megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

O Clube dos Pecadores

"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"
Groucho Marx


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O Clube [El Club]. Dirigido por Pablo Larraín. Roteiro de Guillermo Calderón, Pablo Larraín e Daniel Villalobos. Com Roberto Farías, Antonia Zegers, Alfredo Castro, Alejandro Goic, Alejandro Sieveking, Jaime Vadell, Marcelo Alonso e José Soza.

A Igreja Católica vive tempos de crise, tanto que um evento raríssimo ocorreu recentemente em sua história, a renúncia de um Papa. Joseph Ratzinger renunciou o título de Papa Bento XVI no início de 2013 alegando que estava sem forças para prosseguir com o papado. A partir da postura progressista e conciliadora adotada por seu sucessor, Jorge Bergoglio, o argentino que assumiu a alcunha de Papa Francisco após a entronização, percebemos que se a renúncia do Papa alemão de fato tenha sido motivada por sua avançada idade, ela foi conveniente para a Igreja Católica, que viu no Papa argentino uma figura muito mais popular, condição que definitivamente auxilia na recuperação da imagem já tão desgastada da Igreja. Um dos motivos desse desgaste são as já não tão recentes descobertas de escândalos envolvendo abuso de menores por padres católicos ao redor do mundo e a postura tomada pela Igreja em relação à esses padres.

O filme de Larraín mostra uma casa que serve de retiro, localizada em La Boca no norte do Chile, onde padres que cometeram “erros” são enviados para expiarem seus pecados. Nessa casa em específico vivem a irmã Mónica (Zegers) que cuida das tarefas burocráticas e atua como uma espécie de carcereira do local e quatro padres que aos poucos vão revelando o motivo de habitarem naquele lugar. Em dado momento o padre Lazcano (Soza) é enviado para a residência, após sua chegada um indivíduo que mais tarde descobrimos se chamar Sandokan (Farías) vai ao portão da casa e acusa o padre recém chegado de ser o autor dos abusos sexuais que sofreu durante a infância. Munido com uma arma dada pelo padre Silva (Vadell) para que ele assuste o inconveniente rapaz, Lazcano comete suicídio. Para entender os motivos do suicídio do clérigo, o padre García (Alonso) é enviado à residência para colher o depoimento dos moradores.

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Os padres da casa não podem ter contato com dinheiro ou outras pessoas da cidade, por isso passam os dias treinando Rayo, o cachorro que eles acolheram, para que este vença as corridas disputadas pelos animais dos criadores da pequena cidade. Fora essa pequena atividade lúdica os padres seguem uma rígida rotina que envolve orações, cânticos e apenas quatro horas diárias para assuntos pessoais. A cidade de La Boca, apesar de ser costeira, está constantemente envolta em uma atmosfera nublada e fria. Sempre que os padres são retratados na praia o horizonte está na altura de seus olhos, demonstrando o limite que aqueles indivíduos chegaram, a ponto de serem exilados em tal local. Além disso o sol está sempre na altura do horizonte, tal efeito produz uma bela fotografia ao utilizar o astro como contraluz. Apesar de serem indivíduos repletos de culpa é importante notar as explicações que cada um apresenta para seus atos, e tais explicações, quando dadas ao padre García, são sempre acompanhadas de uma fotografia levemente esfumaçada e uma lente grande angular que distorce a borda do quadro. É como se a Igreja lidasse com esses motivos de uma forma diferente do resto da sociedade, uma forma distorcida. E essa forma de a Igreja lidar não apenas com seus problemas mas com todos os seus assuntos está incrustrada na sociedade graças aos quase dois milênios de evangelização por ela praticada. Podemos percebê-la dos “graças a deus” e os “deus lhe pague” proferidos de forma automática inclusive por ateus ao julgamento de questões de âmbito pessoal como sexualidade e divórcio. Sandokan é a forma mais perversa pela qual a Igreja se faz presente, é o sintoma de uma instituição que insiste em não tratar de seus problemas de uma forma realista e transparente.

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O filme de Larraín acerta ao tratar do assunto de forma verborrágica, Sandokan não economiza o discurso ao contar em detalhes os abusos que sofria, trata-se de abrir mão dos eufemismos e apontar o problema de forma objetiva, laica, ao mesmo tempo em que a Igreja insiste em soluções paliativas para tratar seus problemas. No entanto, acontece que uma instituição com tantos membros em tantos lugares do mundo acaba por ser refém de seus integrantes, e isso faz com que seja mais fácil e mais encorajado encobrir seus atos e ceder às pressões para manter a aparência dessa instituição, que de tão anacrônica ainda clama por lealdade extrema e prega que seu líder possui infalibilidade divina.

Independente da discussão do divino, que pode ou não existir, não sabemos, a Igreja é uma instituição social e como tal pode e deve ser debatida. O filme de Larraín parte desse ponto para analisar os processos internos dessa instituição sem lançar mão de maniqueísmos ou de um pieguismo que pudesse prejudicar a trama. O filme é seguro e transita bem por um assunto delicado, fato em que o diretor vem se demonstrando muito competente desde No (2012) filme que trata da ditadura do general Augusto Pinochet e que como esse foi o candidato chileno ao Óscar.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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