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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

GUARDIÕES DA PSICANÁLISE

Um olhar mais aprofundado sobre um dos grandes sucessos do circuito comercial, que tende a ser tão subestimado pela crítica: Guardiões da Galáxia 2.0. Alerta de spoilers!


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O recente filme “Guardiões da Galáxia 2.0” – obviamente o segundo filme dessa franquia da Marvel – estreou no final de abril e colecionou uma ótima reputação entre a crítica amadora, bem como a especializada – acima de 80% de aprovação. Como era de se esperar, no entanto, embora o filme seja bem divertido e interessante, a crítica simplesmente não é muito eficiente no próprio trabalho. Prossiga com cautela, o texto contem spoilers.

Existem alguns pontos interessantíssimos que sequer são abordados em qualquer espaço de discussão. Logo na cena de abertura, os Guardiões estão aguardando um monstro espacial genérico que quer se alimentar da fonte de energia de um planeta, e a espera demora um pouco. Quando a criatura finalmente chega e o grupo está correndo para o combate, o foco muda para o pequeno Groot dançando em primeiro plano, com a batalha acontecendo ao fundo por um longo tempo. Em determinado momento a câmera chega a apontar para o lado oposto à batalha, que parece estar intensa. Isso nos diz muito sobre o filme. Ele não pretende se prender ao enredo ou à ação, eles são apenas o plano de fundo, o contexto e a desculpa para permitir uma história engraçada e bonitinha com uma trilha sonora bacana. O humor não é apenas alívio cômico, como de costume, mas um elemento significativo.

Então simplesmente não dá para simplesmente dizer que a história é fraca. Sim, é, fraca e previsível. Mas diferentemente de outras franquias, como Capitão América, a ideia não é reinventar a série, é apenas chamar o público mais jovem para as produções cinematográficas da Marvel, visto que as demais franquias são todas voltadas para um público mais velho, que já era fã da editora. Dito isso, gostaria de apontar a mensagem importantíssima do filme que pretendo discutir: a maturidade.

A forma mais escancarada pela qual faz isso é introduzindo a personagem Ego. Pai do protagonista Peter Quill, Ego é uma entidade de poder indescritível pertencente a uma raça de deuses denominada “Celestiais”. Ego é um cérebro espacial que moldou um planeta em volta de si e desenvolveu um corpo mortal para experimentar a plenitude da vida. Como filho da entidade, Peter possui os mesmos poderes e os descobre assim que se aproxima do planeta e da luz de Ego. Peter passou toda a vida sem conhecer o pai, sendo isso um grande desejo seu.

Ego revela-se para nós exatamente como o nome o descreve: o ego. Ego é a possibilidade de satisfazer todos os desejos – a começar pelo desejo de ter um pai –, de ter poder ilimitado, de realizar todas as fantasias. Ego é o deus em seu próprio planeta – seu planeta cérebro –, assim como somos todos deuses em nossas próprias mentes, e criamos nossos próprios mundos, vivemos nossas próprias aventuras e viajamos pelo espaço, assim como Ego fez mais literalmente. Ele também visita a Terra durante os anos 80, período em que a população americana era severamente imatura, com o movimento hippie e o Flower Power, negando a guerra e as obrigações do mundo real, buscando refúgio em festas e drogas – esse movimento também teve gente engajada, mas não era exatamente a maioria.

Entretanto, o egoísmo, o excesso de si em si, é um obstáculo para as relações sociais, para lidar com o outro e com as situações apresentadas pela vida real, que podem ser comumente muito frustrantes. Ao elaborar um dos ramos mais famosos do seu trabalho, a infância, Freud adota termos específicos para essas coisas.

O ego infantil é plenamente movido pelo Id, pelas pulsões imediatistas, vitais e sexuais, baseado no libido e princípio do prazer – que consiste em maximizar o prazer e negar toda e qualquer dor ou frustração. Esse estilo de vida pode ser inviável em meio a uma realidade francamente insatisfatória que nos apresenta várias frustrações e impotências. Assim, ao precisar evitar as frustrações, a criança cria um mundo em que é rei, um mundo de phantasia – termo desenvolvido por Melanie Klein, diferente de fantasia, que seriam nossas esperanças do dia a dia – é criado, um mundo em que a criança pode eliminar o que lhe apresenta frustração, como os pais.

