megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

A Arte como Memória

O cinema paga mais um merecido tributo às vítimas do Holocausto, dessa vez mostrando o processo movido por Maria Altmann para reaver uma das milhares obras de arte que o regime nazista pilhou pela Europa.


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A Dama Dourada [Woman in Gold]. Dirigido por Simon Curtis. Roteiro de Alexi Kaye Campbell. Com Helen Mirren, Ryan Reynolds, Daniel Brühl, Katie Holmes, Tatiana Maslany, Max Irons, Charles Dance, Antje Traue, Elizabeth McGovern, Jonathan Pryce, Frances Fisher, Moritz Bleibtreu, Tom Schilling, Allan Corduner e Henry Goodman.

A Dama Dourada é um dos vários filmes que tratam do genocídio judeu que ocorreu na Europa nos anos 30 e 40. Filmes como esse são necessários, não se deve esquecer nem por um minuto das atrocidades e barbáries que grupos humanos foram capazes de perpetrar uns aos outros. O Holocausto foi um dos maiores genocídios da história da humanidade, e isso não pode ser esquecido. Assim como o Holocausto cometido pelos nazistas, o genocídio que ocorreu em Ruanda em 1994, onde cerca de 800 mil ruandeses foram mortos, foi retratado no filme Hotel Ruanda de 2004, dirigido por Terry George. E o Holocausto armênio cometido pelo Império Turco-Otomano a partir de 1915 foi assunto do filme Ararat de 2002, dirigido por Atom Egoyan. Alguns longas ainda tangenciaram o apartheid ocorrido na África do Sul (Invictus (2009) e Procurando Sugar Man (2012)) e a questão palestina (Paradise Now (2005) e Cinco Câmeras Quebradas (2011)) e há ainda os temas que não foram abordados mas que merecem atenção, como a resistência do povo Sarahuí no norte da África.

Apresento essa introdução longa tratando (mas não esgotando) outros conflitos pois todos eles geraram (alguns ainda geram) genocídios no curso de sua existência. É papel do cinema como obra de arte fomentar a reflexão sobre tais assuntos, sobre todos eles. No entanto o Nazismo, graças ao emprego de meios de produção capitalistas nos campos de concentração, foi o mais horripilante e numeroso genocídio ocorrido na era moderna, com cerca de seis milhões de vítimas, e por isso é o mais frequentemente retratado.

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A Dama Dourada retrata Maria Altmann (Mirren) sobrevivente austríaca que conseguiu fugir para os Estados Unidos quando iniciaram os ataques dos nazistas contra os judeus, ciganos, deficiente físicos e mentais, poloneses, prisioneiros de guerra soviéticos, eslavos, afro-germanos, Testemunhas de Jeová, homossexuais e opositores do regime. É importante ressaltar esse ponto pois apesar de terem sido as maiores vítimas das atrocidades nazistas, os judeus não foram os únicos a quem o regime intencionava exterminar. Nos anos noventa, segundo o filme tentando apagar um pouco da sombria marca em sua história, o governo austríaco inicia um processo para devolver grande parte das obras que foram pilhadas pelos nazistas durante a ocupação. Com a morte de sua irmã, Maria recebe seu espólio por ser a única parente viva e descobre nele documentos que podem comprovar que o quadro Retrato de Adele Bloch-Bauer (chamado de Woman in Gold pelos nazista para ocultar a origem judaica da retratada), pintado por Gustav Klimt, pertence de fato à sua família. Com a ajuda do advogado também austro-americano Randy Schoenberg (Reynolds), Maria trava uma guerra jurídica contra o governo austríaco que se recusa em lhe devolver o quadro já que este se trata de um tesouro nacional austríaco, ou como classificado pelo jornalista Hubertus Czernin (Brühl), a Mona Lisa da Áustria.

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O filme então segue retratando três épocas. A infância de Maria, quando ela vivia na Áustria com sua irmã, seus pais, seu tio e sua tia Adele (Traue), a retratada no quadro. O período após o casamento de Maria, quando se inicia a barbárie perpetrada pelos nazistas. E os anos noventa, época em que se dá o julgamento. Quando da sua infância, a iluminação do filme é repleta de dourado, principalmente quando Adele esta em cena. Trata-se da época de ouro da menina, quando ela ainda chama a Áustria de "seu país" e o quadro ainda é de posse da sua família. É interessante notar como posteriormente no filme, Maria passa a se referir à Áustria e aos austríacos como um povo distinto, sempre na terceira pessoa do plural. O segundo momento tem uma paleta de cores dessaturada, é quando a jovem Maria (Maslany) e seu esposo Fritz (Irons) estão tentando fugir do país. E os dias atuais tem uma coloração mais naturalista. Nesse momento o mais marcante é o figurino dos personagens principais. No início, quando Randy está tentando conseguir emprego em uma renomada agência de advocacia, ele usa ternos claros e de duas peças, enquanto que seus potenciais empregadores usam ternos escuros. Maria também veste roupas claras e mais leves. A partir do momento em que eles vão se aprofundando em seu passado penoso e mesmo tendo vitórias ao longo do caminho, suas roupas passam a ser mais sóbrias e escuras. É importante ressaltar também a atuação da veterana Helen Mirren, ela adota um perfeito sotaque austríaco e apresenta nuances em sua postura que demonstram de forma sutil como todo aquele processo está afetando sua vida. Se no começo ela implicava com Randy por causa de bobagens e mesmo lhe ajeitava o paletó no meio de uma sessão na corte, posteriormente seus tratos com o advogado se tornam mais frios e seus modos se enrijecem, é flagrante o peso daquele julgamento nos ombros daquela mulher.

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Se o primeiro ato soa um pouco artificial graças a relação entre Maria e Randy que é construída às pressas pelo diretor Simon Curtis, o segundo ato inverte essa lógica e nos apresenta cenas realistas e intrigantes. A começar pela presença de pessoas que parecem ser verdadeiros sobreviventes do Holocausto. Quando visitam Viena juntos pela primeira vez para acompanhar o processo iniciado pelo governo austríaco, diversas pessoas que reclamam suas obras de arte, incluindo Maria, discursam perante os membros da comissão que analisará os casos. A forma como Curtis retrata essas pessoas nos dá a entender que se trata de verdadeiros sobreviventes, numa das cenas mais interessantes do filme. Outro fator que contribui para o sucesso do segundo ato é o brilhante design de produção que recria a Viena dos anos 30 e as primeiras manifestações extremistas dos nazistas. Em dado momento a forma como a jovem Maria e seu marido fogem da Áustria é a parte mais interessante do filme. Somada a isso está a carga dramática do julgamento que se intensifica e se torna cada vez mais tenso, inclusive pela presença do jornalista Czernin que auxilia Randy e Maria e mantem suas intenções como uma incógnita durante todo o filme. Fato justificado por que se ele revelasse suas intenções antes de provar sua lealdade talvez fosse preterido pela dupla.

No entanto o terceiro ato volta a conter elementos que fazem o filme ter uma queda qualitativa em seu roteiro. Assim como Czernin, parece que o filme primeiro precisa provar sua compaixão para com as vítimas do Holocausto para depois apresentar suas reais intenções, que é propagandear o estilo de vida americano capitalista e a vitória de sua democracia frente ao autoritarismo. Retratando mais uma vez que se tratam do maior país do mundo, da terra das oportunidades, se esquecendo no entanto que foi no Sul escravista composto pelos estados confederados, que entre os séculos XVII e o XIX se instaurou o terceiro maior regime discriminatório do planeta, ficando atrás apenas do apartheid sul-africano e do próprio nazismo.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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