megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

O Desenho da Princesa

A junção entre cinema e artes plásticas repleta de sensibilidade e significados. O Conto da Princesa Kaguya nos remete à uma forma idílica de se assistir animação, onde todas os quadros são dignos de contemplação por si só.


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O Conto da Princesa Kaguya [Kaguyahime No Monogatari]. Dirigido por Isao Takahata. Roteiro de Isao Takahata e Riko Sakaguchi. Vozes de Aki Asakura, Kengo Kora, Takeo Chii, Nobuko Miyamoto, Atsuko Takahata, Tomoko Tabata, Tatekawa Shinosuke, Takaya Kamikawa, Isao Hashizume, Hikaru Ijüin, Ryudo Uzaki, Nakamura Shichinosuke II, Hidetoshi Nishijima, Yukiji Asaoka e Tatsuya Nakadai.

Antes de falar de O Conto da Princesa Kaguya é importante ressaltar que ao começar o filme percebi um chiado constante na sala, um som com muito mais graves que o normal e com o volume um pouco baixo. Não saí da sala para questionar sobre esse fator pois imaginei que poderia ser uma característica do filme, como por exemplo em Praia do Futuro, filme teuto-brasileiro de Karim Aïnouz, onde em alguns momentos mal ouvimos os diálogos que são abafados pelo barulho das ondas. Bem ou mal isso é uma característica da mixagem de som, e não da sala de projeção. Não sei se os graves em destaque e o som baixo eram características do filme, mas o chiado não era. Após acabar a projeção, quando o projetor já havia sido desligado, o chiado permaneceu na sala 5 do Espaço Itaú de Cinema localizado no Shopping Frei Caneca.

O Conto da Princesa Kaguya é baseado em um conto folclórico japonês do século X chamado O Conto do Cortador de Bambu. Longe, no entanto, de ser permeado por morais educativas e a necessidade de se mostrar sempre o que é o certo, o filme não segue a lógica do arco dramático baseado na jornada do herói, ele acompanha o crescimento da princesa Kaguya (Asakura) e retrata a sua postura cada vez mais triste e deprimida toda vez que sua mãe (Miyamoto) e principalmente seu pai, o Cortador de Bambu, (Chii) tentam retirá-la de uma situação supostamente desconfortável para proporcionar a ela riquezas e títulos, já que, após encontrar a menina no bambuzal, ele também encontra ouro e tecidos, o que lhe garante a tranquilidade econômica necessária para construir uma mansão, contratar uma tutora e vestir a menina adequadamente para a vida em meio à aristocracia japonesa.

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A história começa com o Cortador de Bambu em meio a uma floresta de bambus, acabando de ceifar uma das árvores e se preparando para ir embora, quando ele avista de longe um bambu mais brilhante do que os outros. Ao se aproximar nasce uma flor do chão onde ele encontra a princesa Kaguya que de tão pequena cabe em sua mão. Ele então a leva para casa e junto com sua esposa a adota. Acompanhamos os primeiros anos de vida da princesa em seu crescimento acelerado. É tão rápido que sua mãe, ao segurá-la no colo, consegue perceber a mudança do peso da menina. Ela faz amigos, descobre a vegetação, os animais selvagens, insetos e as outras crianças, com quem faz amizade. Sempre a vemos em meio às árvores. A perspectiva das ilustrações parece espiar a menina e seus amigos, folhas parecem cobrir o local onde ficaria a câmera, o verde predomina e o desenho satura e dessatura de acordo com a intensidade dos sentimentos apresentados na tela. Quando, por exemplo, a princesa chora, seu rosto vai de um amarelo pálido para um vermelho vivo, e mesmo as cores do ambiente ganham e perdem saturação de acordo com as cenas que ocorrem nele.

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No segundo ato, quando a menina é forçada por seus pais a se mudar para a cidade para que viva com a pompa palaciana de uma princesa, o verde inicial dá lugar a um ambiente sempre recoberto de branco, e mesmo as lembranças que ela tem de quando vivia no meio da floresta agora apresentam, onde antes havia um céu azul, um fundo esbranquiçado. A própria princesa ao longo do tempo vai ganhando tons pálidos. A princesa Kaguya, a cada mudança que ocorre em sua vida, se torna mais triste. O filme não nos dá uma esperança real de que aquilo possa de fato mudar, apenas convivemos com a sensação de que ela poderia voltar para o campo e lá ser feliz, no entanto isso é apenas inferido, não se apresenta como uma possibilidade real. Takahata reserva ao espectador o privilégio de acompanhar a história, perceber as nuances dos sentimentos da princesa, entristecermos com ela. E para tal confere um sem número de planos belíssimos, contemplativos e distantes, que parecem pinturas feitas com giz de cera e aquarela, planos que poderiam tranquilamente ser enquadrados e expostos em museus. É notória também na construção do sentido melancólico do filme a trilha musical de Joe Hisaishi. Longas sequências de dedilhados tocados com um koto, instrumento musical tradicional japonês que consiste em uma caixa de madeira sobreposta por cordas.

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Em dado momento percebemos que a história não se trata da busca da princesa por um objetivo, mas sim de como a imputação de objetivos desnecessários a torna cada vez mais insatisfeita. O casamento, o ingresso na nobreza, a vida na cidade. Todos esses fatores são apresentados à princesa como inerentes a ela, e tais fatores apenas a afastam de sua verdadeira essência. Se há alguma moral na história é nesse ponto que ela reside. O Conto da Princesa Kaguya é para que o espectador testemunhe uma variedade de experiências sensoriais. Seus traços leves confluem a multidimensionalidade do cinema, através do movimento e do som, com a beleza dos traços calcados na bidimensionalidade das artes plásticas, gerando um obra primorosa muito maior do que a simples soma de desenhos, movimentos e sons.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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