megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

O Cinema Vai ao Cinema

Um Amor a Cada Esquina, novo filme de Peter Bogdanovich, tenta nos fazer acreditar que vale mais a pena sair para tomar um último drinque do que ir direto para a cama. E com um pouco de boa vontade é possível crer nele.


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Um Amor a Cada Esquina [She’s Funny That Way]. Dirigido por Peter Bogdanovich. Escrito por Peter Bogdanovich e Louise Stratten. Com Imogen Poots, Illeana Douglas, Graydon Carter, Owen Wilson, Scott Campbell, Erin Heatherton, Melanie Hill, Jake Hoffman, Rhys Ifans, Richard Lewis, Cybill Shepherd, Debi Mazar, Austin Pendleton, George Morfogen e Tovah Feldshuh, Jennifer Aniston, Will Forte, Ahna O’Reilly, Kathryn Hahn, Jake Lucas, Sydney Lucas, Nora Jobling e Lucy Punch.

Algumas pessoas gostam de dividir o mundo em dois (ou mais) tipos diferentes de indivíduos. Há até uma anedota que diz que o mundo é dividido entre dois tipos de pessoas, aquelas que dividem o mundo entre dois tipos de pessoas e aquelas que não dividem. O novo filme de Peter Bogdanovich parece, de cara, tentar fazer essa distinção, nesse caso, ele divide entre as pessoas que acreditam que há uma certa magia na vida e por isso são crédulas e sempre preferem sair pra tomar um drinque ao invés de ir pra cama, e aquelas que não acreditam em tal magia e por isso escolhem ir para a cama ao invés de dar vazão à tal credulidade.

Isabella Patterson (Poots em atuação magistral) faz parte do primeiro grupo, enquanto Judy (Douglas), a jornalista que a entrevista, faz parte do segundo grupo. Patterson é uma atriz em ascensão que em um momento de extrema franqueza se abre com Judy em uma conversa aparentemente informal em um bar em Nova Iorque. Ela conta como há quatro anos recebeu de Arnold (Wilson) a oportunidade que mudaria sua vida e deixou de ser garota de programa para se tornar atriz. Bogdanovich constrói uma comédia de situações, basicamente o que ele faz durante a projeção é juntar os personagens errados nos lugares errados e na hora errada, e através de um texto ácido e certeiro extrai eficientemente cenas engraçadas e algumas vezes até profundas dessas situações.

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E nesse ponto é importante atentar para duas atuações que são essenciais para tal efeito. Primeiro, como já havia citado, a atuação de Imogen Poots, jovem atriz britânica que vive uma nova-iorquina do Brooklin. Além de seu timming certeiro, é crucial notar a inflexão de sua voz que emula brilhantemente não só o sotaque americano mas a forma de falar do bairro de Nova Iorque (se há dúvidas basta assistir ao Jogada Decisiva (1998) de Spike Lee para comparar e perceber como o falar da atriz soa natural). E é importante ressaltar que quem optar por assistir ao filme dublado irá perder esse precioso detalhe da composição de Poots.

A outra atuação marcante do longa cabe à Jennifer Aniston, que faz o papel de Jane, cuja mãe é uma psiquiatra alcoólatra que quando decide se internar para tratar da doença, relega à filha os pacientes. Jennifer é uma psiquiatra impaciente que acaba por dizer aos pacientes tudo aquilo que os leigos que não entendem os problemas pelos quais as pessoas com problemas psicológicos passam, gostariam de dizer mas não se sentem a vontade para tal. Longe de achar que Jane esta certa em sua postura, mas a sua sinceridade extrema é a origem das melhores risadas do longa.

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Bogdanovich paga tributo ao cinema de gênero hollywoodiano com esse filme, relembrando a todo momento longas de Cary Grant, Audrey Hepburn e por fim Ernst Lubitsch. Ele utiliza a metalinguagem para florear ainda mais eventos que permeiam o imaginário popular dos cinéfilos e que poderiam de fato ter acontecido com as estrelas do cinema, trata-se dessa magia que a personagem de Poots tanto acredita. Nesse ponto o filme de Bogdanovich se assemelha muito ao Magia ao Luar (2014), de Woody Allen.

A razão de aspecto do filme é reduzida (1.66:1) o que aproxima os personagens em cena. Esse fato aliado aos constantes travellings em direção aos atores dão um tom ainda mais confessional e íntimo ao filme. Trata-se de um texto divertido e fluido que experimenta seus personagens e pouco se importa com a verdade dos fatos, afinal, o filme é contado por Isabella, trata-se de sua verdade. Tanto que em dado momento Jane a interrompe podendo jurar que algumas de suas falas são puras invenções, escancarando a ingenuidade da moça. No entanto é esse o fator primordial para que a comédia dê certo. Cabe também ao espectador deixar-se acreditar na magia daquelas cenas praticamente impossíveis para melhor fruir o longa.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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