Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando...

Sobre nossas paradas obrigatórias

Elas normalmente vêm antes das cardíacas.


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“Para percorrer os dias, os temperamentos um pouco nervosos, como era o meu, dispõem, como os automóveis, de 'velocidades' diferentes. Há dias acidentados e penosos que a gente leva um tempo infinito a transpor, e dias em declive que se deixam descer a toda velocidade cantando.” - Marcel Proust, No caminho de Swann.

Aprendemos desde cedo que a vida não para, que é preciso vestir armaduras e seguir em frente sem titubear, que o mundo não diminui o ritmo só porque o coração se quebrou, só porque a cabeça está cheia demais, só porque o corpo quer sucumbir ao peso do cansaço físico e emocional.

E aí, de insistência em insistência, a armadura vai ficando mais pesada... E em algum momento a gente finalmente percebe que parar é preciso; que parar é questão de vida ou morte; que parar, muitas vezes, é mais importante que continuar.

Em algum momento a exaustão começa a vazar pelas frestas da armadura. Mudar o passo vira um movimento hercúleo. O caos está armado: a alma extravasa tristeza de um lado, o coração se espreme de outro, o corpo chega ao limite da doença física. E só assim – forçados e com medo - é que finalmente paramos.

O PARAR tem múltiplos formatos. Depende bastante da essência da sobrecarga com a qual estamos lidando. Férias costumam ser um plano de contingência que funciona bem para quase todas as modalidades, mas nem sempre estão ao alcance quando a sirene vermelha começa a soar loucamente. Quando o distanciamento físico não é possível, é preciso investir mais pesado na blindagem emocional.

O importante é aquietar-se. É fechar as janelas enquanto a chuva cai, ácida e devastadora, do lado de fora. É respirar sem pressa, é abandonar todas as marcações dos “tenho que”. É relembrar como é bom estar consigo, ainda quando se está aos pedaços. Afinal de contas, tudo o que temos em momentos assim é tempo (e tempo amigo!) para fazer as colagens mais criativas, para tirar do armário aquela incrível paleta de cores e ousar nas combinações. É tempo de vestir o avental de Luthier e lapidar a alma com carinho e calma (e não é que é verdade que a CALMA tem uma alma embutida?), sem atropelos, lembrando que é a qualidade dela que vai definir o nível do som que emanaremos ao Universo depois.

Ainda que a rotina e os deveres da vida mundana nos impulsione a seguir pela materialidade do mundo, abandonar a armadura e construir um jardim de paz do lado de dentro depende única e exclusivamente de cada aprendiz de jardineiro. Não é simples. É preciso desenvolver habilidade com a terra do (auto)perdão, sensibilidade para cultivar as flores da gentileza, harmonia para organizar os canteiros da tranquilidade e muita, muita paciência para não esmagar o próprio jardim em construção com as máquinas pesadas do egoísmo, do descontrole e da carência. Sementes de amor (dentre as quais a do amor-próprio) regadas com tempo dão flores lindas. Dessas que perfumam a alma, colorem o mundo e atraem borboletas – inclusive no estômago.


Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando....
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