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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

POR QUE É TUDO TÃO RUIM?

Não sei se é um sentimento compartilhado, acredito que sim pelas conversas que tenho e pelos comentários que vejo, mas cinema tem se tornado uma experiência broxante, profundamente entristecedora. Mesmo quando é bom, é ruim. E uma parte da alma fica no tapete vermelho. É uma questão ilusiva e tende a um maniqueísmo corrosivo, mas acredito que o bom e velho Aristóteles tem algo a nos dizer sobre isso.


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As idas ao cinema tem se tornado um castigo. Por um lado, um dos últimos refúgios do cotidiano, esse templo do ócio tem negado aos seus súditos a recompensa prometida do entretenimento. E me refiro tanto ao circuito comercial quanto ao circuito cult. Certo que neste os temas podem ser mais interessantes, mas o enredo tende a ser tão desapontador quanto. E creio que a chave do problema esteja nos dois gêneros centrais dos quais se ramificam os filmes.

Como proposto pelo grande mestre Aristóteles em sua obra “A Poética”, o entretenimento espetacular se divide essencialmente em dois segmentos: a Comédia e a Tragédia. Comédia na obra de Aristóteles não implica em humor, não é um filme engraçado, é um filme com um desfecho positivo. Em outras palavras, quando um protagonista alcança os objetivos que perseguiu ao longo da história, a narrativa é uma comédia; quando o oposto acontece, trata-se de uma tragédia.

O problema nesse caso é que as pessoas não conseguem perceber que é aí que está o problema central dos filmes atuais. E não encontram as respostas certas porque fazem as perguntas erradas. Em geral as pessoas questionam características acidentais dos filmes, o aspecto técnico, questões de Oscar, como iluminação, atuação, elenco, roteiro, diálogos… E, claro, tudo isso é muito importante em um filme. Mas nesse caso, não é o que tem tornado o cinema tão indiferente.

Em oposição a essas características acidentais, existe a substância dos seres. E é na substância que está a chave desse debate. Os filmes tem sido cada vez mais bem produzidos, apresentam cada vez maior qualidade técnica, debatem temas profundos. Todas as características acidentais são ótimas. Os filmes são de fato muito bons, mas o problema está na essência. E a essência dos filmes é sempre a comédia.

Veja bem, nada de errado em se produzir comédias. São ótimas experiências, trazem uma sensação de prazer imediato, é bom ver coisas boas acontecerem e pessoas esforçadas e “merecedoras” atingirem seus objetivos… mas enjoa. E de fato precisa-se de um pouco de diversidade nos enredos, ou a estrutura dos mecanismos de consagração cinematográfica estarão fragilizadas pela impossibilidade de concretização do próprio espetáculo. Ideia complexa, mas já explico.

Primeiro, a experiência da tragédia é fundamentalmente diferente da experiência da comédia. A tragédia nos apresenta alguém que, a despeito dos seus maiores esforços, precisa lidar com suas limitações e as administrar. Isso nos lembra de nossas próprias limitações e capacidades. É um contato com o medo em um ambiente seguro. Enfrentamos nossos maiores temores, originados de nossas limitações, como a mortalidade, a impotência e a ignorância, mas indiretamente. Segundo Aristóteles, isso é o que se denomina “catarse.”

A catarse seria, no final das contas, uma experiência muito positiva, porque nos levaria a termos com aspectos obscuros e indesejáveis de nós mesmos. E esse objetivo claramente seria mais facilmente atingido em filmes de terror. Quer dizer, é o gênero que por definição mais nos defronta com nossos medos. Um dos maiores autores de livros de terror de todos os tempos, Lovecraft, cunhou sua obra prima, “O Chamado de Cthulu”, com base nesses preceitos de impotência e limitação.

Entretanto, o que mais se vê nesse gênero é o tipo mais fraco e esdrúxulo de terror, apelando para o nojento (“gore”) e os “jumpscares.” Raramente o protagonista é ameaçado nos níveis mais sutis do medo e da psique humana, com os três aspectos primários dos fatores limitantes da humanidade que mencionei. Nunca estão em um estado de impotência, ou seja, em que não possam fazer absolutamente nada no sentido de combate nem de fuga. Nunca estão em estado de ignorância, isso é, nunca são enfrentados por um inimigo incompreensível. Muito menos morrem, o que seria a suma síntese desses dois fatores, posto que a morte é a fronteira final, o limite definitivo da humanidade, inelutável, inescapável e incógnita, pois ninguém sabe o que é a morte de fato, se há algo depois, etc.

Isso é o que distinguia os filmes de terror antigos. “Sexta Feira 13”, por exemplo. Certo que em todos os filmes um personagem sobrevive, mas essa sobrevivência é uma derrota, não uma vitória. No primeiro filme da série, uma das protagonistas sobrevive, no entanto, apenas em um cenário de desesperança, em que ela já desejava a morte após tudo que viu e vivenciou, e apenas porque Jason permitiu. O antagonista é envolto em mistério, ninguém compreende suas motivações e nem as condições que permitem que tal abominação caminhe.

O mesmo ocorreu com outras séries lendárias de terror, como “A Hora do Pesadelo”, em que os heróis eram completamente impotentes contra a ameaça de Freddy Krueger, e até certo ponto também na série “Premonição”. O que aconteceu, entretanto, foi a degradação desses expoentes do terror em filmes de drama ou ação, que não pertencem nem a um gênero nem a outro. Recentemente, a produção que mais se assemelhou a um terror decente foi a excelente primeira temporada da série do Netflix “Stranger Things”, mas, como seu foco era a ficção científica e não o terror, logo ela perdeu sua aura de medo.

E talvez o sucesso de um filme como “Doutor Estranho”, que já tratei em outro artigo, deva-se a esse fator também. Ele reúne o melhor da comédia - visto que o protagonista alcança seu objetivo de DETER Dormammu - e o melhor da tragédia - uma vez que o personagem precisa reconhecer suas limitações e sua impotência enquanto aprendiz de mago diante de uma entidade divina milenar espacial, não conseguindo destrui-la de fato.

Além disso, essa alternância entre tragédia e comédia é importante também para que a comédia continue sendo uma comédia e tendo seu elemento de catarse pela superação dos obstáculos e pelo mérito de um protagonista esforçado. Se todos os filmes forem comédias, essa superação começa a parecer um lugar comum, como se fosse absolutamente simples, perde seu valor de espetáculo. Algo absolutamente comum, ordinário, não é espetacular, extraordinário. Portanto, como eu disse ali em cima, “precisa-se de um pouco de diversidade nos enredos, ou a estrutura dos mecanismos de consagração cinematográfica estarão fragilizadas pela impossibilidade de concretização do próprio espetáculo.”

Essa é a causa que mais me parece justificar o tédio que toma conta da indústria do cinema recentemente, a ausência de uma ousadia na hora de produzir filmes tristes para não correr o risco de desagradar o público, restringindo-se à zona do conforto cômico.


Ettore Cagni

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