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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

EMPREENDEDORISMO ÀS AVESSAS

Como a formação histórica e cultural do Brasil, juntamente com o sistema econômico capitalista, promovem a subversão e a aniquilação do empreendedorismo nacional


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Uma das mais notáveis tentativas de humanização e suavização do capitalismo é o empreendedorismo, associado às sustentabilidades ecológica e econômica, à promoção da livre concorrência, ao atendimento cada vez mais específico para os gostos do consumidor, e à realização pessoal do empreendedor, que concretiza seus sonhos de infância. Entretanto, como tudo que o capitalismo toca, na prática, o empreendedorismo transfigurou-se em mero oportunismo.

Baseado em minha experiência pessoal enquanto brasileiro com cursos relacionados a empreendedorismo e em relatos de amigos e conhecidos acerca do assunto, porém também embasados em inúmeros depoimentos virtuais, é possível traçar uma progressão natural para essas iniciativas. A princípio, indivíduos bem intencionados porém profissionalmente frustrados são aproximados por grupos de treinamento que prometem a realização profissional, a possibilidade de concretizar o modelo de negócios almejado pelo indivíduo impotente desde os primórdios da juventude.

Contudo, assim que os futuros milionários mordem a isca, logo se desfazem as fantasias infantis e tolas de criar um pequeno quiosque familiar de aluguel de pipas para o público local da vizinhança em função de um modelo outro que dê margem ao estabelecimento de uma grande franquia de escala para prestar consultoria sobre nada de útil, ou um aplicativo de coisa alguma, ou algum negócio hipster retrô e pet-friendly com design clean e funcionários de barba lumberjack e coque samurai.

Mas eis que algum grande empreendedor dirá: “Ora, talvez nós aconselhemos no rebranding ou na reestruturação das diretrizes estratégicas das microempresas, startups e negócios emergentes, mas no final das contas o excedente econômico de ambos os lados é maior, a torta cresce, e surge mais um milionário. Qual o problema nisso?”

O problema nisso é que o bairro continua sem um pequeno negócio familiar de aluguel de pipa, as crianças ficam cada vez mais tempo em casa, o número de cardíacos e obesos sobre gradativamente, a cidade se torna cada vez menos pública. Como um povo que não conhece sua própria cidade pode ser convidado a decidir periodicamente o futuro dela? E qual seria o interesse dele em fazer isso se não há um investimento emocional no âmbito social?

E, em vez da casa de locação de pipas do Marco Aurélio, temos outro “maior do mundo”, alguma loja de toalha usada, ou um site sobre nada em especial. Não há construção do senso de comunidade, ou investimento libidinal no campo da política, apenas mais um junk job sobre curiosidades aleatórias do momento, outro negócio sazonal fadado a ser o maior da área... por pouco tempo. E a raiz do problema não está no empreendedorismo, mas na falta dele.

“Empreendedorismo” é constituído pela raiz latina imprehendere – que contem a ideia de “apanhar” algo. No caso, é finalmente apanhar com as mãos um projeto fugidio e esguio, que se esquivou por tempo do seu controle. Mas não se trata apenas de tocar ou apanhar a ideia, trata-se de segurá-la também, de insistir nela na medida do possível e tentar fazê-la funcionar de alguma forma, não apenas a abandonar assim que surja melhor oportunidade de lucro.

Isto não é empreendedorismo, é oportunismo. Estes conceitos são opostos. Oportunismo se refere à busca pela maior oferta de lucro disponível, não a realização de um projeto, não uma melhoria social, não uma reforma na mentalidade coletiva. Não, isso tudo seria muito traumático, afastaria os possíveis clientes da próxima multinacional de quintal, muito mais conveniente é pesquisar a demanda já existente e alimentar as fantasias consumistas da população. Mas o que esperar de um país às avessas senão um empreendedorismo na mesma moda?

Durante o Segundo Reinado no Brasil, em 1847, por pressão das elites burguesas, foi instaurado um modelo político baseado no Parlamentarismo Inglês. Entretanto, esse modelo importado foi prontamente subvertido, dissimulado e deturpado em função dos interesses políticos do déspota – que tinha a autoridade para dissolver o parlamento – e econômicos da época, institucionalizando a fraude eleitoral. Mas esse episódio de crise e manipulação não foi um incidente isolado.

Logo em seguida, por motivações parecidas, o país concebeu a importação do suposto modelo econômico Social Democrata europeu, que também foi empurrado goela abaixo aos brasileiros. Isso, claramente, é uma mentira sem tamanho. Os países com os maiores investimentos em setor público – como transporte, saúde e educação – do mundo são europeus – especialmente os escandinavos –, muito em contradição com a ideologia socialdemocrata de redução das intervenções Estatais na economia.

À época da criação do “National Health Service” – sistema público de saúde britânico –, por exemplo, as forças liberais foram favoráveis a esse projeto – que atualmente angaria uma média de 72% de aprovação popular – apenas depois de inúmeros debates, e, ainda assim, por mera conveniência. A invejável educação pública finlandesa, também, é outro grande exemplo do quão rejeitada a Social Democracia foi na prática política europeia.

Por fim, a mais marcante característica inversa do Brasil, a democracia às avessas. Atenção! Não estou empregando o termo da mesma maneira estúpida e limitada que os setores liberais tem feito, apenas como uma crítica rasa a todo e qualquer discurso que se diga de esquerda. Refiro-me a uma inversão na hierarquia dos pilares da democracia: a participação política e a liberdade de expressão.

Percebe-se claramente a grande dimensão avultada pela liberdade de expressão na contemporaneidade. Mas, embora a priori seja um desdobramento positivo do cenário político brasileiro, em uma democracia que se diga séria e comprometida, a liberdade de expressão é desejável, porém não necessária, afinal, não se deve esperar que o Estado incentive atos potencialmente contrários a si. Mas o que se pode, de fato, esperar dele é que desenvolva a participação política dos cidadãos.

A participação política, em uma democracia, é anterior à liberdade de expressão pois a suplanta em momentos em que a manutenção de tal direito é dificultada. Mesmo na ausência de liberdade de expressão, uma população crítica, consciente e ativa pode protestar e se rebelar. Mas o que nosso Estado tem oferecido foi justamente o inverso, muita garantia de liberdade de expressão, mas nenhum fomento à vontade de expressar-se da população. De nada adianta ao sedentário o direito de ir e vir.

Em um cenário histórico político marcado pela inversão de diversos valores e modelos, não é nada surpreendente a existência de um empreendedorismo às avessas, um oportunismo, que nada tem a ver com a concretização de projetos previamente estabelecidos, mas, sim, com o aproveitamento das melhores oportunidades de colheita de capital.


Ettore Cagni

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