megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

A Sempre Engraçada Comédia Francesa

Relacionamento à Francesa trata-se de um excelente filme para dar risadas e esquecer seus problemas enquanto o casal da trama tenta resolver os seus próprios.


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Relacionamento à Francesa [Papa ou Maman]. Dirigido por Martin Bourboulon. Roteiro de Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière. Com Laurent Lafitte, Marina Foïs, Alexandre Desrousseaux, Anna Lemarchand, Achille Potier, Judith El Zein, Michaël Abiteboul, Vanessa Guide, Michel Vuillermoz, Anne Le Ny, Ives Verhoeven, Yannick Choirat, Jean-Baptiste Fonck, Théoline Lanckriet e Mireille Franchino.

Há uma máxima que afirma que em um divórcio quem mais sofre são os filhos. Bourboulon leva essa máxima ao extremo. Se o dito se referia aos danos psicológicos e afetivos que as crianças poderiam sofrer com a dor de ter um dos progenitores não morando mais em sua casa, o diretor do longa francês transforma esse sofrimento em humilhações hilárias e por vezes até sofrimentos físicos.

Vincent (Lafitte) e Florence (Foïs) são um casal francês que após quinze anos de matrimônio decidem se separar. A decisão no entanto é bastante sóbria, eles percebem que se veem recentemente apenas como amigos e entendem que ao invés de optarem por uma vida morna em conjunto devem seguir cada um seu caminho. Apesar da decisão, eles protelam em contar a notícia aos três filhos, o que faz com que se mantenham morando na mesa casa e dormindo no mesmo quarto. Em questão de meses Vincent, que é obstetra, passará uma temporada no Haiti fazendo trabalho voluntário. Florence é engenheira e recebe uma promoção para chefiar uma obra na Dinamarca. Ela no entanto abre mão da promoção para que Vincent possa viajar, sendo que acreditam que o melhor para os filhos é ficar na França enquanto eles ainda estão estudando. Quando Florence vai ao hospital contar à Vincent da sua decisão, ela o flagra aos beijos com Marion (Guide), enfermeira do local. Apesar de Vincent tratar o fato com normalidade já que para ele a separação agora é uma mera questão burocrática, Florence se ressente do fato. Na cena seguinte ela desiste de abrir mão da promoção e cabe aos filhos agora escolher com quem eles querem ficar após o divórcio. Os pais então passam a sabotar os momentos com os filhos para que eles escolham o outro de modo a poderem concretizar suas viagens.

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A história é menos complicada do que aparenta ser, no entanto os roteiristas Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière se esgueiraram para não deixar nenhuma ponta solta e dessa forma cada ação tem um sentido dentro do filme. Um bom exemplo é a primeira cena, um longo falso plano-sequência (onde os cortes não são aparentes) filmado em meio a uma festa de fim de ano e repleto de toques nonsense. Em seguida o filme retoma uma certa normalidade para descambar novamente para o absurdo em seu segundo ato.

Os filhos são apresentados dentro de estereótipos, Mathias (Desrousseaux), o mais velho, é um típico adolescente que não aprecia a companhia dos pais e implica com os irmãos mais novos. Emma (Lemarchand) é uma pré-adolescente preocupada com o desenvolvimento do próprio corpo e que não consegue se desgrudar do celular. E Julien (Potier) é o caçula, um garoto prodígio que assume uma postura adulta e é responsável por algumas das cenas mais engraçadas do filme. No entanto, durante o longa, devido a infantilização de Vincent e Florence graças à “guerra” a qual se propõem a lutar, os filhos tendem a assumir uma postura mais adulta, até para contrastar com a imaturidade dos pais.

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Outro efeito visual que auxilia na construção dessa atmosfera peculiar é a câmera ágil e sempre agitada do fotógrafo Laurent Dailland. Assim como na primeira cena, em vários momentos a câmera acompanha Vincent no hospital e Florence em meio ao canteiro de obras. Sempre agitada, a câmera aponta para onde os atores olham e acompanha com movimentos a dinâmica dos diálogos. Em outros momentos o plano é bastante fechado, decifrando as nuances dos atores. Raramente, no entanto, ela é uma mera janela para nos mostrar o que ocorre. A câmera é expressiva, tenta escrever aquilo que vemos junto com as atuações e também com o design de produção. A casa onde reside a família é grande, no entanto amontoada de objetos e muitas vezes bagunçada. Todos esses elementos nos preparam para os absurdos que viriam a seguir, e quando eles surgem não estão deslocados na trama. Acreditamos neles e por isso rimos com as situações.

O filme parece se desafiar a todo momento sobre do que ele próprio é capaz, e a cada cena a equipe parece tentar testar um pouquinho mais os limites do que ainda é engraçado e o que já não faria mais sentido algum. No geral o filme é competente em retratar a fleuma francesa na administração de suas relações amorosas. No entanto, a partir do momento em que o filme descamba para o nonsense ele alterna diversos momentos hilários com outros cansativos. Trata-se de uma boa comédia com um romance interessante, sem no entanto chegar à excelência em nenhum dos dois gêneros.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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