesse sentido, não há solo mais próprio para a felicidade do que o cotidiano.

Agora, até aqui, nenhum problema, e geralmente quando escrevemos um texto é por um de dois motivos: inflar nosso ego ou discutir um problema. O meu ego corre risco de explodir e acabar com a vida na Terra, então pretendo discutir um problema. O problema em questão é que aplicamos essa fórmula em todas as ocasiões, mas em algumas delas essa lógica deve ser invertida.

Estamos começando a nos livrar de uma praga pandêmica chamada “carência”. Por séculos as pessoas procuraram estabelecer um cotidiano porque isso é o que as faria felizes. No momento em que eu chegar do trabalho e encontrar meu parceiro preparando o jantar pelo resto da minha vida, então eu serei feliz. E, acredite ou não, foi o que fizeram. Por quase doze mil anos.

Por quase doze mil anos as pessoas se casaram para, então, adquirir uma licença para a felicidade. Foi assim até que, no século XV, com a formação dos “burgos” – as primeiras cidades – e o aparecimento de uma nova classe social – a burguesia –, houve uma ascensão do individualismo, e pequenos nódulos de dissidência surgiram. Esse fenômeno reacendeu as ideias antropocêntricas da Grécia Antiga, originando pensamentos que prezavam pela liberdade individual, como o Liberalismo econômico e o Iluminismo, em detrimento da mentalidade coletivista dos feudos e reinos.

Esses são os chamados “valores burgueses”, e foram eles que possibilitaram a invenção do conceito de amor romântico. Sim, houve uma época em que simplesmente era impensável que duas pessoas pudessem querer ficar juntas pela eternidade, afinal, a princípio, a felicidade dos integrantes não era uma das preocupações no casamento. Somente então se começou a imaginar que talvez duas pessoas pudessem se juntar, não por pressões econômicas ou sociais, mas por uma mistura de afinidade e desejo.

A bem da verdade, não seria justo dizer que isso nunca acontecia antes. No século III, havia um bispo romano que contrariou um decreto do imperador Claudio II, que proibia o casamento para soldados, acreditando que isso os faria guerrear melhor – uma estratégia utilizada até hoje pelas forças armadas de vários países. Esse bispo realizou casamentos ilegais baseados no amor e foi prontamente queimado em praça pública por sua heresia. Posteriormente, foi canonizado pela Igreja Católica sob a alcunha de São Valentim, comemorado no “Valentine’s Day”.

Esses eventos são extremamente importantes, pois foram os momentos históricos em que a felicidade foi vinculada ao relacionamento interpessoal romântico – matrimônio. Infelizmente, no entanto, teve um efeito adverso. Se, a princípio, os soldados rasos, pobres, procuravam a união por afinidade, posteriormente, com a ascensão social da burguesia, transformando a plebe em elite, e as Revoluções Liberais, de 1776 a 1868, as classes dominantes decidiram que queriam ser tão felizes quanto os pobres.

O problema é que essas classes dominantes não conseguem enxergar o mundo com outros olhos que não os da propriedade. Se o próprio Voltaire, pai do Liberalismo, no século XVIII, definia os três Direitos Naturais dos homens como "vida", "liberdade" e "propriedade", percebe-se que a humanidade está condicionada à propriedade, um requisito para ser considerado humano era a posse. Gostaria de dizer que esse pensamento se extinguiu, mas, se observarmos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, lá estará a sessão de “Direitos do Consumidor”.

Enfim, as classes burguesas imaginaram que a felicidade era uma mercadoria, que pudesse ser medida, embalada e comercializada pelo melhor preço mediante as leis de oferta e demanda. Para isso, felicidade precisava ser passível de reprodução em massa, universalizável. E o que havia de universal na felicidade dos pobres? Isso mesmo, o casamento. Assim foi, também, o casamento produtificado.

Em momento algum imaginaram que talvez o amor que originava aquela felicidade fosse extremamente fenomenológico, subjetivo, relativo e variável. Desnecessário dizer que os burgueses logo se desiludiram. Em que ponto da história encontramos burgueses depressivos após as Revoluções Liberais? No Romantismo, escola literária predominante no século XIX.

Essa escola era marcada por sentimentos autodestrutivos ante a experiência do tédio, da decadência, da melancolia, da desilusão e da futilidade da existência humana. Afinal, como alguém pode casar e ser infeliz? Essa crise dos valores burgueses do Racionalismo Iluminista levou diversos jovens poetas ricos a intencionalmente irem brincar na neve – como queria Elsa, da animação “Frozen” – para contrair tuberculose e morrer. Esse foi denominado o “mal do século”.

