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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

ARTEFICIAL

Criatividade, a fronteira final. Por séculos a humanidade se gabou de ser um conjunto especial de seres, conjugando uma capacidade intelectual extremamente potente e uma habilidade abstrativa simultaneamente. Mas será que essa soberania sobreviverá ao mundo da Revolução Digital? E quem será o artista dessa nova era?


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Se alguém perguntasse a Aristóteles o que diferencia um ser humano dos demais animais, ele de pronto redarguiria que há um abismo intransponível de raciocínio entre nós e eles. Com o surgimento e desenvolvimento de máquinas complexas, com mecanismos digitais e recursos virtuais, essas fronteiras tornaram-se mais permeáveis, uma vez que a capacidade racional de um dispositivo eletrônico suplantava em muito a razão humana. Para nos distinguirmos nessa era de Revolução Digital, criamos, então, uma alma, um espírito abstrato que jamais seria auferido por materiais inorgânicos, uma linha filosófica preferida por teólogos, e que mais tarde influenciaria no ramo estético da Teoria do Valor.

Mas o que aconteceria caso as máquinas transpusessem em partes esse obstáculo que é a criatividade? E se elas conseguissem, mesmo que brevemente, tocar a capacidade abstrativa que até então nos faz sentir únicos, exclusivos e especiais? Afinal, elas já podem ser mais inteligentes do que humanos em cenários racionais, o que denominamos de Singularidade, o ponto em que as Inteligências Virtuais expressam-se mais inteligentes do que os humanos. Mas e quanto à criatividade? Seria possível imitá-la ou a reproduzir? E, em caso afirmativo, será plausível que as máquinas nos superem nisso?

Neste caso, surgiria uma Inteligência Artificial, capaz de muito mais do que simples reproduções, apresentando produções originais e criativas, semi-independentes. exemplares que ameaçaram a exclusividade isolada da humanidade no topo da cadeia alimentar intelectual foram promovidos pelo festival de música e tecnologia Moogfest, em Durham, na Carolina do Norte, e na Universidade Rutgers, a Estadual de Nova Jérsei, ambos incidindo no último ano.

O primeiro caso foi razoavelmente simples. Alguns pesquisadores do Google promoveram o “Projeto Magenta”, responsável por gerar uma I.A. que reproduzisse notas musicais apresentadas por um sujeito, mas também as alterar em ritmo, tom e ordem. A princípio, não parece muito relevante, mas imagine que, se o produto final desse trabalho for uma composição de fato original – e perceba que toda e qualquer música, mesmo humana, é apenas uma mistura e reorganização infinita dos mesmos elementos finitos –, seria, então, o sintetizador virtual um artista? Seria ele dono de sua própria produção? Seria ele portador de direitos inalienáveis sobre sua obra? Ou mesmo os cientistas responsáveis?

O problema é que nossos sistemas Legislativo e Judiciário estão ultrapassados para lidar com esse tipo de questão metafísica. Precisaríamos, antes, definir se, assim como indivíduos são “pessoas físicas” e grupos são “pessoas jurídicas”, a máquina, ou o conjunto de suas diretrizes e memórias, seria considerado uma “pessoa virtual”, ou cibernética, ou artificial, do ponto de vista legal. Além disso, faz sentido pensar termos de propriedade intelectual ou capital humano referentes a robôs?

Tudo o que definimos como propriedade consiste em um produto do trabalho de um agente produtivo. Derivado da teoria marxista, emprestamos a Teoria do Valor-Trabalho; implicando que as mercadorias pertencem ao seu produtor mediante o valor que lhes seja conferido pelo esforço dispensado na sua confecção através da Força de Trabalho desse agente; ou seu capital humano, identificado nos custos irrecuperáveis de oportunidades perdidas pelo estudo necessário para a produção da mercadoria. Mas as máquinas não tem um uso melhor para o tempo do que se aperfeiçoar, não tem desejos, e o trabalho não é tão difícil para elas quanto para humanos. Então faz sentido ainda assim imaginar que elas devam ser donas de suas obras?

O caso da Universidade Rutgers, entretanto, foi bem mais tenebroso. Cientistas da computação, no Laboratório de Arte e Inteligência Artificial da faculdade, desenvolveram um programa capaz de estudar, julgar, reproduzir e expandir as produções artísticas dos últimos séculos. O programa analisou 80 mil pinturas do século XV ao XX, enquanto tentava reproduzir seus estilos, deduzindo os traços essenciais e os aplicando na criação de obras originais, que seriam avaliadas por um segmento independente do sistema, de modo que ambas as partes tentassem se superar mutuamente.

O resultado disso foi que, na Basileia de Arte de 2016, foram expostos alguns quadros produzidos pelo programa, sendo que estes foram mesmo confundidos com quadros de personalidades históricas importantes e foram repetidamente julgados como os mais significativos e inspiradores no recinto. Agora, mesmo que não sejam obras geniais ou sensacionais, com certeza são mais relevantes enquanto produção artística do que aquelas proporcionadas por pessoas reais, indicando que a Inteligência Artificial faz arte de maneira mais apropriada do que os próprios humanos.

Mais do que isso, o que a arte significa nessa nova época? Claramente o processo de confecção de uma peça já não é tão moroso. Ademais, pode ser produzido e reproduzido em massa, basta que um scanner de alta precisão detecte a densidade e a coloração exatas dos pigmentos, bem como capture os padrões dinâmicos das pinceladas, calcule a consistência da tinta e desenvolva um método de aplicação para que uma obra antiga ou mesmo autoral do robô esteja disponível nas prateleiras de todo o mundo.

Mas pior ainda, será que a arte é possível quando o ser que a construiu não tinha um objetivo claro em mente, não é de fato afetado pelas paixões? não conhece os pequenos medos e esperanças dos seres humanos? um autor com quem não podemos nos identificar? um autor que desconhece tudo o que implica vida da forma como a experimentamos? Se a mensagem da obra não for intencional, ela é válida ainda?

No livro “1984”, de Eric Arthur Blair, sob a alcunha de George Orwell, é descrita uma das ferramentas de controle da massa populacional pelo Estado mediante o uso da mídia: o versificador. Este instrumento compunha canções inteiras, palavra por palavra, sem qualquer intervenção humana, embora as composições fossem frequentemente vazias e destituídas de sentido, servindo apenas para o entretenimento e a alienação das massas proletárias. A semelhança com o cenário atual, embora distante, é preocupante. Talvez não estejamos sujeitos a uma ditadura prática, mas a espetacularização da mediocridade em termos de arte e cultura – e aqui não quero que pensem que me refiro de maneira preconceituosa e pejorativa à cultura popular em favor de uma produção mais erudita, muito pelo contrário.

Talvez a escalada da tecnologia nos sirva de alerta: quando algo artificial parece mais real do que a natureza que o originou, algo há de estar errado. Talvez precisemos reavaliar nossas perspectivas de arte, reexperimentar nossos valores enquanto sociedade e indivíduos, encontrar algo de mais orgânico, mais vivo e mais potente em que espelhar nossas produções artísticas. Isso é algo que o artista Walter Robinson denominou “Formalismo Zumbi”, uma repetição mecânica do que se conheceu como arte, especialmente no campo do expressionismo, que proporciona mais oportunidades para oportunistas.


Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos.
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