megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

O Mundo é Um Lugar Cruel, Meu Amigo

Félix & Meira, filme do cineasta franco-canadense Maxime Giroux, joga luz sobre esse lugar inóspito, cruel e que nos insiste em colocar nos lugares errados, que é o planeta Terra. Ou seriamos nós que temos a disposição inerente de nos sentirmos deslocados? Como todo bom filme, Giroux oferece mais perguntas que respostas.


56_felix-et-meira4.jpg

Félix & Meira [Félix et Meira]. Dirigido por Maxime Giroux. Roteiro de Maxime Giroux e Alexandre Laferrière. Com Martin Dubreuil, Hadas Yaron, Luzer Twersky, Anne-Élisabeth Bossé, Benoît Girard e Melissa Weisz.

A primeira imagem que surge na tela ao assistirmos o filme de Giroux é o de um cálice de prata sendo servido de vinho até que este transborde. Trata-se, ao que parece, de um ritual judaico, não saberia dizer ao certo. Assim como essa primeira imagem, o que vemos, plano após plano, são pequenas representações visuais das condições psicológicas e sociais dos personagens. Quem serve o vinho até que este transborde é Shulem (Twersky), marido de Meira (Yaron), a quem ele diz ser o sentido de sua vida, mas que oprime, lhe negando liberdades e espaço.

Meira é uma moça judia que se casou aos quatorze anos de idade e tem uma filha. Seus dias são preenchidos com os cuidados dispensados à criança, trabalhar na comunidade judaica de que faz parte e se permitir pequenos prazeres às escondidas, como ouvir um álbum de música não religiosa. Félix (Dubreuil) é um sujeito solitário que acaba de perder o pai. Ele encontra Meira em uma espécie de loja de conveniência judaica, puxa assunto com a moça ao vê-la desenhar mas ela lhe nega a palavra e vai embora do estabelecimento. Andando pela rua em frente ao seu apartamento Félix encontra Meira novamente, ele então lhe dá um desenho de presente e pede, como que em um ato de desespero, para que ela lhe ajude a superar o luto, já que ele não tem religião. Diante de uma negativa inicial, Meira retorna no dia seguinte e aos poucos dá-se início a uma amizade entre os dois. Amizade que se estabelece e se mantem graças aos esforços de Félix, que não desiste de conversar com Meira mesmo quando ela lhe pede para que não lhe dirija a palavra. Seguindo a lógica das metáforas visuais, Giroux os coloca em uma cidade coberta de gelo, mais precisamente Montreal, no Canadá. Félix tenta a todo custo romper a frieza que as relações e o ambiente impõem. Após conversar com seu pai no leito de morte o vemos descendo uma escada, metade dela está coberta de gelo, a outra metade não. O vemos, então, literalmente traçando um caminho em meio à paisagem branca.

plano aberto escada.jpg

Para Meira, poder ouvir música livremente sem o medo de ser flagrada é algo que a atrai na companhia de Félix. É este o seu primeiro pedido ao visita-lo em seu apartamento. Enquanto ouvem música, ela pergunta sobre o motivo de sua solidão, ele atribui tal fato à uma inexorabilidade que ele mesmo desconhece o motivo. Em seguida se encanta pelo fato de Meira nunca ficar só, já que desde sempre está integrada à comunidade judaica. Se a possibilidade de experimentar novas coisas é o que atrai em Meira a companhia de Félix, para ele o que atrai nela é justamente essa curiosidade, é a forma como ela reluta em olhá-lo nos olhos, já que à uma mulher supostamente não seria permitido olhar um homem nos olhos, é a surpresa da sensação de vestir um par de calças jeans pela primeira vez e o deslumbre em jogar pingue-pongue em uma sala enorme que contrasta com os corredores claustrofóbicos de seu apartamento.

O grande mérito de Giroux reside na complexa e bela interação que ele constrói entre os personagens título. A relação deles é fluida, não há o inconveniente de alimentarem uma situação que se pressupõe, principalmente dentro da comunidade de Meira, como errada. Há uma tensão sexual, mas ela nunca extrapola o nível do sutil e se torna imperativa. Há cumplicidade, mas sobretudo respeito entre os dois. Martin Dubreuil é seguro em sua atuação, comedido dentro da solidão de sua personagem e desmoderado quando necessita expandir os horizontes seculares de Meira. No entanto quem rouba a cena em quase todos os planos é Hadas Yaron, uma jovem de vinte e cinco anos que está apenas em seu terceiro longa, o segundo como protagonista. Yaron tem um rosto cinematográfico, aquele onde o que importa não é de fato a beleza em si, mas uma sinceridade que clama por ser decifrada toda vez que aparece na tela graças à infinidade de sensações que passa com seus olhos grandes e seus traços peculiares. A câmera da fotógrafa Sara Mishara parece a todo momento buscar esses traços, realizando pequenos tilts para cima e para baixo para que contemple mais de um tema nos planos fechados. E mesmo a sinergia dos dois é tão bem construída que a filme é permeado por longos planos entre eles, onde inclusive as palavras são desnecessárias e por isso escassas.

56_felix-et-meira5.jpg

Ao contrário dessa ligação de Meira com Félix, a vemos em uma dinâmica conflituosa com seu marido, Shulem. Eles dormem em camas separadas, se falam muito pouco e em dado momento Meira viaja para os Estados Unidos para ficar com a prima de seu marido, de modo a ter um tempo para que reflita, já que se nega a ter mais filhos, decisão que vai de encontro ao propósito da mulher na Terra, como pregado por Ruth (Weisz), uma integrante da comunidade de Meira. Esse tempo, no entanto, não é respeitado por Shulem, que vai aos Estados Unidos e segue a esposa. Não é possível, no entanto, traçar um perfil maniqueísta no longa. Se a inexorabilidade da solidão de Félix não tem motivo aparente, a inexorabilidade das relações e comportamentos de Meira e Shulem são oriundos de um ethos religioso cujo o qual eles desconhecem uma vida diferente. No início da projeção Meira espalha ratoeiras pela casa, sempre sem sucesso. Quando só, devido à viajem da esposa, Shulem abre um dos armários da cozinha e se depara com um rato ainda vivo preso à armadilha, no que lhe dirige a frase “o mundo é um lugar cruel, meu amigo”.

56_felix-et-meira2.jpg

A ratoeira como metáfora proposta por Giroux não é tão simples a ponto de a associarmos a uma religião da qual fazemos parte desde que nascemos (ou qualquer outra organização a que somos arbitrariamente incorporados). Não se trata de algo objetivo e muito menos um imperativo único, uma condição única na vida do indivíduo. Os belos planos e as estratégias visuais propostas por Giroux são dignas de reflexão, são abertas à interpretações, e essa pluralidade de interpretações caracteriza a riqueza do filme.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Pedro Lacerda