mate com adoçante

pensando alto aos trinta e poucos

Gabriela Fróes

Gabriela Fróes é professora de inglês e mestre em literaturas de língua inglesa. Nada disso faz diferença aqui, no entanto; aqui ela tem trinta e poucos anos, gosta de folk rock, de cerveja, de dias frios, de aprender diariamente com as pessoas ao redor. E de amor

Los Hermanos, a solidão urbana e a busca pelo uníssono

Como uma banda que enaltece o eu sozinho encontra um lugar no nosso momento que clama pelo coletivo?


Essa semana eu li um artigo do Paulo da Costa e Silva, que foi publicado na Piauí no ano passado, mas que voltou ao topo das linhas do tempo do Facebook (provavelmente por conta da turnê que estão fazendo neste momento) que fala sobre a geração Y e sobre como a banda Los Hermanos representa bem esse momento em que vivemos. É um texto interessante, que defende que a banda conseguiu captar bem essa angústia da "nossa" geração (um outro artigo, publicado no G1, caracteriza a geração Y como tendo entre 18 e 34 anos, o que me faz parte dela).

Imagem de http://s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2012/05/04/los_hermanos-620x300.jpg

Sempre gostei muito da banda (já fui a muitas dezenas de shows), em especial da primeira impressão que tive deles: a de que eram caras de excelente gosto musical unindo as paixões que tinham. O primeiro disco, que talvez não seja tão primoroso em termos de arranjo e complexidade musical, é o que mais me causa admiração: a ideia de pegar a batida das marchinhas de carnaval e misturar à bateria do punk rock é algo que, até onde eu sei, ninguém tinha feito antes. E são dois estilos que tem suas origens no popular, no "pelo povo, para o povo", ainda que em extremos: o carnaval sendo o movimento de alegria, de festa, de esquecer dos problemas, e também apreciado pelos mais velhos, seguindo uma linha de respeito pelo antigo; e o punk como movimento de destruição de valores, de ruptura, um movimento de crítica política e de deboche do sistema, e tendo a rebeldia e a juventude como referência. O velho e o moço?

Paulo também menciona a sensação de solidão coletivizada, um fenômeno que só é, segundo ele, experimentado por quem chegou à maturidade depois da virada do milênio, quando a globalização e as mudanças do sistema capitalista trouxeram essa sensação de descarte constante: o medo de ser trocado, seja no trabalho ou nas relações pessoais, na mesma velocidade em que são trocados os celulares, os laptops, as redes sociais; o medo de não encontrar nunca um lugar para chamar de "seu"; medo de não dar tempo de deixar uma marca no mundo.

O engraçado, fiquei pensando ao ler o artigo da Piauí, é que ambos os estilos que mencionei acima, e que permeiam, de uma forma ou outra, a obra dos meninos, são ritmos de estilos marcados pelo coletivo. Tanto as marchinhas como os hinos do punk são músicas simples, de poucos acordes, que foram cantadas e repetidas coletivamente, por pessoas com interesses comuns, fossem eles o escapismo ou a crítica social/política. Mas como pegar dois estilos coletivos, que pedem pela união, pelo encontrar de uma voz única que os represente, e transformá-los em um terceiro que enaltece o individual, a solidão do sujeito? E Paulo defende bem isso: as letras da banda enfatizam, quase sempre, um eu-lírico perdido, solitário: o bloco do "eu sozinho"; o "ser coroado rei de mim"; o "não solta da minha mão "; o cara estranho que "parece não achar lugar"; "ele vai viver sozinho, não aprendeu a dividir". São muitos exemplos, e a análise faz muito sentido: as letras retratam um sujeito pós-moderno, fragmentado, assustado, perdido, que cultiva um certo prazer na própria solidão: "e assim a gente não sai, que esse sofá tá bom demais".

E, ao deixar o verão pra mais tarde, a banda confirma que não tem, mesmo, uma obra agregadora: no show, os fãs dançam e cantam focados na banda, experiência diferente de outros shows a que fui recentemente, em que a música exalta sentimentos coletivos, de coletivização, e vemos estranhos se abraçando, dançando e cantando juntos. Os fãs dos Hermanos curtem, juntos, suas solidões individuais. Sentem-se compreendidos por terem quem diga o que eles, de casa, sentem. Bingo: o artigo pega no ponto certo. "Há um sentido maior de isolamento nas canções dos Hermanos. [...] O filtro subjetivo, individual, parece ser o único possível."

Concordo com muito disso, mas acabei o texto pensando: se Los Hermanos representam, de certa forma, a minha (nossa) geração, como explicar, nos últimos anos, mais e mais amigos meus passando do amor por eles ao ódio? Por que tantas pessoas que, assim como eu aos 20 anos, amavam a banda, hoje, aos 30 e poucos a acham um saco? Se eles são um retrato tão representativo, como explicar esse - atenção - descarte?

A primeira hipótese é simples: crescemos. Crescemos e queremos outras coisas, pensamos de outras formas, não mais nos sensibilizamos com o pé na bunda, a relação pai x filho, a traição, a ruptura com os sentimentos conservadores. A geração Y que antes ficava no sofá está agora no Happn, com um pé no poliamor, no que é descarado, na falta de preconceito. Los Hermanos não arca com isso. Não nega, mas não toca no assunto. Crescemos. Mas, por outro lado, continuamos ouvindo Ramones, continuamos achando que somos os filhos da revolução, continuamos esperando o carnaval. Então o que mais explica isso?

A segunda hipótese está nos jornais. Estamos vivendo um momento, apesar do sistema capitalista atual, apesar da tecnologia, da globalização, do descarte rápido (ou talvez em razão de tudo isso), em que de repente nos vemos precisando de uma voz única, de um sentimento coletivo que nos tire do sofá e nos leve às ruas para lutar pelo país que não temos. Não me lembro, desde a era Collor, de sentir isso tão marcado no cotidiano. As redes sociais estão inundadas de protestos; os gritos "Fora, Cunha" estão em todos os postes, nas pichações, nos posts, nos palcos (menos no dos Hermanos); o coletivo está sendo marcado para além da arte, para além do corpo. As fobias sendo combatidas, os preconceitos expostos, as corrupções desmascaradas. Queremos um Bloco de nós todos, um samba de caras estranhos que sabem o seu lugar, que sabem o que querem. De todas as cores, credos, orientações, tudo junto e misturado e se amando até o fim, porque o fim não pode chegar.

Precisamos de uma música que dê conta disso tudo, que fale por nós. Mas esse "nós" não é mais um bando de solitários. Queremos uma voz que nos represente e que represente o nosso desejo pelo coletivo. E o que eu senti indo a este último show foi um saudosismo, um prazer que vem do amor que tenho pela banda que um dia amei. Um relacionamento lindo, mas já estou em outra. Buscando quem caminhe comigo. Que saia do sofá imediatamente, e que queira fazer algo pelo mundo. Que use o mundo. Que dê conta dessa solidão urbana. Que pense no plural.


Gabriela Fróes

Gabriela Fróes é professora de inglês e mestre em literaturas de língua inglesa. Nada disso faz diferença aqui, no entanto; aqui ela tem trinta e poucos anos, gosta de folk rock, de cerveja, de dias frios, de aprender diariamente com as pessoas ao redor. E de amor.
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