megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

A Garrafa Verde

A história do sequestro de Freddy Heineken vira filme pela segunda vez. No entanto, o sacrífico da fidelidade aos fatos não se traduz em ganho dramático e o filme peca por não ser nem uma boa ficção e nem uma boa aula de história.


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Jogada de Mestre [Kidnapping Mr. Heineken]. Dirigido por Daniel Alfredson. Roteiro de William Brookfield. Com Jim Sturgess, Sam Worthington, Ryan Kwanten, Anthony Hopkins, Mark van Euwen, Thomas Cocquerel, Jemima West, David Dencik, Vera Van Dooren, Kat Lindsay, Roy McCrerey, Vince Canlas, Natalie Mejer, Eric Godon e Billy Slaughter.

Como um bom apreciador da cerveja Heineken, ao assistir ao filme de Daniel Alfredson eu esperava que o longa mergulhasse um pouco mais na história, se não da marca, ao menos do neto do fundador dela. Freddy Heineken (Hopkins) é retratado como um manipulador que beira a psicopatia em alguns momentos, mostrando-se excessivamente calmo quando deveria aparentar ao menos alguma nuance de medo diante de seus sequestradores.

Os sequestradores em questão são um grupo de amigos formados por Cor (Sturgees), Willem (Worthington), Cat (Kwanten), Spikes (van Euwen) e Brakes (Cocquerel) que no final de 1981 tentam conseguir um empréstimo junto a um banco para manterem em atividade a empresa que criaram. Diante de uma negativa devido à falta de garantias, eles se veem obrigados a fechar a empresa. No dia do ano novo de 1982, durante um passeio de barco pelos canais de Amsterdam, tradição de ano novo entre os amigos, eles decidem sequestrar o neto do fundador da Heineken para que possam conseguir dinheiro, já que trabalhar em um emprego assalariado é algo fora de cogitação para Cor, que aos poucos assume a liderança do grupo.

Os rapazes então dão início ao plano para sequestrar Heineken, e todo o primeiro ato do filme é permeado por câmeras irrequietas que transmitem toda a agitação sentida por eles. Apesar de terem como objetivo aparentarem profissionalismo, de forma que a culpa recaia sobre um dos vários grupos armados existentes na época (como o Baader-Meinhof ou o Brigada Vermelha), o grupo é iniciante no mundo do crime, e após cada ação é notório o efeito da adrenalina sentida por eles. Nesse primeiro ato eles efetuam um assalto a banco para conseguir fundos para o sequestro, constroem o cativeiro onde Freddy Heineken será prisioneiro e por fim capturam o empresário e seu motorista.

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O cativeiro é todo permeado por paredes almofadadas amarelas. Elas são assim por serem a prova de som mas o efeito visual é mais profundo. Tais paredes ajudam na construção da personalidade excêntrica de Heineken. Se paredes almofadadas remetem a hospícios, o fato de serem de um amarelo escuro e opaco faz com que o ambiente soe ainda mais inóspito e com que a figura de Freddy, auxiliada pelos cabelos desgrenhados e pelos estranhos pijamas aparente ser obsessiva e perturbada.

As cenas iniciais do filme são telas divididas onde vemos Heineken conversar com os sequestradores, que nunca respondem verbalmente. Tais cenas são retomadas no segundo ato da projeção, no entanto as cenas iniciais prometem um jogo psicológico entre sequestrado e sequestradores que não se concretiza ao longo do filme. Há interação entre eles porém nunca na profundidade denotada no início, e a impressão é que o que talvez fosse a melhor parte do filme acaba por ser negligenciada pelo roteirista, William Brookfield, já que as cenas que seriam cruciais são escassas e de pouca carga dramática, e nem o fato de o pai de Willem ser um funcionário demitido das fábricas Heineken é algo explorado com a profundidade suficiente para tornar a relação interessante. Tal falta de profundidade gera uma falta de credulidade para algumas passagens. Em dado momento Willem, protegido por uma máscara que lhe deixa visível apenas os olhos e a boca, e Freddy trocam promessas. Ele promete não assassinar Heineken se este prometer não procurar a polícia após ser solto. Temos um sequestrador e um grande capitalista fazendo uma negociação baseada na “palavra de honra”. A única forma de esse diálogo soar crível seria se a relação entre os envolvidos no diálogo fosse construída de forma mais eficiente, o que nos faria acreditar em tais palavras. Porém elas soam artificiais e oriundas apenas de delírios dos sequestradores e da vontade de ser libertado do sequestrado.

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Além da construção frágil dessa relação, as atuações caricatas de Sturgess e Worthington comprometem a imersão no filme. Ambos os atores são ingleses e interpretam holandeses. Não haveria problema em tal inadequação geográfica se os atores não carregassem tanto em suas posturas britânicas para construírem as personagens. A todo momento há uma quebra da suspensão da crença que nos tira do filme pois vemos dois jovens ingleses dialogando quando deveríamos ver holandeses ou, se não holandeses, pelo menos personagens que nos soassem mais universais.

Por fim temos um outro elemento interessante que permeia toda a trama. Em vários momentos vemos personagens bebendo garrafas verdes de Heineken. O verde no cinema denota a iminência de um perigo ou um ambiente não seguro. A poção colocada na maçã em A Branca de Neve e os Sete Anões é verde, o castelo da Bruxa em o Mágico de Oz também é verde, estamos acostumados a associar o verde com a tentativa de um individuo causar algum mal a outro. E essa inclinação é bem pontuada pelas garrafas de Heineken espalhadas ao longo do projeção. Quando vemos Cor e Willem conversando sobre possíveis policiais à paisana que os observam em um bar eles bebem da garrafa verde. No entanto o que poderia ser uma excelente utilização da cor dentro do filme, já que se baseia em um elemento diegético importante, acaba por se tornar uma imprecisão histórica. Apesar de as garrafas verdes circularem o mundo desde os anos trinta, nos anos oitenta, época do filme, na Holanda as garrafas de Heineken ainda eram marrons. Algo que poderia ser visto como uma licença poética se os letreiros finais não anunciassem que Freddy Heineken morrera em 2003, quando o correto é 2002. Uma falha tão grande como essa faz com que duvidemos da intenção das demais imprecisões do filme, e assim soa apenas como mais um erro entre tantos outros praticados pelo longa.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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