Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando...

Uma história de (des)amor

Porque às vezes a gente só precisa de uma história de amor, de uma oração e de um belo samba na cara pra seguir adiante. Não necessariamente nessa mesma ordem.


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Ela tinha passado as últimas semanas em preto e branco. Lidou com situações duras. Brigas de família, morte do cachorro, perrengue no trabalho, assédio na rua, provas difíceis no MBA, chuveiro quebrado – que permaneceu quebrado por longos e gelados dias, por pura falta de tempo.

Ela tinha passado as últimas semanas em preto e branco. Três noites sem dormir acompanhando a tia no hospital, orçamento do mês comprometido pra ajudar o irmão num imprevisto, vários dias trocando o almoço por uma preciosa hora de estudo ou por uma ida ao banco.

Ela tinha passado as últimas semanas em preto e branco. Mas aos poucos, bem aos poucos, as coisas começavam a entrar nos eixos. E ela pôde – já era sem tempo! - pensar em se divertir naquela sexta à noite. Combinou com a amiga, vestiu a minissaia nova, o salto alto, a blusa com decote sensual. Soltou os cabelos, caprichou no batom vermelho.

Ela tinha passado as últimas semanas em preto e branco. Mas ninguém sabia disso, ninguém se interessava em saber. Ninguém precisa saber dos pretos e dos brancos da alma quando há o vermelho do batom para embasar os julgamentos, os pré-conceitos e a crueldade que habitam palavras e pensamentos já endurecidos pela cultura da desigualdade.

Ela tinha passado as últimas semanas em preto e branco, mas agora estava dançando coloridamente na pista. Era quase uma performance catártica para expurgar todos os pretos e brancos daquelas semanas duras. Depois de intermináveis dias de cansaço, problemas e pressão, lá estava ela: completamente embalada pela música alta e por aquela saudosa sensação de leveza; completamente aliviada depois de retirar tanto peso dos próprios ombros; completamente alheia aos julgamentos cruéis estampados nos olhares à sua volta.

E dentre esses olhares estava o dele. Ele queria apenas se divertir, queria apenas uma noite boa pra relaxar depois de um dia cansativo. E quem melhor poderia se encaixar às suas intenções? Sim, ela: a moça de batom vermelho, a moça da minissaia agarrada e do decote profundo; a moça que dançava loucamente para chamar a atenção e sinalizar o óbvio: ela também “tava querendo”.

Ele se aproximou, foi gentil, dançou com ela, elogiou o batom vermelho, mudou de assunto, mudou de novo, foi ganhando espaço, pagou uma bebida, foram pra uma mesa, o papo fluiu. Fluiu muito. Ele estava surpreso: uau, a moça de batom vermelho e de minissaia sabia conversar! Parecia inteligente! E ainda era engraçada! Ele estava confuso, muito confuso.

Saíram do bar. Foram pro motel. Foi uma noite incrível. Não apenas pelo sexo, eis o que mais o intrigava. Eles conversaram aquele tipo de conversa que faz perder a noção do tempo, riram aquele tipo de riso que faz saltar as rugas dos olhos, que faz a boca parecer pequena. Descobriram afinidades inesperadas. Descobriram até vestígios de preto e branco na alma um do outro, que agora já estavam coloridas pelo vermelho do batom. O dia chegou, mas a vontade de deixar a moça do decote sensual não. Era pra ser só uma noite. Não era pra existir vontade de encontrá-la de novo. Afinal, moças que dançam daquele jeito e que usam batom vermelho são pra uma noite só. Ele estava confuso, muito confuso.

Saíram do motel, mas a moça não saiu dos pensamentos dele. Frase clichê essa. Mas é que ele estava confuso, muito confuso.

Ele pediu pra se verem de novo. E de novo. E muitos de novos vieram. E de novo em novo, ele descobriu que ela também usava batom nude, também usava saias longas, também usava blusas sem decote, usava até camiseta de partido político pra dormir. Ela usava o que tinha vontade; e ele começou a gostar disso. Começou a gostar do batom vermelho, do roxo, do rosa, da boca sem batom; começou a gostar de todos os estilos da moça que tinha opinião própria e que ficava linda com qualquer roupa, porque tinha flores na alma, porque era dona de si, porque sabia brilhar sozinha – mesmo quando passava dias em preto e branco. E ele foi ficando menos confuso.

E foi assim que o moço caçador de moças de uma noite só se apaixonou pela moça do batom vermelho com quem transou no primeiro encontro. E a mulher de uma noite só passou a ser mulher de todas as suas noites, de todos os seus dias. A melhor parceira, a companheira que até então desconhecia.

Eles estão juntos, mas não sabem se serão felizes para sempre. Compartilham, porém, a certeza que mais importa: de que continuarão juntos enquanto a reciprocidade existir, enquanto os olhos de um brilharem para os olhos do outro.

Independentemente do desfecho disso tudo – se o para sempre vai ser pra sempre ou não -, eis uma história de amor que deu certo. Uma história de amor de sorte, que foi salva do grande abismo das histórias de amor que morrem sem a chance de acontecer, assassinadas pelo pré-conceito e pelas limitações socioculturais às quais – ainda! – nos deixamos amarrar. Histórias que morrem antes de acontecer por culpa dos rótulos que atribuímos às pessoas sem o menor questionamento ou sensibilidade. Histórias que morrem porque tomamos a aparência por essência e transformamos magicamente uma imagem momentânea na definição peremptória de uma vida.

  • Que saibamos abaixar nossas armas.
  • Que saibamos levar mais escadas ao abismo das histórias.
  • Que saibamos povoar de histórias profundas a superficialidade de tantas vidas.
  • Que saibamos levar mais amor ao abismo das pessoas.
  • Que saibamos construir mais abismos para os nossos preconceitos.
  • Que a vida esteja sempre disposta a compensar nosso desamor com um belo samba na cara. E que ela venha de minissaia, salto alto e batom vermelho, por favor.
  • Amém.

Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando....
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