maravilhoso

O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

O ESPETÁCULO NO SÉCULO XXI

Do curioso caso do indivíduo que pesquisa a letra da música no celular durante o show para poder acompanhar o artista e cantar junto, negando a autenticidade e a espontaneidade que qualificam a exclusividade do que chamamos de sentimento e arte.


cellphone sea.jpg

Blade Runner, Exterminador do Futuro, Eu, Robô. Retratos do medo humano sobre a perda de sua exclusividade, seu diferencial. Não, não a capacidade de pensar, a razão, a inteligência. Nisso já nos superam as máquinas diversas vezes, além de que não temos apego emocional ao nosso intelecto, ele é apenas útil. Nesse ponto, um serviçal mecânico inteligente não seria incômodo, porque a finalidade – ser útil – seria aprimorada. Incômodo seria um companheiro positrônico com sentimentos.

Temos apego emocional aos nossos afetos, acreditamos que sejam mais do que um subproduto de uma série de experiências sensoriais e exercícios racionais sobre essas experiências, conferimos-lhes um caráter diáfano, inventamos uma palavra abstrata e imaterial para diferenciar-nos: alma. Hollywood nos propõe um quadro claro dos nossos verdadeiros temores em relação às máquinas. Não o estado de “singularidade” – em que máquinas seriam capazes de superar o intelecto humano, sendo capazes, talvez de simpatia, no máximo –, mas de um despertar sentimental – que os tornaria capazes de empatia e afetos próprios.

Minha razão de falar sobre isso é minha crença de que esse temor seja fútil. Não porque seja impossível máquinas adquirirem sentimentos, mas porque já aconteceu, e nós os entregamos a elas. Vá a um show e perceberá o mar de luz autodenominado “plateia”. Minha revolta derradeira foi em um show do grupo musical Anavitoria. As duas jovens, de carreira propelida por Tiago Iorc e cujo talento supera em muito seu patrono, cantaram maravilhosamente sobre sentimentos. Qualquer show meia boca com um público sensato implica em bis, até para fazer valer o preço do ingresso. Os espectadores, urrando, trazem o teatro abaixo na ânsia da saideira. Nesse caso, não foi o que aconteceu. O bis ficou a cargo do botão de replay no celular. A memória da plateia bovina, substituída pela memória do celular. O contato visual entre artista e audiência mediado e impossibilitado pela muralha de luz entre eles. A luz, que possibilitou a nossa sobrevivência, impede a nossa convivência.

Outra prática antes muito comum em shows era o Tributo de Fogo. Em 1969, a cantora Melanie Safka ficou impressionada com um público cidadão, que se mantinha de pá apesar da chuva torrencial no Woodstock. Essa foi a faísca que originou a música “Lay Down (Candles in the Rain)”, que dizia como, se mantivermos nossas velas erguidas, sairemos secos dessa chuva. Assim se iniciou a centelha da presença de centenas de velas em shows de música, posteriormente substituídas pelo isqueiro por questões de praticidade. Atualmente, infelizmente, as lanternas de celular fazem as vezes das velas. A vela, assim como o fluido de isqueiro, é um símbolo de fugacidade, um brilho intenso, porém perecível, uma analogia em relação ao que seriam a vida e a alma humanas. Além disso, a chama em si é um símbolo catártico, da purificação da alma e da elevação do espírito, uma representação direta e intimamente relacionada ao sentimento das pessoas em um show. “Catarse” é o que Aristóteles afirmou, em seu livro “Poético”, que ocorreria em espetáculos teatrais de tragédia, ao se experimentar sentimentos tristes em um ambiente seguro, expurgando emoções negativas, que é o que nos levaria ao choro. Evidentemente, a lanterna do celular não é carregada de tanta carga semiótica. Se muito, coincide com a parte mais rasa da simbologia, a metáfora de uma luz solitária ser fraca, mas de várias juntas poderem transformar a noite em dia, demonstrando como o esforço conjunto é muito mais produtivo. Entretanto, é um símbolo indireto, impróprio e superficial da relação artista-público, inviabilizando a sublimação dos sentimentos.

Além disso, em termos práticos, a presença do público no show se torna irrelevante. Quem grava o show o está assistindo por intermédio de uma tela. Em outras palavras, quem grava o show, embora fisicamente seja assíduo, espiritualmente está tão presente quanto quem o vê de casa, pela televisão, não está lá “de corpo e espírito”. Seu pensamento está no futuro, não no presente. Pondera sobre o momento de exibição do vídeo, as histórias a se contar de um momento não vivenciado, perdido nas considerações acerca da iluminação, do ângulo de câmera contra-plongée mostrando a barriga saliente do cantor, da qualidade sonora ruidosa e afins. Por isso mesmo, o próprio interesse do gravador não é que o olhar do artista recaia sobre si, masque se dirija à própria câmera, para ser eternizado. As fotos e as evidências deixaram de significar presença e se transmutaram em representações da ausência. Onde se tira fotos são os únicos lugares em que de fato não se esteve, os momentos gravados são precisamente aqueles únicos que não são vividos à plenitude, na esperança de revivê-los infinitamente ao os reexperimentar posteriormente. Eminentemente, uma estratégia falha.

É de tal forma absurdo, ridículo e incômodo esse fenômeno que o artista Jack White decidiu rebelar-se contra isso. Passou a ceder a despesas extras – como equipes de filmagem – em seus shows apenas para poder olhar seu público nos olhos, em vez de encarar uma parede de luzes e I-Pad’s, disponibilizando cópias para todos os que estiveram no show. Pessoalmente, acredito que seja um esforço fútil, na medida em que não será valorizado, posto que perde toda a exclusividade e a originalidade, uma vez que não foi elaborada pelo próprio indivíduo. Mas, pelo menos, é um começo possível.

É nessa perspectiva que a sociedade do espetáculo, proposta por Guy Debord em meados do século XX, encontra seu auge no século XXI, e o encarna, como previsto, do lado errado do palco. Em lugar de viver, grava-se. A sublimação dos sentimentos é substituída pela necessidade masoquista de afirmação da participação em algo maior do que si. A lembrança individual, interna e subjetiva é transfigurada em comemoração, memória coletiva, no celular, externa. Não mais servindo apenas para a satisfação e a recordação particulares, mas para a exibição pública. A definitiva degradação do “ser” – essência, assistir ao show – em “ter” – posse, aquisição do ingresso ou de algum memento da loja de conveniência –, e deste em “parecer” – aparência, aparentar ir ao show, gravá-lo ou se fotografar nele, mesmo que não estivesse prestando atenção. Este é o espetáculo no século XXI, demonstrado empiricamente por Anavitoria.


Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Ettore Cagni