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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

A INVENÇÃO DO AMOR – PARTE II – A LINGUAGEM DO AMOR

Já percebeu como dois namorados podem ter noções diferentes do que seria o amor (e nesse caso geralmente o namoro dá errado)? Gerações diferentes também. Cidades diferentes também. Agora imagine países diferentes, que sequer chamam o amor pelo mesmo nome. Aqui está um olhar mais aprofundado sobre como as línguas das pessoas podem afetar sua visão das coisas, no caso, o amor.


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Antes de começarmos essa aventura nas origens do amor passando por diversas línguas, um caveat para os leitores mais inteirados na área acadêmica. Abordaremos um aspecto da neurolinguística um tanto controverso, pois trata de um determinismo linguístico, ou seja, que a língua que falamos recorta e limita nossa compreensão de mundo. Supostamente, isso seria impossível, por impossibilitar neologismos, gírias, e alguns dizem que seria impossível o próprio surgimento de uma língua complexa. Portanto, devo lembrar que a minha abordagem será de um compatibilismo (ou determinismo leve), o que seria análogo a estar em meio a uma neblina, ela deturpa nossas impressões do mundo, é difícil enxergar através dela, mas não impossível.

O segundo ponto passível de esclarecimento seria quais os idiomas que abordaremos. Trabalharei com línguas de origem indoeuropeia, isso é, proveniente do Proto Indo-Europeu – PIE –, que seria a fonte da maior parte das línguas da Europa e da Ásia. Da porção latina, selecionei o português, o francês, o espanhol e o italiano; da parcela germânica, o inglês, o alemão, o holandês e – com algumas restrições ignoradas para fins de simplificação didática – o russo. Agora, embora todas sejam PIE, alemão é um idioma de raiz germânica ortodoxa, assim como o holandês; inglês, no entanto, sofreu muitas influências dos reinos anglo-saxônicos, da língua nórdica antiga – graças a invasões vikings – e tem muitos empréstimos de línguas românticas latinas, como o francês. Essa característica da língua inglesa lhe rendeu o título de língua diglota, por ter duas principais influências.

Em inglês, uma das mais evidentes participações da diglossia está nos nomes de animais. O “alto inglês” era falado pela nobreza, praticante do latim por questões sociais de preservação do status quo, e essas elites consumiam os animais já mortos e cozidos, por isso os pratos como “pork” e “venison” tem muito mais semelhança com o latim. A plebe, no entanto, que eram os caçadores e cozinheiros, lidando com os animais ainda vivos, os chamariam de modo menos pomposo, como “pig” e “deer”. Essa confusão também interfere na construção do significado do amor nesse idioma.

Mas, primeiramente, vamos definir as raízes que aproveitaremos do PIE. Estas são am-, leubh- e yeu-. A primeira – lembrando que PIE era apenas um esboço, um protótipo de língua – relacionava-se a carinho, originando diversas palavras como “mãe”, “ama”, “amigo”, “mama” e o próprio “amor” – do português –, mas também a “mom” – em inglês. A segunda estava atrelada à emanação, uma energia criativa e construtiva que fluía de um corpo, proporcionando termos como “libido”, que era o termo latino para designar desejos intensos – não necessariamente românticos ou sexuais originalmente. O terceiro tratava-se da noção do “novo”, promovendo o surgimento de “iuvis” – no latim – e, posteriormente, “jovem” – em português –, “jeune” – em francês – e “youth” – em inglês.

Através da escolha das populações acerca da raiz que denominaria cada ser e objeto em seu entorno, percebe-se as visões que cada um tinha sobre esses seres. No caso, quando línguas latinas selecionam uma raiz que indicava carinho para nomear sentimentos como a amizade – “amigo”, “ami” – enquanto línguas germânicas adotaram o PIE pri-, originando “friend” e “freund”, mas também “free”, observa-se que a visão germânica de amizade não se baseia necessariamente no carinho apegado e grudento, mas em afeição racional, livre e independente.

Na questão do amor não é diferente. A visão de uma falante natural de um idioma latino sobre o amor romântico estará sempre ligado ao am- através de várias outras palavras da língua que também derivem dessa raiz. Ou seja, ao observar que a “mama” é alguém que cuida, alguém de quem se depende em larga medida, ou que o “amigo” é alguém por quem se sente um carinho emocional, além de perceber que todas essas relações são permeadas pelo que os outros chamam de “amor”, o falante de língua latina forma o conceito de “amor” como esse carinho carente, grudento e dependente.

