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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

MEDITAÇÕES SOBRE A HIPOCRISIA

Depois de 1800 anos, o último dos "cinco bons imperadores romanos" retorna, associado a Freud, Nietzsche, Sartre e diversos outros pensadores, para lançar um olhar mais aprofundado e dar seu parecer sobre a maior dádiva humana: a hipocrisia.


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Eu gostaria de me atentar ao problema da hipocrisia humana, se ainda for possível, depois de tantos textos acadêmicos e tantos tweets sobre o assunto. Esse tópico me veio à mente enquanto fazia uma maratona da saga de filmes do Hannibal Lecter. Estamos todos constantemente nos devorando uns aos outros, alguns apenas são mais sinceros do que outros a respeito disso. Mas uma passagem notável foi uma citação das “Meditações”, de Marco Aurélio. “Pergunte, de qualquer assunto em particular: isto, o que é em si, e por si só, de acordo com sua própria constituição?”

E em vista disso, pergunto: o que seria a hipocrisia em si, e por si só, de acordo com sua própria constituição? Literal e etimologicamente, hipocrisia é uma ausência de crítica. Hypós, sempre indicando insuficiência, e krisis, significando separação; posteriormente usado para referenciar atuação no teatro, se tornou uma metáfora da interpretação do dia a dia. A hipocrisia é uma condição em que o sujeito entra em inércia, não consegue criar uma cisma entre “o que foi” e “o que é” ou será. Ele suspende seu raciocínio e decide agir como se tudo permanecesse, finge, cessa seu pensamento crítico, se nega a perceber determinados eventos, os ignora. O hipócrita é, portanto, um ignorante.

Mas, por mais que o hipócrita se feche hermeticamente em sua bolha, a realidade punge, e o mundo continua girando. Aproveitando a ajuda de Marco Aurélio, no mesmo livro, ele nos lembra que “o universo é a mudança, nossa vida é o que nossos pensamentos fazem dela.” Talvez, nos seus pensamentos, o hipócrita encontre a tal realidade estacionária que tanto busca e sua vida se molde em torno dessas ideias, mas, no final das contas, o universo mudou à sua própria vontade. E muda.

E eu não culpo as pessoas por buscarem a hipocrisia, por optarem pela ignorância. Sejamos francos, Deus nos abandonou quando penduramos Jesus na cruz, e eu entendo, eu também desistiria da humanidade. Não existem muitos motivos para abraçar a realidade por trás da rosa. Ela é espinhenta. O poeta Carlos Drummond de Andrade o fez e se arrependeu prontamente. Mas se você tentar atravessar um precipício convicto de que há uma ponte invisível e movido por uma fé inabalável, como Indiana Jones em busca do Santo Grau, existe uma chance considerável de que você acabe mais parecido com o Coiote em busca do Papa Léguas.

As pessoas escolhem a ignorância pelo que a psicologia define como “Dissonância Cognitiva”, a sua realidade objetiva – vida – não está alinhada com sua realidade subjetiva – desejos –, e, nesse conflito, você faz coisas estúpidas. Essa é uma etapa natural do que se denomina “Modelo de Sofrimento Kübler-Ross”, mais conhecido como os cinco estágios do luto.

Os estágios consistem em: negação, quando você acha que o plano de Deus está errado; raiva, quando você acha que pode dizer isso para Ele; negociação, quando você acha que pode mudar a decisão d’Ele; depressão, quando você percebe sua insignificância; e aceitação, porque, no final, não faz diferença. Seria como se o seu chefe marcasse uma reunião no feriado em que você planejava viajar. Primeiro você pensa que aquilo não pode estar acontecendo, depois joga o celular na parede, então tenta conversar com o chefe, os colegas e o Papa, percebe que ninguém se importa tanto assim com a sua viagem, e simplesmente vai na reunião, porque o mês é um corredor estreito e extenso, e no fim dele te esperam contas para pagar.

Essa é uma metáfora ruim, existe uma diferença significativa entre resignação e aceitação, mas acho que foi uma ilustração didática. O “luto”, no caso, pode ser qualquer tipo de perda ou sofrimento. Quando confrontadas com o sofrimento, as pessoas geralmente apresentam uma dificuldade para ultrapassar o primeiro estágio, da negação, às vezes, voluntariamente. Nesse caso, ocorre o que a psicologia denomina “recalque”.

