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O mundo de Ettore

Ettore Cagni

Um texto óbvio salta aos olhos. Um texto bom mesmo é aquele ao qual saltam os olhos

UM PROBLEMA GENÉRICO

Para entender do que se tratam os debates sobre gênero, sexo e orientação sexual, suas raízes históricas, suas implicações contemporâneas e sua necessidade no mundo de hoje.


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O debate de gênero avultou grande projeção, gerando divergências entre ideias conservativas e radicais. Alguns imaginam que gêneros nos definam, outros, que sejam definidos por algo. Alguns supõem que não existam gêneros, ou que sejam numerosos demais para quantificar a experiência humana. Infelizmente, um problema colateral de todo debate democratizado é a ignorância do mundo pós-verdade, em que direitos e liberdades são separados de deveres e responsabilidades, o outro lado da moeda.

Cada vez mais comumente, o debate é promovido por pessoas que não se preocupam mais em entender os componentes desse tema: o que é um gênero? como se define? qual é ou qual deveria ser sua função? E então, apenas então, especular sobre a validade e a legitimidade desses conceitos.

Antes de pensarmos uma porção de nomes e tentarmos definir o que o gênero É, pensemos no que ele NÃO É. Gênero não é uma questão de sexo biológico, nem se trata de orientação sexual, por isso mesmo usamos palavras diferentes. Em outras palavras, uma pessoa pode ter um comportamento feminino ou masculino independentemente de ser biologicamente homem ou mulher, ou do que a atrai sexualmente. Consequentemente, gênero masculino não implica em atração por mulheres, nem advém da estrutura muscular hipertrofiada do que se denomina biologicamente masculino, assim como o gênero feminino não pressupõe gosto por corpos de homens ou comportamentos masculinos.

Com esse pressuposto definido pro nosso pensamento, vamos tratar do que é propriamente um gênero. Gênero não necessariamente se refere a humanos, tratamos também de gêneros literários e em outros meios artísticos. Nós temos uma grande confusão quando tentamos definir gêneros, acreditamos que seja possível defini-los através algum aspecto formal ou explícito, e isso se dá em grande parte por culpa da tradição literária de língua portuguesa abordada nos níveis fundamental e médio da educação.

Observamos um texto cujo contorno se assemelha a um grande retângulo vertical e chamamos de “prosa”. Já um texto altamente fragmentário, com versos curtos, porém métrica e sonoridade trabalhadas, seria um “poema”. Isso, por si só, já se torna problemático o bastante quando os escritores e artistas em geral modernos desafiam nossa compreensão sobre tais temas, turvando os limites dos gêneros, como ocorreu com os dadaístas estadunidenses, ou os vanguardistas do cubismo europeu, ou os grandes Modernistas Brasileiros da década de 1920, como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, ou seus sucessores do concretistas. Mas como diferenciar entre um poema extenso e um conto curto, ou um conto extenso e um romance curto, ou um romance e uma dissertação, uma dissertação e um documentário, um documentário e um filme, um filme e um clipe de música, o clipe da própria música, uma canção e uma declamação, ou, finalmente, uma declamação e um poema.

A principal causa dessa confusão é tentarmos usar critérios objetivos para experiências profundamente individuais, fenomenológicas, dos encontros entre sujeito e mundo. Precisamos, nesse caso, discernir a natureza filosóficas de nossos questionamentos. Não podemos confundir indagações típicas da ontologia, estudando e analisando seres por critérios objetivos através de aspectos formais, com questionamentos da teoria do valor, lidando com estética artística e valores subjetivos. Os gêneros literários e artísticos se definem, não pela forma em que se apresentam, mas por como fazem com que nos sintamos ao experimentá-los. Assim, um filme de terror não se caracteriza por um ângulo cinematográfico em particular que lhe seja exclusivo, mas pela experiência que nos comunica mediante uma ampla variedade de combinações de mecanismos e conteúdos, gerando uma sensação generalizada de medo, em vez de uma euforia, como é o caso dos filmes de ação.

