mate com adoçante

pensando alto aos trinta e poucos

Gabriela Fróes

Gabriela Fróes é professora de inglês e mestre em literaturas de língua inglesa. Nada disso faz diferença aqui, no entanto; aqui ela tem trinta e poucos anos, gosta de folk rock, de cerveja, de dias frios, de aprender diariamente com as pessoas ao redor. E de amor

O amor deveria estar acima de tudo?

Não conseguimos dar chance pro que é palpável, porque o emocional diz que há de existir algo melhor, que aquilo não é intenso o suficiente. Mas o melhor não existe, ao que parece. E acabamos sempre insatisfeitas e frustradas. E frustrando as pessoas com quem nos relacionamos. E sozinhas.


morning-sun.jpg Edward Hopper, "morning sun", 1952

Recentemente recebi uma notícia devastadora, para as proporções do meu mundo: um dos meus melhores amigos, que já vinha sumido há algum tempo, me mandou a mensagem final: não me procure mais. Assim, uma linha. Uma amizade de anos que acabou com uma linha. Não houve nada entre nós que pudesse ter causado isso, apenas a nova namorada dele, com quem ele quer construir uma vida, tem ciúme de mim e da nossa relação -- que sempre foi de amizade. E ele escolheu a promessa de futuro com alguém.

Isso me fez pensar em algumas coisas.

A primeira é que depois dos trinta talvez as prioridades mudem para algumas pessoas. A máxima bros before hoes/sisters before misters talvez não valha quando você está apaixonado, ou acha que está, ou quer como meta ter um relacionamento que funcione a qualquer custo. E por conta disso as pessoas mudam, se tornam irreconhecíveis. Tudo acabou com uma linha: não me procure mais. No explanations, no real goodbyes. Se o que ele quer é isso, e a condição é me deixar no caminho, paciência.

A outra coisa em que pensei é que essa minha tristeza revela algo ainda mais profundo em mim, e que talvez seja algo compartilhado por muitas outras pessoas: talvez um certo medo de que eu não seja jamais capaz de fazer essa escolha. Eu não acho que uma pessoa que diz que te ama pode te privar de coisas que não são uma ameaça real ao relacionamento, e eu não aceitaria passar por isso, por amor nenhum.

E talvez essa seja a realização mais triste de todas, proporções tomadas: a de que eu simplesmente não me vejo mais como alguém capaz de me apaixonar o suficiente pra ter como prioridade a relação em si, acima de tudo.

O que é um dilema, uma dor e um medo constantes. Ninguém quer morrer sozinha e a gente sai de casa todos os dias esperando se apaixonar. A gente sente saudade dos highs and lows e da euforia e da sensação de que aquela pessoa é o ser mais incrível do universo e que sorte ser correspondida etc. Além disso, ao mesmo tempo temos enraizado um pensamento cultural de que é preciso um amor descomunal pra ser feliz com alguém, e que sem isso é melhor ser sozinha -- ou continuar procurando. Mas a ansiedade que isso gera faz com que nada pareça bom, ou certo, ou seguro, ou posível no longo prazo. De modo que acaba-se sozinha, esperando algo idealizado que jamais vai existir.

Não conseguimos dar chance pro que é palpável, porque o emocional diz que há de existir algo melhor, que aquilo não é intenso o suficiente. Mas o melhor não existe, ao que parece. E acabamos sempre insatisfeitas e frustradas. E frustrando as pessoas com quem nos relacionamos. E sozinhas.

O que me leva à pergunta final: como ajustar nossos desejos para a realidade possível? Acho que essa, pra mim, é a maior dor de todas. Ter trinta e poucos anos, ter dinheiro, ter idade, ter liberdade, ter maturidade, ter total poder sobre as próprias escolhas. E por conta de tudo isso desejar o impossível. Mesmo sabendo, racionalmente, que o impossível não será nunca realizado, realizável. E que, mesmo que fosse, não abriríamos mão dessas liberdades todas em nome do amor.

Não é fácil ter trinta e poucos anos.

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"Pois não é apenas a indolência que faz as relações humanas se repetirem de modo tão monótono e sem renovação de caso a caso: é a timidez diante de qualquer experiência nova, imprevista, para a qual não nos consideramos amadurecidos. Mas apenas quem está pronto para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com uma outra pessoa como algo vivo, e irá até o fundo de sua própria existência.

Pois, se pensarmos na existência do indivíduo como um cômodo de dimensões maiores ou menores, revela-se que a maioria de nós só chega a conhecer um canto de seu quarto, um local perto da janela, uma faixa na qual se anda para lá e para cá. Contudo, é muito mais humana do que essa segurança aquela incerteza, cheia de perigos, que leva os prisioneiros dos contos de poe a tatearem as formas de seus cárceres aterrorizantes e a não serem alheios aos horrores indizíveis de sua permanência ali.

E, no entanto, nós não somos prisioneiros. Não há armadilhas e emboscadas armadas em torno de nós, nada que nos devesse angustiar ou perturbar. Estamos lançados na vida como no elemento ao qual correspondemos melhor, além disso nos tornamos, por meio de uma adaptação de milhares de anos, tão semelhantes a essa vida que, por um mimetismo afortunado, se nos mantivermos quietos, quase não nos diferenciaremos daquilo que nos cerca. Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e confiável.

Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, de um desamparo que requer nossa ajuda."

(trecho da carta de rilke a franz kappus, agosto 1904)

Gabriela Fróes

Gabriela Fróes é professora de inglês e mestre em literaturas de língua inglesa. Nada disso faz diferença aqui, no entanto; aqui ela tem trinta e poucos anos, gosta de folk rock, de cerveja, de dias frios, de aprender diariamente com as pessoas ao redor. E de amor.
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