Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando...

Gente-correio

Alguém já parou pra pensar na quantidade de mensagens que a gente recebe e envia ao longo da vida?
Não, não estou falando das mensagens por e-mail, facebook ou whatsapp; refiro-me às mensagens que vêm das palavras, dos encontros, dos gestos, das escolhas nossas de cada dia - e que podem afetar pra sempre a vida do outro, ainda quando o contato é breve ou ocasional.
Um brinde às mensagens e aos mensageiros, que estão continuamente vivos e operantes dentro (e fora!) de nós!


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Quanto mais eu paro pra pensar nos altos e baixos da vida, mais eu me convenço de que cada pessoa tem um papel específico a cumprir no filme da nossa existência. E não estou me referindo aqui aos papéis de destaque, desempenhados por pai, mãe, irmãos, amigos de longa data, cônjuges e afins – porque esses têm papel constante e fundamental em todos os nossos passos.

Eu me refiro àquelas pessoas que passam sem ficar muito tempo. Àquelas pessoas que gostaríamos que ficassem por mais um dia, mais um mês, mais um ano, mais uma existência... mas que se vão, apesar da nossa imensa vontade de prendê-las num abraço esmagador de costelas, esmagador de carências, esmagador de saudades.

Mas nem só de lindeza são feitas essas pessoas. Existem também aquelas que incomodam. As que nos obrigam a sair da zona de conforto cheia de almofadas fofas, chá de camomila e meias quentinhas (sim, estou escrevendo isso num dia frio, pensando num bom lugar pra ler um livro). As que nos irritam, nos deixam à beira de um ataque de nervos, com o coração disparado em tons de fúria e com o estômago cheio de escorpiões nada emborboletados. Pois bem. A dura verdade é que essas também têm um roteiro específico a cumprir no palco da nossa vida. Quando é assim é melhor aceitar que dói menos; melhor dividir logo a cena, senão a sofrência só se prolonga. Tenho aqui comigo que lição não aprendida é lição incansavelmente repetida.

Outras, ainda, não são nem as flores do caminho, nem a pedra do sapato. Apenas aparecem em determinado momento, cumprem seus papéis da maneira como tem que ser e partem suavemente, sem despertar nem saudade nem mágoa.

Independentemente da categoria na qual as encaixamos, essas pessoas são sempre mensageiras. Elas adentram nossos cenários sem convite e sem planejamento com a única missão de nos entregar mensagens – como bons pombos-correios humanos que são. Gente-correio, pra simplificar. Só que essas mensagens, muitas vezes, têm um propósito específico: o de provocar mudanças na vida de quem as recebe.

As mensagens da mudança são as mais variadas possíveis. Das mais simples às mais profundas.

Pasmem: tem até gente-correio que entrega carta-bomba (e até gente-bomba tem, mas isso é assunto pra outra hora!). E salve-se quem puder! É abrir o envelope e BUM! Estilhaços se espalham por todos os lados. Aí a gentinha-correio levanta voo, vai embora, e a gente ainda fica um bom tempo tentando consertar os estragos da explosão. E depois de colar tantos caquinhos, percebemos o quanto nos tornamos mais plenos e completos. Então tudo o que resta é gratidão: pela carta-bomba, pela explosão, pelo duro exercício de juntar pedacinhos, pela gentinha que voa.

Há uns dez anos conheci um cara bacana, com quem saí algumas vezes pra conversar, tomar cerveja e dividir risadas. Mantivemos contato por uns dois meses talvez. Depois disso, nem amizade ficou pra contar história, porque o papel dele no script da minha vida era outro. A mensagem que me ficou foi clara: “Giselle, você usa muitos parênteses nos seus textos!” Nunca me esqueci desse comentário, que me ajuda muito até hoje quando começo a divagar linhas afora. Outro que conheci nos últimos tempos apareceu e desapareceu quase na mesma velocidade (tanto que nem me lembro do nome, nem de como surgiu!), mas deixou a mensagem: “releia o Livro do Desassossego”. Estou fazendo isso, aliás. E não por acaso esse trechinho cabe bem ao assunto: “Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais — se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.” - Livro do Desassossego, Fernando Pessoa [Ficou com vontade de mais? Baixe o livro inteirinho AQUI! Garanto que vale cada linha!].

Infelizmente, nem só de singelezas vivem as mensagens que a gente recebe. Eu já recebi carta-bomba também, com efeitos que beiraram o dramático. A explosão foi tão potente que primeiro fiquei sem chão, caindo em queda livre por uns bons dias. Quando meus pés finalmente tocaram a terra, percebi que eu estava sozinha num caminho totalmente diferente do anterior. E por maior que fosse meu desejo de voltar à estrada cômoda e bem conhecida de antes (cheia das tais almofadas fofas), eu precisava seguir por ali: pelos corredores escuros e assustadores de um novo caminhar. E assim foi. A cada dia a estrada desconhecida se tornava mais familiar, menos obscura, menos tortuosa. Até que as pedras viraram flores e as borboletas chegaram. Só então eu entendi que era lá, naquela estrada que me era estranha, que eu precisava estar pra poder recuperar minha plenitude de viver [sobre esse assunto eu já escrevi um pouco AQUI].

E também já tive que segurar a onda com gente-correio que foi embora enquanto meus braços doíam de vontade de impedir.

(Furando a mensagem que recebi sobre o uso dos parênteses, vou abrir um grandão aqui pra confessar que: SIM, eu também já entreguei carta-bomba e causei reviravoltas consideráveis na vida dos outros – inclusive de pessoas amadas e especiais. E SIM, eu também já fui embora e deixei braços e corações tristes para trás. E muitas vezes fui embora com braços e coração igualmente tristes, mas com a certeza de que precisava ir mesmo assim...)

O bom é que com o tempo a gente aprende. Aprende que cada pessoa tem seu próprio palco pra cuidar e que nem sempre os dois papéis continuam integrados depois da primeira temporada, por mais que a gente queira. Aprende a respeitar mais o momento do outro - que às vezes é tão diferente do nosso, que nenhum sentimento bonito será capaz de aproximá-los de um jeito alegre e saudável. Aprende a desejar o bem e a aceitar melhor os acontecimentos que não condizem com os nossos desejos imediatos. Aprende a apreciar o ir e vir – das gentes-correios, das mensagens recebidas e enviadas, das reconstruções pelas quais passam constantemente nossos caminhos e nossos corações ao longo das cenas do script. E nada torna o movimento de viver tão belo quanto o tramitar das mensagens de mudança. Porque, vez ou outra, elas nos incentivam a diminuir os parênteses, a cultivar flores num caminho escuro e a desassossegar apesar das almofadas e das meias quentinhas de um dia frio.


Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando....
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