megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

Não sabemos que horas, mas ela está pra voltar

"Vivemos uma época em que Jéssica pulou na piscina e dona Bárbara mandou tirar."
Anna Muylaert


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Que Horas Ela Volta? Escrito e Dirigido por Anna Muylaert. Com Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Helena Albergaria, Bete Dorgam, Luis Miranda, Theo Werneck, Luci Pereira, Anapaula Csernik, Hugo Villavicenzio, Roberto Camargo, Alex Huszar e Audrey Lima Lopes.

Se há uma imagem moderna da casa grande e da senzala ela se traduz na casa dos patrões e no quartinho da empregada. Por anos essa relação se instaurou e para amenizar a herança maldita do período escravista, clamou-se sempre que a empregada era alguém “da família”, tão importante quanto qualquer outro membro mas não o suficiente para dividir os cômodos da casa. Recentemente, principalmente com a aprovação do que ficou conhecida como a “PEC das empregadas domésticas”, essa relação ganha contornos mais reais. O que deve-se valorizar não é a relação afetiva, mas sim a relação de trabalho. Respeitar um indivíduo não é dizer que ele faz parte da família, mas sim oferecer salário justo, férias, FGTS, seguro desemprego, hora extra, respeitar a jornada de trabalho e trata-lo com dignidade. O filme de Muylaert, mais do que documentar de forma primorosa uma chaga da nossa sociedade ainda oferece material para essa e outras discussões.

O filme conta a história de Val (Casé), mulher nordestina que há treze anos foi para São Paulo trabalhar como empregada doméstica para sustentar a filha Jéssica (Márdila), que permaneceu no seu estado natal. Nesse interim ela pouco viu ou conversou com a menina, o que gerou um forte ressentimento na criança. Visando prestar a Fuvest, o vestibular para ingressar na USP, Jéssica liga para a mãe e pede para ficar em sua casa durante o período das provas. No entanto, a menina não sabe que a mãe mora no emprego. Politizada, Jéssica questiona a estrutura da casa dos patrões, gerando atritos com eles e com a própria mãe.

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No filme há vários conflitos instaurados mas o catalisador é a relação entre mãe e filho(a). Na primeira cena do filme vemos o jovem Fabinho (Lima Lopes) brincando com Val na beira da piscina, logo antes de surgir o título na tela o menino pergunta que horas sua mãe irá voltar. Essa relação que se dá na primeira infância parece ser crucial para estabelecer como os filhos vão lidar com os pais e os pais com os filhos no futuro (da primeira para a segunda sequência do filme há uma elipse de treze anos), a relação do Fabinho adolescente (Joelsas) acaba por ser mais estreita com Val do que com os próprios pais. Isso gera o segundo conflito, o de gerações. Se a geração de Val teve que sair do seu estado para trabalhar e sustentar a filha pequena, Jéssica migra para poder estudar. Essa diferença de objetivos, oriundos de uma condição social melhor nos dias atuais faz com que as gerações divirjam sobre suas prioridades e as formas de encarar coisas tão pontuais como estabilidade e segurança. Por se tratar de um filme protagonizada por mulheres, tanto na frente quanto atrás da câmeras, a questão do gênero também é um conflito discutido no filme, no entanto essa discussão é mais implícita do que explícita. Ela surge no fato de a administração da casa estar a cargo de dona Bárbara (Teles), está no fato de a protagonista ser uma mulher na casa dos cinquenta anos (algo impensado no cinema Hollywoodiano, por exemplo), no fato de Jéssica ser uma jovem migrante em busca de educação, e para atingir isso ela não lança mão do seu corpo ou da sua sexualidade mas da sua capacidade intelectual e da sua determinação em alcançar seu objetivo, e no fato de o filme ter uma diretora mulher. O último conflito reside na relação de trabalho que se estabelece na casa, que acaba sendo a mais tensa do filme. Tal tensão é muito bem trabalhada nas atuações do filme. Em um longa com Regina Casé é natural que ocorram cenas cômicas, Muylaert e Casé souberam dosar de forma precisa essas cenas com aquelas em que ocorrem claras manifestações preconceituosas. Dessa forma o filme é sério porém não é pesado e a atuação magistral que Casé nos entrega é a grande responsável por essa qualidade do filme.

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Muylaert é muito eficiente ao utilizar os recursos da linguagem cinematográfica para tratar dessa relação de trabalho. A câmera registra longos planos fixos de dentro da cozinha, onde vemos o patrão ao fundo pedir para que ela retire o prato, sirva refrigerante, sorvete ou água. A marcação de cena dos atores é precisa, eles não olham diretamente para a empregada doméstica, exceto em raros casos ou se for para repreende-la. A direção de arte do longa é eficiente ao retratar a discrepância do quarto espaçoso e arejado dos patrões e o quarto apertado e quente de Val, onde, no entanto, há um pequeno quadro na parede com uma estrada que segue para o ponto de fuga, ou a sala espaçosa e cheia de objetos e a cozinha apertada onde há uma mesa pequena. A montagem também é brilhante ao conseguir dar um ritmo bom para o filme mesmo sendo este composto por longos planos.

Apesar da opressão sofrida pelos patrões, é com eles que Val inconscientemente se alinha quando Jéssica questiona o sistema da casa. Ela repreende a menina por entrar na piscina, mesma que ela tenha sido jogada por Fabinho. Vestindo uma camiseta onde se lê “Vienna Austria” ela pede que a filha se levante da mesa pois empregados não devem sentar na mesa dos patrões, no que a menina responde que ela não é funcionária da casa. Todos esses conflitos são representativos de momentos e do amadurecimento das classes sociais brasileiras da base da pirâmide. O filme, nesse sentido, é um retrato do Brasil, e ainda que se baseie em uma relação de trabalho específica ele pode ser transbordado e gerar fomento para diversas discussões. A riqueza de conflitos é o que faz o filme de Muylaert tão especial e amplo, ainda que não gerando as respostas esperadas (a diretora, em bate-papo após sessão no Caixa Belas Artes, disse que o ator Kauã Raymond declarou que após ver o filme havia dado aumento de salário para sua empregada doméstica), mas pelo menos gerando a reflexão necessária para se discutir um tema tão negligenciado pela sociedade brasileira.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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