megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

A Palavra de um Homem Comum

Homem Comum, filme vencedor do festival É Tudo Verdade 2014, aproxima a obra-prima de Carl Dreyer, A Palavra, de um caminhoneiro paranaense. O objetivo é refletir sobre o absurdo da vida ou o absurdo que seria não refletir sobre o absurdo da vida.


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Homem Comum. Escrito e dirigido por Carlos Nader. Com Nilson de Paula, Jane de Paula e Liciane de Paula.

A postura aparentemente desassisada da recusa do personagem de Preben Lerdoff Rye, Johannes, em A Palavra (1955) de Carl Dreyer, em aceitar a morte e não se intrigar com a vida deixou, nos anos 90, o diretor Carlos Nader obcecado. Tanto que após ganhar um edital para fazer um documentário, Nader deixa transbordar toda a influência que recebeu do longa de Dreyer e dessa forma nos entrega em Homem Comum uma obra que questiona a vida, ou o absurdo que é viver, ou mesmo ainda se viver é um absurdo. A delicadeza com que o diretor aborda o tema, aliado aos interessantes personagens fazem do filme de Nader uma obra sensível e bela.

O próprio Nader conta durante a projeção como a ideia do filme nasceu, inicialmente ele abordaria caminhoneiros em paradas nas estradas perguntando sobre seu destino, escolhido um, ele o acompanharia e começaria perguntando sobre amenidades, sobre como o dia está ensolarado, etc. Em dado momento, repentinamente ele faria perguntas profundas para o caminhoneiro, perguntaria por exemplo se ele já havia parado em frente ao espelho e se questionado sobre a sua existência, se ele achava que a vida era absurda ou se ele já tinha se questionado sobre o sentido da vida. Uma desses caminhoneiros que Nader aborda é Nilson de Paula, que se torna o protagonista do filme. O filme inicia com uma cena de uma luz, que parece ser do sol, entre nuvens escuras, em seguida um casal conversando sob a copa de uma árvore e logo depois vemos Nilson e sua filha Liciane conversando durante um piquenique. Só descobrimos mais tarde a origem da ideia do filme e por que o diretor decidiu acompanhar Nilson. A partir de então temos uma sucessão de imagens dos encontros de Nader com Nilson e sua família nos 90 e nos anos 2000, intercaladas por imagens do filme de Dreyer, imagens de uma recriação de A Palavra feita por Nader e outros planos aleatórios também gravados pelo diretor.

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Durante o piquenique, em dado momento o pai e a filha começam a se desentender, Nader interrompe com um tom cumplice a discussão e questiona se não seria melhor encerrar as gravações do dia. Percebemos ali que se trata da voz não apenas de um diretor mas de um amigo dos dois, que passa então a ser um personagem do filme. Durante toda a projeção ouvimos trechos de uma conversa entre Nader e Nilson (a quem ele se refere como “Nilsão”) sobre a realização da primeira parte do filme, que se deu no meio dos anos 90. O diálogo envolve muitas memórias dos dois sobre todo o processo de filmagem, e é através dessas conversas que descobrimos detalhes da relação entre Nader e a família de Paula, e as intenções do diretor com filme.

A transição que Nader faz entre os quatro universos imagéticos que ele usa é feita sempre de forma elegante, seja através da transição de uma mesma imagem do preto e branco para o colorido, ou vice versa, ou através de um som da imagem que virá que é sobreposto na imagem anterior e parece interagir com essa. Através dessa montagem percebemos que por mais que se tratem de diferentes filmes localizados em diferentes categorias cinematográficas e temporais, o assunto parece ser o mesmo. Essa parece ser a forma imagética com a qual Nader representa essa passagem de um questionamento ficcional do filme de Dreyer para o seu âmbito real, calcado no homem comum e na família comum acompanhada pelo filme.

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Tentar responder a questão sobre o absurdo da vida é constatado por Nader como uma forma de se proteger do medo de não compreende-la de fato. Observar uma família por tanto tempo pareceu ser a resposta encontrada pelo diretor. A resposta não viria de forma verbal, a partir de uma constatação de um homem comum, mas sim da observação desse homem comum, de sua reação perante os momentos de dor, de alegria, amores, doenças, etc. A câmera que para Nader é o meio para encontrar a resposta, em determinado momento em que Nilson solicita a presença do diretor como amigo mas também com a câmera, parece ser para o caminhoneiro a resposta em si. O fato de Nilson solicitar a presença da câmera é vista por Nader como um dos motivos de levar adiante o projeto que naquele momento parecia fracassado para o diretor. O filme só foi possível graças a esse fator que ofereceu uma nova perspectiva à pergunta perseguida por Nader.

O mais interessante no entanto, como nos explica a filosofia há séculos, é acompanhar não a resolução do problema em si, mas o caminho percorrido durante a resolução. O filme é rico ao constatarmos as interações sinceras não só dentro da família mas também com o diretor. O filme é belo ao retratar que o homem comum, no caso todos nós, carrega todos os elementos necessários para um existência plena, resta ao indivíduo, através da interação, refletir sobre tais questões.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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