Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando...

Quando o amor diz NÃO

Não é porque existe amor que vai ter, necessariamente, final feliz.
E não é porque não tem final feliz que vai ser, necessariamente, a pior coisa da sua vida.


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À primeira vista pode parecer contraditório. Mas acontece de vez em quando (ou quiçá com mais frequência do que julga nossa vã filosofia): alguns amores simplesmente não conseguem superar as diferenças e as tantas outras barreiras que aceitamos – ou criamos – nesse mundo lotado de máscaras, egos machucados e fardos que pesam mais do que deveriam.

A matéria de que somos constituídos nem sempre encontra lugar para se acomodar na vida do outro, por mais que exista amor. A vida do outro é estruturada por prioridades, valores e urgências que não necessariamente incluem as nossas prioridades, os nossos valores e as nossas urgências.

Mas as diferenças podem ser equacionadas, certo? Sim, é possível; mas não é simples. O caminho do equilíbrio exige pelo menos dois ingredientes básicos: maturidade emocional e muita disposição (digo, muuuuuuuuuita disposição). A ideia de “cada um andar metade do caminho” é linda, mas em grande medida, utópica. Porque pressupõe que ambos estão igualmente dispostos, e, mais que isso, que ambos têm a mesma percepção do caminho e do abismo que existe no meio dele. Construir pontes, sabemos, não é simples. Até os engenheiros bem sucedidos falham vez ou outra...

O que acontece é que as relações raramente são niveladas. Normalmente um dos lados está mais envolvido, mais disposto. E é esse lado que vai se empenhar mais na construção da ponte. É esse lado que vai vestir o capacete primeiro, se encher de vigor e partir pra ação; vai investir mais tempo, mais paciência, mais expectativas. E aí, com todo esse cuidado tão presente e tão garantido, o outro lado - que talvez ainda nem tenha encontrado o capacete - acaba se acomodando. Pode parecer injusto, mas é uma reação natural, que também tem muito a ver com a personalidade de cada um. Aquele que está tentando construir a ponte também tem seus ganhos, apesar da sobrecarga de trabalho que poderá arrebatá-lo em algum momento.

[sobre isso vale a pena ver alguns vídeos do psicanalista Flávio Gikovate, que aborda muito as relações entre “generosos e egoístas”]

O lado que insiste na construção via de regra é também o “compreensivo incondicional” da relação; pode ser ingenuidade, mas ele sempre acredita que é só uma questão de tempo, que em breve o outro vai perceber seu esforço, seu valor, e vai se juntar a ele na construção da ponte. Só que... isso pode não acontecer.

Depois de um tempo – normalmente longo - de insistência, vem o cansaço. Vem o peso de tanto investimento sem retorno, de tanta tristeza e frustração acumuladas, de tantas mágoas sufocadas, de tantas palavras não ouvidas e de tantos desejos respondidos com indiferença.

Tem muita gente que consegue relevar a assimetria de relações assim em nome do amor – porque sim, o amor ainda existe apesar de tudo. Ele não muda sua natureza, mas vai perdendo a força de combate, a esperança nos tão almejados dias melhores. A gente se dá conta, depois de muito bater cabeça, de que as pessoas não mudam; elas só podem entregar o que de fato possuem – e aí é “pegar ou largar”.

Continuar em relações assim normalmente envolve escolhas muito profundas, que vão além de apostar no amor, pura e simplesmente. Persistir significa aceitar que você vai ter de se anular muitas e muitas vezes; significa aceitar que você vai estar só muitas e muitas vezes; significa aceitar que você vai ter seu mundo incompreendido muitas e muitas vezes. Mas é uma escolha legítima, que muita gente faz com plena consciência e disposição.

Tem gente que, ao contrário, avalia investimento e retorno e acaba desistindo do amor. Dura escolha. Duríssima. Mas igualmente legítima, porque cada um precisa se responsabilizar pela medida da sua felicidade, precisa botar o pé no chão e ser honesto consigo mesmo, com seus sonhos, com seus desejos pra vida, pro futuro.

Os dias vão ter que continuar com o peso de um amor que tinha tudo pra ser, mas não foi. Os passos vão precisar seguir com o peso do desencontro e da ponte que não pôde ser construída. Não existe opção a não ser encarar. Vai doer pra burro, porque como já disse J. Campbell, “a dor do amor não é outra espécie de dor, é a dor da vida. Onde está sua dor está sua vida.”

Não sei quanto tempo leva pra superar, pra consolidar de verdade uma mudança de rota. Mas é preciso acreditar que a vida faz a parte dela se a gente fizer a nossa. Um passo por vez, um dia por vez, uma dor por vez, um avanço por vez. É, afinal de contas, uma oportunidade de reencontro, de ressignificação e de reestruturação. Quem disse que é só a alegria que constrói?

[Pra pensar um pouco no importantíssimo papel da tristeza nos nossos processos maturacionais, fica a dica da animação “Divertidamente”]

Independente das escolhas que a gente faz, independente se a gente fica pra sempre ou se parte, a oportunidade de conhecer um amor de verdade é grandiosa; viver um amor muda a existência, amplia a alma. E por isso todas as histórias de amor são dignas de gratidão – mesmo as que não têm finais felizes. Finais tristes não excluem a beleza transformadora do amor. Ainda quando precisamos desistir das histórias nas quais mais investimos, saímos sempre transformados. Saímos sempre ganhando. Saímos sempre mais preparados para, quem sabe um dia, resgatar o capacete do armário, espanar a poeira e nos arriscar na construção de novas pontes e de novas "metades de caminho" - que com sorte poderão ser de fato "metades de caminho"...


Giselle Castro

(En)Formada em Letras, apesar de ser avessa às fôrmas. Não é professora. Nem escritora. Nem muito certa dos pinos. É apenas uma admiradora de palavras que se mete à besta de rabiscar umas linhas em algum papel de pão por aí de vez em quando....
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