megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

A Cidade como Personagem

Las Insoladas, novo filme do cineasta argentino Gustavo Taretto, diretor de Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual, volta um pouco no tempo. Estamos em 1995, seis mulheres planejam passar as férias de fim de ano em Cuba. Dos planejamentos e discussões que sucedem fica evidente na tela a dinâmica de uma geração marcada por um turbulento momento político e econômico.


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Las Insoladas [Idem]. Dirigido por Gustavo Taretto. Roteiro de Gabriela García Rivas e Gustavo Taretto. Com Marina Bellati, Elisa Carricajo, Luisana Lopilato, Carla Peterson, Violeta Urtizberea e Maricel Álvarez.

Qual a influência que a cidade (e quando eu digo “cidade” eu me refiro ao espaço físico, arquitetura e até clima) pode exercer sobre seus moradores? Para Gustavo Taretto essa influência é enorme. Tanto seu primeiro filme, Medianeras, quanto seu mais recente, Las Insoladas, conferem à cidade, mais precisamente Buenos Aires, um papel importante na condução dos seus indivíduos e também é reflexo deles, estabelecendo uma troca que pode gerar, por vezes uma apatia, em outros momentos a descoberta de novos sentidos escondidos em parques, ruelas, paredes e topos de prédios.

Las Insoladas se resume praticamente ao topo de um prédio onde seis amigas se reúnem para se bronzear antes de participarem de um concurso de salsa. Durante os 102 minutos de projeção elas falam sobre amor, sexo, trabalho, problemas e neuroses, brigam e se divertem, tomam banho de piscina e muito banho de sol e ainda acham tempo para planejar uma viagem para Cuba dentro de um ano a partir daquele dia.

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Enquanto ouvimos Here Comes The Sun ao estilo de salsa, acompanhamos do topo do prédio o amanhecer na cidade de Buenos Aires em time lapse. Em seguida várias imagens cotidianas da cidade. O filme se passa durante o dia 30 de dezembro de 1995, e durante a projeção somos informados sobre a temperatura e o horário em determinados momentos. Naquele dia a temperatura ambiente passa da casa dos 40˚C.

Em uma das primeiras conversas, Karina (Carricajo) sugere à Valeria (Bellati) que talvez a cromoterapia possa auxiliar no tratamento de sua insônia, ela então, com a ajuda de um folheto, começa a explicar o método e a função de cada uma das cores no tratamento. Ao fim da explicação, ao observarem em volta percebem que não há amarelo em nenhum dos objetos que às circundam, cor importante na cromoterapia. Logo em seguida chega Flor (Peterson), vestida de Mamãe Noel e segurando uma cadeira de praia amarela. Trata-se do elemento faltante para que a história se desenrole, e agora ele está lá. É Flor quem mais se anima com a viagem à Cuba, quem de certa forma avança com a trama e quem parece oferecer o cimento necessário na construção das relações de personalidades tão diferentes ali reunidas.

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Seguindo a lógica cromática, cada personagem tem uma cor específica retratada nas roupas de banho por elas vestidas e nas toalhas onde se deitam para tomar sol. Antes de Flor chegar, cada uma deitava em uma toalha de uma cor específica, a partir do momento em que o tempo passa e a ideia de viajar amadurece, problemas pessoais vão surgindo, fazendo pulular os ânimos. Com isso as cores começam a se misturar, mais toalhas de mais cores surgem e o sol intenso faz com que as elas brilhem na tela.

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A estrutura do terraço e a vista dos prédios no entorno também refletem os conflitos. Quando elas tomam a decisão de juntar dinheiro para viajar, por exemplo, sobem para um nível mais alto do terraço, onde podem ver mais longe. Quando precisam pensar friamente sobre os gastos da aventura, se abrigam do sol em uma reentrância do local. A imagem dos prédios e avenidas em volta é sempre caótica. Quando seu filme Medianeras estava em cartaz no Brasil, a Reserva Cultural preparou uma sessão especial com a presença do diretor. Durante as perguntas ao fim da sessão, Taretto disse que não concordava quando diziam que Buenos Aires era um pedaço da Europa na América do Sul, pois a arquitetura portenha era caótica e irregular, assim como São Paulo ou Santiago, e nem um pouco lembrava os prédios regulares e longos que figuram em Paris, por exemplo. Esse caos da paisagem de Buenos Aires é o plano de fundo para a discussão daquelas personagem e a cereja urbana no bolo imagético são os aviões que vez ou outra cortam o céu argentino.

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Entre as medidas adotadas pelo presidente Carlos Menem para tentar conter a crise econômica dos anos 80, estava o atrelamento do peso argentino ao dólar. Isso gerou uma desvalorização da moeda pois a condição econômica da Argentina não comportava tal medida. Esse fato, que não é explicado no filme, faz com que a viagem para Cuba seja quase impossível, pois as meninas deveriam juntar mais de mil dólares cada uma no período de um ano, algo dificílimo na época. Taretto faz aí um crítica ao sistema que impôs tal condição, pois se as medidas de Menem foram liberais, as meninas e principalmente Flor, anseiam por morar em Cuba, antítese do pacote econômico adotada pela Argentina. No entanto a visão delas a respeito do socialismo cubano é romantizada, Cuba é vista como um paraíso na Terra onde elas, se levassem dinheiro suficiente, não precisariam trabalhar e ainda teriam dias intermináveis de sol. O romantismo em relação à vida em Cuba fica de fato explícito na frase de uma delas, que diz “o calor é comunista, o frio é capitalista”.

O filme de Taretto, apesar de algumas inconsistências do roteiro que podem ser justificadas na dificuldade de sustentar um longa de uma hora e quarenta minutos com apenas seis atrizes em um único cenário, traça um retrato interessante da vida das jovens em um país latino nos anos 90. Época que ainda representava um período de novidade política graças ao fim, nos anos 70 e 80 das ditaduras que ocorreram no continente, mas que também é marcada por graves crises econômicas internacionais. Criando assim um jogo de sensações e propondo se o correto seria imaginar a existência de esperança apesar das adversidades ou a existência insistente de adversidades em um momento de esperança.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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