Para conseguir amadurecer, o ego, o sujeito, deve se aproximar do superego, o oposto do Id, que aquiesce ante as imposições morais e éticas, abrindo espaço para o mortido – que faz referência ao deus Thanos, a morte grega, figura relevante no universo da Marvel –, possibilitando o princípio de realidade, que lida com a vida da forma que ela se apresenta, procurando fazer o que é certo, mesmo que não apresente prazer para o agente. E é o que Peter Quill faz, em uma abordagem nietzschiana, ao matar seu deus, seu pai e seu mestre, identificados em Ego, para poder se tornar um ser humano melhor, um Além-Homem, como diria Nietzsche. Peter mata o Ego e percebe que não há problema em ser “como qualquer outra pessoa”, conseguindo se relacionar com Gamora, sua namorada, e seus amigos mais profundamente.

Essa ideia de se tornar um ser humano melhor é abordada em outro momento no filme, porém sob outra perspectiva. A raça Soberana – basicamente seres semelhantes a humanos dourados – promoveu uma reprodução através de seleção genética para serem superiores física e intelectualmente. A ideia de eugenia é uma clara alusão ao nazismo, até pela época e o contexto histórico em que esses elementos foram introduzidos nos quadrinhos.

Algumas características dos Soberanos, no entanto, são bem peculiares. Seu complexo de superioridade os torna maus perdedores, indo até os confins da galáxia – literalmente – para procurar os Guardiões quando estes os ofendem. Apesar de pensarem ser muito evoluídos, são precisamente infantis. Eles tem uma série de vantagens biopsicossociais que lhes garante a capacidade de eliminar frustrações, mas por isso mesmo não tem a oportunidade de confrontá-las e as superar, não podendo amadurecer.

Essa raça usa um estilo diferente de naves de controle remoto para perseguir os inimigos. O seu comportamento durante as caçadas não são tão diferentes de uma criança de doze anos jogando videogame. Eles xingam os adversários, sentem prazer na matança, se divertem com jogos estúpidos cujo único objetivo é atirar e matar. Tudo isso sendo justificado por estarem matando seres inferiores.

E não é coincidência esse paralelo com os jovens atuais. Criamos nossos filhos dizendo que são especiais, que podem fazer o que quiserem, que todos serão ricos e bonitos e felizes, superprotegemos essas crianças, mimamo-nos. Não espanta que todos acreditem ser dourados, bonitos, inteligentes, especiais e felizes. Não espanta que sejam violentos, boçais, chorões, dependentes e incapazes. Essa é, afinal, uma grande crítica ao atual modelo rousseauniano de educação em que a criança não pode ser frustrada, todos recebem estrelinha no trabalho, elegemos o “melhor pior desenho da turma”, ninguém é excluído, ninguém pode receber um zero na prova porque “todo mundo deve ser bom em alguma coisa”. É o que eu chamo de Modelo Leite com Pera de Diretrizes e Bases.

Por fim, percebemos a personagem Drax, um homem grande, forte, cinza e bobo desprovido das ferramentas emocionais necessárias para se expressar de maneira saudável e conviver em sociedade. Ele faz piadas idiotas e ri de maneira abestalhada. É um homem de ação e violência que não tem pensamento estratégico. Em suma, é um retrato da própria audiência. É um jeito da produtora dizer: “Olha só o Drax, percebe como ele é imaturo? Percebe como ele gosta das mesmas coisas que você? Então...”

No filme, Drax conhece uma nova amiga empata, que, ao contrário dele, sente em excesso, sendo, também, infantis. Cada um à sua maneira, não conseguem lidar com os outros de maneira saudável – ele só sabe bater, ela só sabe chorar.

Se formos julgar esse filme, que seja pelo que ele pretende ser de fato. Um filme com referências aos anos 80, um humor pastelão, um filme sem preocupação com um enredo surpreendente e revolucionário, só uma isca para o público jovem com uma trilha sonora muito boa, mas com uma mensagem muito importante para a geração atual.


Ettore Cagni

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