Essa abordagem é corroborada pela maneira como o amor é interpretado em países falantes de língua oficial portuguesa. Um auge dessa forma de conceituar o amor aparece durante o Trovadorismo português, nas conhecidas “canções de amigo” – que não eram nada sobre “amigos” na acepção atual, mas sobre amantes. Denota-se uma aproximação entre a amizade e o amor, não necessariamente ao matrimônio. Uma das partes sofria pela separação do outro, o amor requeria muita proximidade, pois se estabelecia na relação entre sujeitos.

A perspectiva germânica, por outro lado, associará a ideia de amor a uma emanação, uma energia divina, miraculosa, quase onipotente, uma força da natureza que flui de um ser para o outro. Isso porque a palavra para “amor” em alemão, por exemplo, é “liebe”, ou “liefde”, em holandês, ambos provenientes de leubh-. Já não está mais atrelado ao amor a condição da relação de afeto, mas sim de um desejo forte, de uma pulsão. Enquanto o “amor” latino é reflexivo e se estabelece em uma relação de proximidade entre dois sujeitos que se tratam com carinho mútuo, o “liebe” germânico é unilateral. Exemplo disso é a forma que o pai da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud, formulou seu conceito de libido como uma pulsão animal, uma energia inconsciente de busca por prazer, que não envolve dois sujeitos, dois agentes, mas, sim, um sujeito e um objeto.

Por não haver necessariamente tanta proximidade entre as partes, o amor leubh- abria margem para um relacionamento emocionalmente distante, que só serve para satisfazer as pulsões eróticas. Essa visão romântica marcou muitos escritores dessa cultura, como Schiller e, principalmente, em seu amigo Goethe, cuja maior obra – Fausto – é justamente sobre o amor enquanto uma pulsão enérgica sexual. Tal visão sobre as paixões é corroborada por outro expoente alemão, o último dos pensadores românticos, o filósofo Friedrich Nietzsche. Para ele as paixões eram energias ativas que buscavam cada vez mais potência e por isso agíamos.

No inglês, ocorre algo diferente, no entanto. Embora, a princípio, ele tenha sido incentivado pelo leubh-, o fator determinante para ao forma final de “love” está em outra raiz: yeu-. Esta está relacionada às ideias de disposição e novidade, formando palavras como “ajudar” e “jovem”. Ao mesmo tempo, outra raiz semelhante, yeug-, originou palavras como “junção”, “união” e “yoga” – a busca pela completude. Há, então, uma clara relação entre as noções de “juventude”, “disposição” e “união”, que também estão permeadas por preceitos do leubh-, como relação enérgica e semi-independente.

O PIE yeu- originou a forma latina “iuvis”, e, consequentemente, deformou o que seria “liebe” em “love”. Essa é uma ideia que os britânicos levaram consigo para as Américas. Jane Austen, escritora inglesa, ilustra e critica uma das consequências disso em seu livro “Orgulho e Preconceito”. O romance retrata uma sociedade em que apenas os jovens são livres para viver um “amor verdadeiro”, se divertir, trocar carinho, emanar uma energia sexual e procurar proximidade afetiva e intimidade. Com a idade, no entanto, é preciso aquiescer às imposições sociais e procurar um parceiro apropriado para se estabelecer e formar uma família. A protagonista, considerada já muito velha para continuar solteira, é pressionada a encontrar um marido. Porém, vinda de uma família mais liberal, ela desafia os costumes e insiste em encontrar um amor verdadeiro ou permanecer na solidão. Nas Américas, uma brilhante expressão dessa mentalidade é o poeta estadunidense Randy L. McClave, em seu poema “Love is for the young” – “o amor é para os jovens”, em tradução livre.

Infelizmente, no mundo globalizado com hegemonia estadunidense, tudo que afeta os EUA afeta por consequência o mundo todo, especialmente os países mais latino-americanos, com destaque para os mais desenvolvidos – que de fato tem recursos materiais para imitar o estilo de vida norteamericano –, como o Brasil. Além disso, a influência histórica do Império Britânico, o reino em que o Sol nunca se punha, também influenciou na difusão desse pensamento. Por isso muitas pessoas se encontram em relacionamentos infrutíferos apenas por estabilidade e acreditam que estão velhos demais para encontrar o “amor verdadeiro”. Se ele existe, no entanto, aí já é outra história.


Ettore Cagni

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