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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

apologia às adaptações

É certo que o circuito comercial em geral já nos traz pouca esperança em relação a conteúdo reflexivo, e que adaptações de livros e jogos apenas pioraram esse cenário. Contudo, venho humildemente tecer uma apologia ao que foi, provavelmente, uma das raras adaptações com algum potencial e que foi cruelmente negligenciada e aponta para a nossa necessidade doentia de rotular as coisas.


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Na virada do ano, foi lançado um filme adaptado de uma série da franquia de jogos eletrônicos Assassin’s Creed. Desnecessário pontuar que não foi um dos filmes mais brilhantes e revolucionários de todos os tempos, mas é, sem dúvida, uma adaptação extremamente competente, e, enquanto mídia, comunica uma mensagem significativa de um modo interessante.

A princípio – claramente aproveitando-se do hype proporcionado pela série de jogos que o antecedeu –, o filme contava com uma intenção de audiência superior a 90% entre usuários de sites de avaliação. Após seu lançamento nos Estados Unidos, as avaliações da autoproclamada crítica – profissional ou não –, em torno de 15% de aprovação, restringiram-no o lucro a 14 milhões de dólares – quantia preocupante, tendo em vista o orçamento do filme, rondando 130 milhões de dólares.

Entretanto, surpreendentemente – ou não, já que o engano da crítica tem se tornado um evento corriqueiro –, as avaliações do público estavam próximas de 70% de aprovação. Diante desse cenário conflitante, o que a crítica falha em observar ou ignorar em relação ao gosto do público? Afinal, uma das principais funções da critica especializada, muito mais do que checar uma série de tópicos técnicos, é interpretar o trabalho, analisar seu efeito de sentido e tentar prever a recepção pública a esse efeito.

Primeiramente, para estabelecer todos os leitores em uma arena de debate planificada, justa, vou esclarecer o conceito da série. Houve uma guerra entre a Irmandade dos Assassinos e a Ordem dos Templários durante as Cruzadas do século XI. Embora, na vida real, a Irmandade tenha sido extinta por invasões mongóis e a Ordem tenha sido posteriormente excomungada da Igreja Católica, perseguida e queimada por cultuar entidades pagãs – quando se originou Baphomet –, no universo ficcional do da franquia, as digladiações entre as duas instituições se perpetua até o contemporâneo, mesmo que velada. Este embate milenar acabou levando à ascensão política e econômica dos Templários, através de uma megacorporação de faixada denominada Abstergo – que faria inveja para as melhores teorias de conspiração – e a derrocada dos Assassinos. Os Templários, então, empregam seus recursos virtualmente ilimitados no desenvolvimento de uma máquina – Animus – capaz de resgatar memórias de ancestrais através do DNA – a Memória Genética é uma teoria real no mundo científico, introduzida por Marshal Nirenberg, em 1968 –, com a intenção de recuperar artefatos tecnológicos deixados por seres precursores que supostamente inspiraram as mitologias das comunidades humanas. Um destes artefatos, denominado Maçã do Éden, causador do pecado original, produziria a capacidade de induzir o comportamento nos sentidos de obediência e desobediência. A partir disso, os Templários procuram adquirir a Maçã para eliminar o livre-arbítrio humano e assim extirpar a violência, enquanto para os Assassinos a liberdade é fundamental. O ancestral visitado no filme é Aguilar de Nerha, durante a Inquisição espanhola.

Como já disse, o estudo de uma produção artística atravessa, essencialmente, dois campos: modo e mensagem. Contudo, este é um dos casos em que há um terceiro fator passivo de consideração, seu valor enquanto adaptação.

Acredito que um dos principais entraves para a crítica em relação a esse filme adaptado de um jogo eletrônico foi que as pessoas se esqueceram de deixar o controle do videogame em casa. Muitos reclamaram que gostavam da série original, que transitava entre o mundo atual e as memórias dos protagonistas – atravessando diversas vidas em uma mesma linhagem sanguínea –, mas acharam que essa transição se deu de forma exagerada no cinema o que teria levado à quebra da ação e dificultaria o estabelecimento de vínculos com as personagens, especialmente as do passado. Aqui temos um problema que mescla a incompreensão da função de uma adaptação a uma incompetência na interpretação do modo – forma – e sua relação com a mensagem.

