maravilhoso

O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

O PROBLEMA DO NADA

Já presenciou uma tentativa extremamente tosca de encaixar uma citação em algum contexto? Alguém que cita filósofos a torto e a direito? Alguém que desmerece uma área do conhecimento em detrimento de outra como se houvesse uma hierarquia entre elas? Uma análise mais aprofundada sobre esses eventos demonstra uma preocupante deformação na visão social sobre a relação entre universidades, intelectualidade e academia. Por uma deselitização do ensino. Por uma universidade livre de amarras e jogos de interesse.


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Um dia eu recebi um texto para revisão. Sim, eu brinco de editor em um blog de brincadeira. Mas acho que esses são os únicos lugares em que se pode exercer uma escrita séria e profissional. Sem as preocupações com avaliação dos leitores, feedback, e responsabilidade moderada. Me encanta essa liberdade, e me entristece que ela seja tão mal aproveitada geralmente.

Enfim, recebi esse texto de um jovem, como vários outros do blog, promissor, tratando do vazio existencial do escritor. Na verdade, talvez “tratando” não seja a melhor palavra, mais descrevendo do que qualquer coisa. E me deu náusea. Foi a primeira vez que eu vi algo que já tinha olhado várias vezes: o vazio.

Eu já tinha lido uma profusão de nada, em jornais, revistas e blogs, grandes ou pequenos. Até essa última frase é puro nada. E quando falo de fazer nada, não menosprezo um tipo de conhecimento em função de outro, não pretiro um tipo de pessoa em detrimento de outro, mas me refiro à assustadora classe das “não-pessoas”, as pessoas que não são o que quer que devessem ser.

Um aluno meu tinha dificuldade com a matéria de história e eu pensei como um bom pedagogo construtivista pós-moderno: “talvez ele tenha dificuldade com a matéria porque ela não fala uma linguagem que o interesse.” Então eu perguntei se ele gostava de ler no tempo livre.

Fui prontamente negado. Disse-lhe que aquelas coisas que os jovens liam também contavam. Novamente negado. Imaginei que fosse do tipo que prefere filmes então. Não. Jogos? nada de errado nisso. Não. Música? Esportes? Comida? Oxigênio? Fui rejeitado exatamente dez vezes antes de simplesmente repassar a matéria com ele. Mas essa experiência sintetizou algo poderoso para mim. Sempre existe algo se erguendo no horizonte, uma nova tendência, alguma mentalidade. Essa é a vez do nada. Imagino o que essas pessoas fazem quando chegam em casa. Devem sentar na cama, olhar pra parede e esperar pelo próximo dia.

Eles não gostam de nada em especial. Podem ter uma aptidão pra algo. Mas também não vão se devotar ou fazer concessões para melhorar. Vão apenas... manter as coisas como são. Vão admirar o moinho e esperar o vento soprar. E, para mim, isso decorre de uma desvalorização das aptidões concretas.

Sempre que comento isso recebo olhares reprobatórios. Afinal, por que algumas pessoas seriam privilegiadas com mentes produtivas, enquanto outras estariam “limitadas” a uma mentalidade reprodutiva? É o que os pseudoentendidos e intelectuais da pedagogia me perguntam. Veja, caso você não tenha percebido o “problema” da minha proposição, ela supostamente fere um senso de igualdade e democracia, como se nem todos os humanos fossem dotados da mesma capacidade cognitiva.

Mas, veja bem, não são mesmo. Uma mente pode ser tão potente quanto outra, mas ser direcionada para um outro foco. A democracia é garantida justamente por esse choque entre os diferentes, essa cooperação entre capacidades complementares. Me parece atroz subjugar uma mente reprodutiva pelo preconceito de que ela seja limitada por sua condição. Um dos poetas mais conceituados da história, Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Álvaro de Campos, disse: “Tirem-me daqui a metafísica! (...) Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.”

Desnecessário dizer que a “simples” técnica dele é invejável e foi um dos modelos do pensamento ocidental. Então qual o problema de afirmar que alguém talvez não seja criativo? Você pode ser uma pessoa técnica, e muito mais relevante do que pessoas criativas medíocres. Com certeza muito mais do que uma pessoa técnica que passe a vida tentando ser algo que não é.

Nesse sentido, a forma apoteótica como enxergamos as universidades – ou a academia em geral – precisa de uma reformulação. Engenheiros, cozinheiros, cabeleireiros, médicos, professores, vários grupos que não deveriam ser forçados a adquirir uma vasta gama de conhecimentos inúteis à prática durante a sua formação. São reprodutores de informação! Aplicam fórmulas, decoram combinações, transmitem informações, apenas. E isso é um baita apenas! Pois não é nada simples reproduzir algo à perfeição, codificar, decodificar e transmitir conhecimento.

Me perguntaram se eu não considerava que professores pelo menos deveriam receber uma formação mais acadêmica, para poder ensinar com excelência e genialidade. De forma alguma. Sua capacidade de comunicação é um aspecto que deve ser desenvolvido no âmbito pessoal, independe de fatores acadêmicos; é um dos pressupostos da humanidade e um prerrequisito para o convívio social. Ele deve se atualizar em sua área, todos devem, mas isso é diferente de gerar conhecimento. Alguns simplesmente não foram feitos para a abstração, da mesma forma que outros não possuem o menor tato para a concretude, a transmissão de informação, a aplicação de conhecimento prévio.

Se aceitássemos esses fatos, talvez houvesse menos acadêmicos medíocres e menos artistas brincando de engenharia, ou medicina, ou advocacia. Essa ausência de aceitação da realidade como ela é, e da interdependência desses dois grupos, gera danos para a sociedade, por prejudicar a produção científica, e danos privados, pois o indivíduo nunca conseguirá promover suas verdadeiras aptidões.

Não é nenhuma vergonha ser um grande reprodutor do conhecimento previamente estabelecido. É, na verdade, um grande mérito! Mas carregamos esse estigma sem nem percebermos por uma característica predatória da necessidade de empreendedorismo no capitalismo de mercado. Todos precisamos produzir. Produzir bem e muito. Todos somos capazes. Mas capazes de quê? De gerar lucro para as grandes corporações? E se alguns não forem assim? E se alguns ficarem pelo caminho? Quem liga? O que importa é o bem maior. O bem do que é maior do que você. Mas não se engane, o capitalismo não é democrático. O bem maior capitalista não é o bem do maior número de pessoas, é o bem de quem é maior do que você; e é maior do que você quem tem mais capital do que você.

Digo isso porque não quero mais ter que olhar no olho de uma criança e mentir. Mentir que tudo aquilo que ela não se interessa em saber vai ser útil. Mentir que é a coisa certa. Mentir que será o melhor. Eu posso falar para uma pedra fabricar uma pérola e explicar todo o processo biológico envolvido, mas, se ela não for uma ostra, não vai adiantar. E qual é o mal nisso? Dependendo da situação, que bem me faz uma pérola? Mas, com uma boa pedra, posso destruir e posso construir de novo. Precisamos superar a febre dos gênios incompreendidos. Precisamos superar esse excesso de nada. E o único jeito é deixando que as pessoas façam algo.


Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos.
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