Posteriormente, os realistas e os modernismos artísticos viriam a criticar esses valores burgueses, como foi o caso do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Cidadezinha qualquer”, do livro “Alguma poesia”, de 1930: “Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras / pomar amor cantar. // Um homem vai devagar. / Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar... as janelas olham. // Eta vida besta, meu Deus.”

Os Modernistas atacaram o establishment, o status quo, a ideologia hegemônica, na tentativa de construir uma nova ordem social a partir da destruição da anterior, gerar ordem a partir do caos. Essa é a função que muitos estudiosos designam como a exclusividade dos seres orgânicos, vivos: render ordem ao caos, descobrir significado na indiferença da natureza. Esse ideário foi perfeitamente retratado nas palavras do pintor modernista Salvador Dalí: “a pulsão de destruir também é uma pulsão criativa.”

Eventualmente, a falência dos sistemas sociopoliticoeconômicos avultados no Modernismo, marcada pela queda do Muro de Berlim, acompanhando a decadência da União Soviética e das esperanças socialistas da época, impactou a humanidade, gerando uma crise de valores e de verdades absolutas na posmodernidade.

Nessa posmodernidade há um desprezo pelas instituições tradicionais, por tudo que não implique em rompimento com as concepções prévias de mundo. Entretanto, se não havia mais verdades absolutas, a própria posmodernidade não poderia alcançar uma hegemonia, ou seria, em si, uma verdade absoluta. Por isso, em nossa época globalizada, ocorre uma mistura espaçotemporal de culturas, uma esquizofrenia.

Do mesmo modo que valorizamos o que é de dentro, como, no Brasil, valoriza-se o prato típico da feijoada, também se valoriza o que vem de fora, as culinárias orientais, hispânica, saxônica. De maneira análoga, alguns preferem uma desconstrução absoluta das relações sociais humanas, procurando respostas para os questionamentos existenciais na novidade, em relações efêmeras, outros buscam-nas nas instituições tradicionais, como o casamento.

Assim, valorizando a relativização, as verdades do sujeito em detrimento de um pensamento científico objetivo, reaviva-se em partes os valores burgueses. Então, cá estamos, novamente, divididos entre nos casarmos para sermos felizes ou renegar absolutamente os relacionamentos. Em momento algum pensamos em algo que, na verdade, qualquer um diria ser primordial em um relacionamento: o outro.

Será que os relacionamentos burgueses eram ruins ou os parceiros dos burgueses eram ruins? Será que os relacionamentos plebeus eram bons ou os “outros” dos plebeus eram bons? É fútil gastar tempo com as pessoas a torto e a direito, construir um cotidiano na esperança de que ele garanta uma felicidade.

Isto, pois é impossível um cotidiano saudável com alguém que seja meramente indiferente em nossas vidas, alguém que não nos faça querer ativamente estar ao lado de si todo o tempo. Somente alguém cujos imprevistos nos tragam paz, cujo caos nos proporcione um senso de ordem, apenas alguém cuja presença nos faça realmente feliz, permite brotar um cotidiano, que, em retorno, nos faça feliz. O problema da “vida besta” não está na vida, mas na besta com quem nos envolvemos, não está no relacionamento enfadonho burguês em si, mas em um parceiro, por melhor que seja, simplesmente insatisfatório.

Utilizando duas grandes performances de Kevin Spacey para exemplificar: construir um castelo de cartas pode ser o epítome da ordem, arquitetura regular, cuidadosamente engendrado com o tempo, mas qualquer vento o faz desmoronar em caos; contudo, se tivermos um olhar mais demorado sobre as coisas e ignorarmos o óbvio, vemos que os momentos mais bestas adquirem novo significado com uma companhia decente, ou, como disse o personagem Ricky Fitts, de “Beleza Americana”: “entendi que havia toda uma vida por trás das coisas... e essa incrível força benevolente, que me dizia não haver razão para ter medo. Em vídeo não é a mesma coisa, eu sei. Mas me ajuda a lembrar. Eu preciso lembrar. Às vezes, há tanta beleza no mundo... que quase que não consigo suportar. E meu coração parece que vai desmoronar."


Ettore Cagni

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