A questão aqui é: esse não é um filme de ação. O tema central desse filme não é um cowboy latino do século XV com explosões e tiros e espadas. O foco está, sim, no debate filosófico sobre a essencialidade da liberdade e do livre arbítrio em oposição ao controle e à segurança absolutos. Até aonde se está disposto a ir para estabelecer a paz? Até aonde se deve ir? O debate é maquiavélico e consequencialista – os fins justificam os meios? Ou se trata talvez do exercício de uma ação virtuosa e é a preocupação com as causas e os meios de se obter a paz que irá legitimá-la?

Nesse sentido, apreciar a adaptação vai muito além de conferir se a mitologia e a história da série são transportados de maneira imutável, se tata, antes, de ver se está apropriado para a mídia em que está inserido. A série de jogos praticamente abandonou a narrativa no mundo presente em determinado ponto; o filme, por sua vez, procura resgatá-la. O foco não está no passado e nas memórias, não há necessidade de criar laços com os ancestrais do protagonista, uma vez que, como afirma o principal ancestral abordado na série de jogos, Ezio Auditore, a sua história é uma entre muitos milhares, e o mundo não sofreria se ela se encerrasse cedo demais. Os indivíduos são apenas meios para comunicar mensagens através dos séculos, no filme seguinte pode haver outro ancestral – ou até múltiplos –, eles não são imprescindíveis. O que importa é o presente, é mostrar que, através do Animus, o protagonista do presente – Callum Lynch – está se desenvolvendo. O jogo era uma experiência interativa, o público era um agente narrativo, por isso a ação era componente essencial; a mídia cinematográfica, cujo público é muito mais passivo, requer outro tipo de interação.

Assim, se refletirmos sobre a forma da série, vamos muito além de uma crítica superficial sobre a iluminação – não que a iluminação seja sempre irrelevante, mas não é um fator essencial para o efeito de sentido desse filme. Se observarmos, por exemplo, o diferencial entre os nomes das instituições – Ordem e Irmandade –, perceberemos que ali já consta o ideário de cada uma. A primeira, uma articulação artificial, forçada, racional; a segunda, uma articulação orgânica, natural, afetiva. Os movimentos dos Assassinos, inspirados pela prática do parkour, são essencialmente livres, transformando paredes em pontes. Nessa linha – e, aqui, pode haver SPOILERS até o fim do parágrafo –, o fato do Animus ser representado por um braço mecânico, artificial, restringindo os movimentos, e que só é superado quando Callum decide voluntariamente o utilizar – aplicando seu livre arbítrio – também tem um significado.

Para reflexão, se os Assassinos se opõem à ordem, seriam eles agentes do caos? O que é o caos? Seria uma força despropositada e sem sentido? A natureza parece não fazer nada sem que haja uma boa razão, não é mesmo? Eu acho muito mais convincente que seja apenas uma outra visão de ordem, apenas incompreensível por sua complexidade elevada. Talvez uma das razões pelas quais as pessoas achem que todo filme com explosões e espadas é um filme seja pelo que se chama de Teoria da Rotulagem, a nossa necessidade de definir e controlar tudo. Em outras palavras, o que pode estar atrapalhando as pessoas a interpretarem o filme pode ser a sua busca natural por algum tipo de organização, ordem, controle, a sensação de segurança que vem com a certeza. Talvez, então, esse filme seja mais essencial do que o esperado.

O ator Michael Fassbender, que interpretou o protagonista Lynch e seu ancestral Aguilar, em entrevista para o portal IGN disse algumas palavras que sintetizam toda essa questão da adaptação: “Sabe, sobretudo, queremos respeitar os jogos. (...) Mas estamos definitivamente filmando um longa-metragem, e estamos utilizando a abordagem de um longa-metragem, ao contrário da aproximação do videogame.” Uma adaptação não é sobre o que se mantêm, qualquer um com um mínimo de capacidade de observação e memorização pode repetir algo. A beleza das adaptações habita justamente a mudança. A arte nunca é uma mera repetição, mas pode ser uma reprodução.


Ettore Cagni

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