Desse modo, quando nos referimos a gênero feminino, não nos referimos a critérios formais e objetivos, mas à sensação de sensibilidade (não enquanto fraqueza, mas como habilidade de compreensão), comunicação e introspecção; enquanto o gênero masculino se nos apresenta como bruto, impulsivo e expansivo. O mais importante é lembrar que homens e mulheres, de qualquer orientação sexual, em uma vida saudável e bem-sucedida nas esferas pública e privada, não só podem apresentar qualquer um dos dois, como de fato devem, e invariavelmente, em algum grau, apresentam, inclusive, ambos, simultaneamente, em diferentes doses, de acordo com as exigências do momento (a principal ideia referente aos gêneros não binários).

Agora, é óbvio que a experiência humana é singular em cada indivíduo e qualquer tentativa de padronização é mera aproximação, mas é o melhor que podemos fazer para compreender cada um para adaptar a oferta de serviços ao que cada cidadão provavelmente demandará. Talvez um indivíduo “A” queira uma escova de dentes cor de cereja, um indivíduo “B” procure uma em tom tomate, “C” prefira uma rubi, e “D” deseje uma vinho, mas os quatro procuram o que podemos denominar “escova de dentes vermelha”, e, embora não atenda plenamente aos anseios de cada um, todos eles poderão adquirir um item que se aproxime muito do ideal, e em tempo viável. Tudo é absolutamente único no universo, envolvendo um espectro infinito de variáveis, mas as ciências servem justamente para descobrir a forma mais adequada e prática de interpretar, traduzir e agrupar essas particularidades.

Aqui, cabe uma nota. Um dos principais grupos que procuram a extinção da ideia de gênero é o do “feminismo radical”. Adiantando, primeiro vou dizer por que isso é um erro, depois vou dizer por que é perfeitamente compreensível essa posição.

Gêneros são um fato, como já expus, são constatações de conjuntos de comportamentos geralmente associados; negá-los, em outra situação qualquer, poderia ser considerado, não apenas ilógico, como profundamente ignorante. Agora, o que devemos levar em conta é que os grupos feministas são sempre – por justa causa – compelidos pelos séculos de opressão do patriarcado, justamente devido a uma interpretação errônea da ideia de gênero, associando o sexo feminino – biológico – universal e integralmente ao comportamento feminino, como se todas as mulheres e apenas elas adotassem posturas femininas e o fizessem durante todo o tempo. Veja, é absolutamente razoável que, após tanto tempo de sofrimento causado, indireta e involuntariamente, pela existência de gêneros, surja um ódio intrínseco à ideia de gênero por parte dessas feministas radicais.

Entretanto, esse sofrimento foi causado, não pela mera existência do conceito de gênero em sua essência, mas pelo seu mau uso. Boas ferramentas já foram mal utilizadas ao longo da história. Os avanços medicinais promovidos por experimentos desumanos com judeus em campos de concentração da Alemanha Nazista foram tremendos. É certo que os métodos foram absolutamente questionáveis e não devem em hipótese alguma ser cogitados novamente, mas a ferramenta em si pode ser usada de forma positiva, não há nada no cerne e na definição de medicina que implique necessariamente naqueles métodos reprováveis.

E, finalmente, proponho que se observe o verdadeiro problema: a forma como temos adotado os gêneros. Abordamos a questão de gênero como uma característica prescritiva, em vez de descritiva. Ou seja, temos usado o gênero para ditar regras sobre como as pessoas devem se portar, impor gostos e preferências aos indivíduos e restringir suas liberdades particulares. Mas não há nada na essência do conceito de gênero que afirme a impossibilidade de usá-lo como uma ferramenta simplesmente de análise das pessoas, observando seus gostos sem interferir neles, para buscar atender à demanda particular e natural de cada um da melhor maneira possível.

Não nos esqueçamos do quanto o conhecimento genérico pode ser lancinante. Procure sempre a especificidade, analise plena e detalhadamente o seu objeto de estudo, não saia tecendo ilações descompromissadas motivadas pelo furor das paixões. Concentre-se em sua razão e pesquise, pois o que falamos reflete em todos, impacta a sociedade. Precisamos de responsabilidade em nosso dever de cidadãos.


Ettore Cagni

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