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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

SEGURO DE RELACIONAMENTO

Hoje, você dando “like” ou “não”, quero falar dele, o “cardápio de pessoas”, o grande aplicativo de promoção de relacionamentos, Tinder. Mais especificamente, um olhar aprofundado nos efeitos dele sobre a geração que entrou em maturidade romântica durante o período ativo dessa rede social.


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Apesar dos usos excêntricos adotados por alguns usuários do Tinder, ele é um aplicativo multiplataforma de localização de pessoas para encontros românticos cruzando informações do Facebook e localizando as pessoas geograficamente próximas. A ênfase aqui vai para o termo “românticos”. Não, não é um lugar para “conhecer pessoas novas” e “fazer amizades”, por incrível que pareça. Também é contraindicado o uso de Tinder para a busca do amor verdadeiro, e demais atividades que requeiram profunda identidade intelectual entre dois sujeitos. Convenhamos, uma seleção baseada em meia dúzia de fotos, quinhentos caracteres de descrição e talvez uma conversa não proporcionam o nível de aprofundamento necessário para relações mais que superficiais.

Não, não vim escrever mais um – e aqui a ênfase recai sobre a expressão “mais um” – texto sobre sentimentos e sobre como é errado se prender à superficialidade, pois já aparecem o suficiente na Obvious. Porém, tendo em vista essa funcionalidade inusitada do Tinder, pode ser interessante refletir sobre seus efeitos na dimensão romântica da sociedade. Certo que toda vez que surge uma nova ferramenta também aparece um batalhão de textos de “geração google”, “geração facebook”, “geração coca cola”, “geração isso”, “geração aquilo”, mas acho que pode ser proveitoso comentar a Geração Tinder.

Não me arrisco a dizer que o Tinder teve efeitos na sociedade do mesmo modo que a bomba nuclear teve efeitos sobre a sociedade. Ou a televisão, ou Freud, ou lixeiras recicláveis. Mas ele certamente teve alguns efeitos, e, principalmente, salientou alguns aspectos preocupantes dessa tal civilização ocidental.

Acho que o efeito “cardápio de pessoas” já foi bem trabalhado em outros lugares, e depois foi ainda mais explorado ao ponto do ridículo, mas sem dúvida expressa traços negativos do pragmatismo com que encaramos as relações sociais em um mundo de mercado industrial de massa. Em outras palavras, vemos como o homem comum quer economizar tempo e ter acesso à maior variedade de produtos possível.

Entretanto, acho que o efeito mais relevante desse fenômeno sobre as dinâmicas sociais de romance está no rompimento. Se você tiver pensado em Bauman e o amor líquido, esqueça, não é isso. Primeiro, alguns números: desde sua concepção, em maio de 2011, o aplicativo conquistou quarenta milhões de usuários, sendo que metade deles alegam procurar apenas amizades, mas não obstante gerou nove bilhões de combinações – “matches” – nesse meio tempo. Além disso, metade dos usuários do Tinder estão em idade universitária, supostamente entre dezoito e vinte e cinco anos, e, embora apenas um quarto deles utilize o aplicativo com a finalidade de encontrar um relacionamento duradouro, oitenta por cento deles gostaria de iniciar um relacionamento longevo.

Tendo em vista esses dados, é possível uma nova abordagem das estatísticas de divórcio ou separação na última década. O índice teve leves flutuações, sempre em torno de quatro décimos dos casamentos, com uma ligeira elevação entre 2011 e 2012. Entretanto, os divórcios entre pessoas na faixa dos vinte aos trinta anos subiu vertiginosamente.

Não há coincidência aqui. Existia demanda e oferta, e o Tinder nos presenteou com o cartão de crédito. Milhões de jovens em uma época extremamente potente de suas vidas, a universidade, ansiosos por um relacionamento de longo prazo encontram outros jovens iguais a si com um veículo direto e conciso – “sim” ou “não”. O número de casamentos entre jovens adultos aumenta. Eram pessoas que se conheciam com a profundidade de uma poça d’água e decidem coabitar um espaço doméstico com a pretensão de permanência. Em poucas palavras, descobriram em pouquíssimo tempo que fotogenia não é sinônimo de simpatia, o que dificulta potencialmente um relacionamento. Nos últimos anos, metade dos casamentos se desfizeram antes de atingirem a primeira década de vida.

E é nisso que penso toda vez que me deparo com a frase “procurando alguém que me faça desinstalar esse app” na bio de algum usuário do Tinder. Mas esse não é o único modo pelo qual o aplicativo favoreceu a incidência de divórcios.

Depois de investir uma quantidade substancial e considerável de carga emocional, energia e, mais importante, dinheiro em um relacionamento, é bem pouco provável que ocorra uma separação. Todos sabem o que é isso, a maioria presencia em casa ou com parentes próximos, casais que claramente não sentem de forma tão intensa um pelo outro, talvez pudessem ter uma excelente amizade ou um relacionamento eventual, desgastando o apreço mútuo para alimentar a caldeira de um casamento que não deveria existir para começo de conversa. Pessoas ligadas pelo comodismo – o nível patológico de comodidade que influi negativamente no capacidade de realização pessoal do indivíduo –, pelo costume.

Para superar o comodismo seria necessário um ótimo motivo, que a outra parte tivesse algum vício destrutivo, ou fosse violenta ou agressiva – e, às vezes, nem isso basta –; ou que houvesse uma espécie de seguro caso o relacionamento acabasse. Algo que fornecesse segurança de que a pessoa pudesse recomeçar sua vida com alguém cujas características primárias fossem suportáveis, alguém com quem não tivesse passado, uma pessoa basicamente desconhecida porém provavelmente agradável.

Um terço dos usuários são casados, constituindo um total de quarenta por cento dos usuários que estão envolvidos em relacionamentos sérios. É dessa forma que o Tinder verdadeiramente corrompe a instituição matrimonial, proporcionando substitutos práticos para relacionamentos desagradáveis. O problema é que o possível ciclo vicioso é quase evidente. A urgência para começar a vida nova com outra pessoa garante que o convívio com ela possa ser ainda mais insustentável do que com a anterior, gerando uma nova separação e um novo começo, e assim por diante.

Por outro lado, o Tinder demonstra aspectos admiráveis da natureza humana. Nossa capacidade de sociabilização nunca antes foi manifestada de maneira tão primorosa. Milhões de pessoas estão abertas a conhecer perfeitos estranhos e mantendo em mente a possibilidade real de um relacionamento sério. Não apenas uma pessoa, são aproximadamente trezentos milhões de “likes” diários.

Apenas seja um usuário consciente, saiba exatamente o que você procura e por que, ou uma ferramenta maravilhosa de experimentação, autodescoberta e encontros com o mundo pode se tornar uma armadilha extremamente nociva.


Ettore Cagni

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