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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

NOVA META DA ARTE

Uma tendência iniciada em 1986 está tomando força no universo da arte. Você sabe o que é Metamodernismo?


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Shia Labeouf é um ator hollywoodiano mais conhecido por suas participações em buracos negros intelectuais como a série de filmes Transformers - sinceramente, não sei porque ela ainda existe. Entretanto, recentemente, ele decidiu se dedicar a uma causa bem peculiar, o Metamodernismo.

Então, você provavelmente já ouviu falar e Modernismo e talvez em Pós Modernidade. No entanto, uma confluência dos dois originou o Metamodernismo, e esse termo deve despertar algumas interrogações na sua cabeça.

Primeiro, o que seria essa estética? O que ela herda de suas antecessoras? O Metamodernismo surge da especulação sobre a diferença essencial entre modernidade e pós modernidade. A primeira é marcada pelos seus grandes valores - ou “grandes narrativas”, como diria Lyotard, teórico que estudou essa divergência -, enquanto a sua sucessora é marcada por uma crise dos valores - ou narrativas. Enquanto um romance moderno tenta comprovar alguma tese, algum valor, como a justiça, a liberdade, o amor, etc., etc., a pós modernidade surge para acabar com os ideais.

Exemplos da ótica moderna são os super heróis, sempre defendendo algum grande valor, como o Homem Aranha, promovendo os ideais de justiça. Enquanto isso, na pós modernidade, filmes sobre festas adolescentes - como “Projeto x” - surgem para corroer qualquer noção de valor humano, ou mesmo o super herói Deadpool, que se destaca pelo seu cinismo e por seu ceticismo.

Desse pêndulo entre o ceticismo cínico e o moralismo absoluto nasce o Metamodernismo, como dita o “Manifesto Metamoderno”, reconhecendo que o mundo existe na oscilação entre esses dois extremos. Essa ideia encontrou muito respaldo na física moderna - perceba que a física moderna não tem nada a ver com a modernidade na arte.

Cientistas como Schroedinger, partidários da teoria quântica, atestam que nada existe a priori, as coisas se definem apenas ao serem estudadas, analisadas. A isso chamou de “Princípio da Incerteza”, pois seria impossível determinar qualquer coisa sem observação e análise. Para ilustrar essa proposição, derivou a alegoria do “Gato na caixa”.

Imagine que você tem um gato com um frasco de veneno que tem 50% de chance de se romper nos próximos dez minutos. Estatisticamente, pode-se afirmar que o gato tem metade das chances de estar vivo e metade de estar morto - observação, não existem gatos zumbis. E você só pode confirmar isso assim que abrir a caixa para olhar.

Mas é aí que a teoria quântica se destaca. Em vez de propor simplesmente que o gato pode estar vivo ou morto, Schroedinger diria que ele está vivo E morto até que se observe o conteúdo da caixa, momento no qual - alguns cientistas afirmam que - o universo se dividiria em dois, um em que o gato morreu e outro em que o gato está vivo. Não existe uma verdade objetiva, tudo é uma questão de probabilidades e todas coexistem.

Perceba a profundidade dessa afirmação, tome seu tempo para admirá-la. Isso subverte o que chamamos de dialética - tese, antítese e síntese -, caracterizando-se pelo que se denomina antidialética, quando os opostos não são mutuamente excludentes. É possível ser quente E frio, vivo E morto, ou qualquer estado nesse intervalo - como “morno” ou “doente”.

Os metamodernos não perderam tempo. Se não existe uma verdade absoluta, uma grande narrativa, se várias verdades frequentemente antagônicas coexistem, assim como todo o gradiente de possibilidades entre um estado e outro, então é possível ter e não ter valores ao mesmo tempo.

E o que física quântica tem a ver com Shia Labeouf? Em 2013, Shia dirigiu o curta metragem “HowardCantour.com”. Apesar de premiado, o filme não escondeu tentativas - bem sucedidas - de plágio de obras do quadrinista Daniel Clowe, como “Justin M. Damiano” e “Ghost World”, chegando a ter sequências de diálogo idênticas. Mas o interessante foram os desdobramentos e as reações, tanto do diretor inexperiente quanto do público.

A princípio, os assessores de Shia o instruíram a propor que esse suposto plágio se tratava de uma expressão artística em si de caráter pós moderno, pois ia de encontro aos direitos autorais, ou seja, estaria corroendo esse grande valor. Desnecessário dizer que o público não acolheu essa ideia com muito carinho, chegando a ser bem vocais sobre sua desaprovação da conduta do diretor.

Percebendo a impossibilidade de prosseguir pela rota dos rebeldes, Shia optou por uma abordagem mais tradicional e impregnada de grandes valores, típicos da modernidade: desculpou-se. No entanto, o público também não estava disposto a perdoá-lo tão facilmente, especialmente depois de um episódio tão característico de arrogância ao tentar justificar seu plágio.

Sem saída, a equipe de Shia apostou em um movimento ousado, adotando o metamodernismo. E a forma como fizeram isso foi reservar um prédio em Los Angeles e cobrir todas as janelas e paredes de branco, originando a exibição “#IAMSORRY”. Ao entrar, o visitante se deparava com componentes dos fracassos cinematográficos que Shia integrou em sua vida - o chicote de “Indiana Jones e a caveira de cristal”, um boneco dos Transformers, entre outros. Em seguida, entrava em um cômodo que tinha apenas uma mesa à qual Shia estava sentado com um saco de papel na cabeça escrito “eu não sou mais famoso”. E, após alguns instantes de contato visual profundo, o ator começava a chorar e se desculpa veementemente.

A princípio, a exibição é cínica, paródica, satírica e irônica, todas características típicas da estética pós moderna. Entretanto, a sinceridade e o arrependimento no final representam verdadeiros valores universais humanos. Nesse paradoxo, esse pêndulo entre a ausência e a presença absoluta de valores, se constitui a era Metamoderna da produção artística.

Nesse sentido, lembrando do exemplo do Deadpool que dei anteriormente, enquanto o personagem em si é pós moderno, sendo profundamente cético e cínico, o filme de 2016 desse super herói tem um enredo metamoderno, pois, apesar de todo o sarcasmo presente na narrativa e principalmente nas propagandas, ao final, a obra tenta comunicar o valor do amor verdadeiro.

Claro, uma proposta estética tão aberta a polêmicas, além de razoavelmente genérica e de aplicabilidade duvidosa, não está imune a críticas - muitas críticas. Há pouca substância do que de fato definiria esse movimento artístico proposto em 1986. Mas será interessante observar o que os novos artistas terão a dizer sobre essa nova possibilidade de explorar a arte. Particularmente, como exemplar desse movimento, recomendo um minimusical produzido pelo próprio Shia LaBeouf, intitulado “Shia LaBeouf”, com participação de Rob Cantor.


Ettore Cagni

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