Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando...

Que gosto você tem?

A melhor parte da vida é carregar essa certeza de que somos absolutamente ÚNICOS. Somos essa mistura incrível de saberes e sabores. Somos um mapa de pirata que esconde um baú de moedas de ouro – e não dá pra saber se a melhor parte é encontrar as tais moedas ou se entregar às trilhas tortuosas e interessantíssimas que conduzem até elas... Mas para poder se aventurar nesse mundo fantástico é preciso coragem pra botar a mão na massa. E aí? Alguém a fim de adentrar essa instigante cozinha secreta?!


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Eu tenho aqui comigo que existe acima das nuvens uma grande cozinha celestial na qual são preparadas infinitas receitas únicas que, por sua vez, dão origem a cada ser humano que habita a Terra, com todas as suas doçuras e acidezes.

Deve ser uma cozinha lotada de fôrmas e prateleiras, com zilhões de potinhos de ingredientes etiquetados.

O grande barato é que saímos dessa imensa cozinha totalmente crus e passamos uns bons anos em processo de cozimento – cada um no tempo específico da sua receita individual. Depois que atingimos o ponto certo e somos desenformados, muitos de nós passam o resto dos dias tentando descobrir quais foram os ingredientes que os gnomos celestiais usaram na receita. Tem gente que é bom de autopaladar e descobre muito sobre seus temperos (é o que se convencionou chamar de “autoconhecimento”, já que autopaladar poderia gerar interpretações equivocadas).

Mas não é fácil desvendar os mistérios da nossa própria receita. Ao invés de investir nisso, normalmente a gente usa o tempo pra rotular os ingredientes da receita dos outros. E fazemos isso com uma facilidade incrível, como se fôssemos os próprios cozinheiros celestiais. Ao longo da vida, mesmo sem perceber, a gente cria monstruosos volumes ao melhor estilo “Dona Benta” e escreve lá, com canetas de crueldade, a receita de todo mundo - como se fossem certeiras e definitivas. A empregada, o cabeleireiro, o funcionário público, o empresário, o professor, o preto, o branco, o amarelo, o morador de rua, o amigo, o inimigo, a família, o político, o padre... e daí por diante. Nossa capacidade de catalogar é inacreditavelmente extensa e variada! O mais hilário é que ficamos tão vidrados em anotar as receitas alheias que nem percebemos que essa simples (simples?) tendência já indica alguns dos nossos próprios ingredientes. Mas quem disse que estamos interessados nisso, não é mesmo?

Difícil a gente se desligar do mundo de fora, tão cheio de atrativos e distrações, e olhar pro mundo de dentro. Já questionou o querido Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas: “o que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos?” (João Guimarães Rosa).

Sabemos que não é fácil reunir disposição pra vasculhar os sabores que trazemos lá no fundo do nosso recheio, bem atrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos – alguns sabores escancaradamente doces, mas outros bem amargos e difíceis de digerir... No começo a gente assusta. Derruba a lupa, sai correndo, sente medo, frio na espinha. Mas depois de um tempo vamos nos acostumando com a textura e com os sabores da nossa própria receita; e é assim que descobrimos o quanto é bonito ser um cupcake único na imensa padaria do mundo. Ou uma coxinha amanhecida, uma pizza meio tostada, um pudim cheio de furinhos que ficou meio torto. O importante é descobrir que essa mistura de sabores e saberes é incrivelmente linda e que a imperfeição deixa tudo mais gostoso e interessante.

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Quem nunca comparou a foto de uma comida estampada na revista com a comida em si? A perfeição da foto nada tem a ver com a guloseima. Porque a guloseima é real, está cheia da imperfeição e da delícia de estar nesse mundo!

Aceitar com benevolência os sabores que nos temperam – os doces e os amargos- facilita muito a vida, porque agrega muito mais sabedoria e segurança às nossas escolhas (e estamos metidos em escolhas o tempo i-n-t-e-i-r-i-n-h-o!).

Dificilmente vamos conhecer todos os nossos ingredientes. Porque os gnomos celestiais, como bons Chefs que são, têm lá seus segredinhos culinários. Além disso, a alquimia da vida de vez em quando transforma os temperinhos originais em sabores novos... Não é incrível? A grande aventura é experimentar! É começar a compor uma listinha, por singela que seja. É conseguir acrescentar um ingrediente lá vez ou outra. É perceber que a mistura toda que trazemos é rica e admirável e estar em contato com ela é – literalmente! – a cereja do bolo!

A minha listinha, por exemplo, começa assim:

  • - 03 doses generosas de bom humor açucarado
  • - 03 doses igualmente generosas de impaciência malagueta
  • - 01 copo americano bem cheio de otimismo condensado
  • - 02 copos americanos igualmente cheios de teimosia com limão
  • - 01 xícara de chá de desapego em neve
  • - 01 xícara de chá de egoísmo curtido em óleo de rícino (éca!)
  • - 02 taças de ânsia por liberdade espumante
  • - 01 porção de farinha de preguiça granulada
  • - 01 baciada de coragem em pó
  • - 02 litros de autenticidade sabor chocolate com pimenta
  • - 04 colheres de sopa de irritabilidade com som de alarme de incêndio
  • - 02 latas de racionalidade batida com instinto de autodefesa (que muitas vezes só atrapalha) - para 01 de emotividade, normalmente... =(
  • - 01 pacote generoso de individualidade misturada com orgulho besta
  • - 01 punhado de alegria de viver produzida com grãos de simplicidade
  • - etc etc etc..

Acessar nossa receita é um caminho fantástico! Por ele podemos colocar nossos enormes chapéus brancos e brincar de cozinheiros também. Podemos identificar os sabores não muito agradáveis e angariar esforços culinários para trocar, por exemplo, uma parte do óleo de rícino por açúcar. Temos todas as condições de manipular a receita que trazemos dentro de nós, se assim desejarmos realmente. Mesmo porque alguns sabores às vezes cansam. E mais que isso: são capazes de nos entristecer e até de afastar oportunidades (e pessoas) incríveis, que não conseguem sobreviver a ambientes amargos ou salgados demais.

Todo esse blá-blá-blá pra dizer que: desenvolver o autopaladar é um ato de coragem. Porque nem só de chocolate belga e nutella são feitas as pessoas. Às vezes a gente encontra por lá, tentando se camuflar no meio do leite condensado, umas gotinhas de veneno estricnina. E se tivermos coragem pra continuar a busca, podemos nos deparar até com a peixeira de baiano e com a bala de revórver. Mas não há motivo pra constrangimento: afinal, com um bom cavaquinho e um bom pandeiro, transformamos tudo isso num alegre e animado samba!

♪ ♫ E aí?! Quem vem pra roda? ♪ ♫


Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando....
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