O recalque é um mecanismo mental que atua na repressão de ideias, desejos, lembranças e afins – pulsões – incompatíveis com o “eu”, e, segundo Sigmund Freud, é o fenômeno responsável pela gênese do inconsciente. Ao direcionar essas frustrações para o esquecimento do inconsciente, o eu bloqueia os conflitos – ou crises – desencadeadores de angústia.

Basicamente, quanto mais frequente essa prática, mais denso e obscuro será esse inconsciente, e, como um balde, transborda, manifestando os desejos renegados e os pensamentos reprimidos, comumente através de sonhos ou ações espontâneas e involuntárias – o que é chamado de “retorno do recalcado”, nome terrível, eu sei. Com as pessoas tendo cada vez mais informações para reprimir e cada vez mais motivo para tanto, não espanta que a incidência de transtornos psicológicos tenha se capilarizado.

Do meu ponto de vista moral um pouco absolutista, com fortes tendências existencialistas, essa negação é totalmente estúpida. Como diria o existencialista Sartre, essa angústia é nada mais do que natural. Angústia é um tipo bem específico de medo, o medo do inelutável, inexorável, inflexível: o medo da realidade. E a realidade humana é a liberdade, você é livre para escolher seu destino. Mais do que isso, está “condenado a ser livre.” E, para ele, negar essa realidade – a fuga dessa angústia vital – é agir com má-fé.

Normalmente evito dar o meu posicionamento nesses assuntos de forma tão clara e incisiva, mas é o típico tópico (“típico tópico”, ótima combinação de palavras) que é extremamente pessoal para mim. Por alguns anos, amei infinitamente alguém, e essa pessoa também, infinitamente, me amou. Infelizmente eu a amava mais do que ela amava a si mesma. Confrontada com pulsões românticas, viu que era livre para escolher uma vida nova e a responsabilidade foi mais pesada do que ela podia suportar. Negou seus desejos, negou suas possibilidades e permaneceu em uma reconfortante vida medíocre e segura, mantendo a ilusão determinista de que não podia fazer nada sobre seu relacionamento fracassado.

Mas não posso culpá-la. Quem poderia? Afinal de contas, foi a decisão sensata. Lembro das vezes em que ela dizia que “tinha um relacionamento vazio, mas pelo menos não mentia sobre isso e maquiava essa verdade no instagram”. Agora, enquanto acompanho as atualizações deliberadamente falsas e dissimuladas dela nessa rede social, me resta apenas rir dessa desgraça. Mas ninguém tem culpa de ser covarde, é o tipo de característica que varia conforme o convívio familiar, os eventos ao longo da vida, o ambiente. Na minha opinião, a covardia foi compreensível. Mas o que me interessa discutir agora é: como posso chamar alguém que amo de “covarde”?

Não posso. Ou melhor, não poderia. Uma coisa se tornou razoavelmente clara para mim: eu amei a projeção que fiz dela, as minhas esperanças em relação àquele indivíduo, não ela própria necessariamente. “Nossa vida é o que nossos pensamentos fazem dela.” Soa errado ou utilitarista demais amar as expectativas em relação a uma pessoa em vez da pessoa em si? Talvez narcisista?

Concordo que seria, se eu estivesse pensando em um relacionamento de curto prazo, mas quando você pede que alguém abandone tudo o que construiu ao longo de anos tendo em vista um projeto de vida, você precisa oferecer mais do que um relacionamento de curto prazo. E, em um relacionamento duradouro, não basta amar a pessoa, é preciso saber se amará as mudanças que ela sofrerá, o subproduto delas, e também os pequenos detalhes que não mudam tão cedo.

Esse texto é a minha maneira de evitar a hipocrisia. Já neguei o bastante, quebrei pratos o bastante, barganhei bastante com Deus, me guardei debaixo das cobertas por tempo suficiente. A aceitação é libertadora. Se eu pudesse seguir um conselho, observaria outra passagem interessante do livro de Marco Aurélio. “Quando acordar de manhã, diga a si próprio: as pessoas com quem vou lidar hoje são intrometidas, ingratas, arrogantes, desonestas, invejosas e grosseiras. São assim porque ignoram a diferença entre bem e mal.”

Nietzsche trabalhou a ideia de “Amor Fati” – amar o destino, em tradução literal. Sua teoria era de que o ser humano superior teria a capacidade de entender a função das alegrias e das amarguras da vida, inclusive a importância do sofrimento, e, assim, não apenas aceitar, mas amar o destino da forma que ele se apresentar. Não acho que eu tenha conseguido tanto ainda, mas sem dúvida espero conseguir.


Ettore Cagni

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