megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

O Salão de Ken Loach

Jimmy’s Hall, que pode ser a última obra de ficção do diretor septuagenário é uma demonstração de como o cinema de Loach ainda é necessário para fomentar discussões políticas e sociais imprescindíveis no cenário atual.


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Jimmy’s Hall [Idem]. Dirigido por Ken Loach. Roteiro de Paul Laverty. Com Barry Ward, Francis Magee, Aileen Henry, Simone Kirby, Stella McGirl, Sorcha Fox, Martin Lucey, Mikel Murfi, Shane O’Brien, Denise Gough, Jim Norton, Aisling Franciosi, Seán T. Ó Meallaigh, Karl Geary e Brían F. O’Byrne.

Toda animosidade tem origem política. A política está a serviço da busca do bem-estar e o bem-estar só não é atingido quando esbarra nas concepções ideológicas contrárias de outrem. Portanto qualquer briga entre vizinhos, discussão acalorada, enfrentamento físico ou debate de ideias tem no fundo origem política. Jimmy Gralton (Ward), personagem real biografado por Ken Loach em seu mais recente filme (e talvez a última ficção do diretor que após a exibição do longa em Cannes ano passado deixou em aberto essa possibilidade) é um ativista de esquerda que precisou fugir da Irlanda para os Estados Unidos para não se tornar um preso político. Preso político não é tão e somente alguém que é preso por suas inclinações ideológicas, mas também alguém cuja prisão irá gerar ganhos políticos para outrem. É importante ressaltar.

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Dez anos depois, Jimmy volta à Effrinagh, vilarejo ao norte da Irlanda, para tentar retomar sua vida após o exílio. Decidido a levar uma vida pacata, Jimmy é logo dissuadido da ideia ao ser confrontado com um grupo de jovens liderados por Marie (Franciosi), que lhe rogam a reabertura do salão Pearse-Connolly, onde ocorriam atividades físicas, lúdicas e intelectuais e que fora fechado após a expulsão de Jimmy do país. A falta de opções do pequeno vilarejo é o que motiva os jovens a pedirem a Jimmy que reabra o local. Apesar de ser um espaço inclusivo, o local tem uma regulamentação tipicamente de esquerda, com auto-gestão igualitária, ausência de proprietário e inclinação laica, o que gera a tal animosidade. Por isso, mesmo que seja aberto a todos, ainda existem aqueles que se sentem ameaçados pela existência desse espaço, e o grupo dos que se sentem ameaçados é liderado pelo eclesiástico local, padre Sheridan (Norton). Tem-se então a reedição dos confrontos que expulsaram Jimmy do país dez anos antes.

Loach tem em sua filmografia obras primas que retratam desde sua paixão pelo futebol (À Procura de Eric), passando pela condição dos excluídos e a classe trabalhadora inglesa (A Parte dos Anjos e Felizes Dezesseis) e até a questão irlandesa que já fora tratada por ele em Ventos da Liberdade, sempre trabalhando com o roteirista Paul Laverty. Apesar da recorrente visão esquerdista em seus filmes, essa é a primeira vez que Loach retrata a vida de um líder socialista na ficção. O mais próximo disso havia sido quando dirigiu o segmento inglês do filme 11 de Setembro, onde onze diretores tiveram onze minutos cada para retratar os efeitos dos ataques terroristas em seus países. Loach, ao invés de simplesmente retratar como os ataques influenciaram o Reino Unido, algo amplamente exposto pela grande mídia, tratou de descrever a situação de uma imigrante chilena que sofrera com outro 11 de setembro, o de 1973, quando o presidente socialista do Chile, Salvador Allende foi morto por tropas militares e o General Augusto Pinochet assumiu o controle do país, dando início a uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina.

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Nessa última obra de Loach temos algo que se aproxima de uma reflexão sobre movimento socialista. Há muitas críticas em relação à opressão exercida pelo poder econômico e pela igreja, mas há também um pequeno viés crítico ao movimento que parece insistir nos mesmos métodos de forma ingênua, o que acarreta nos mesmos resultados. Obviamente as ações e ideias difundidas por Jimmy e seus camaradas soam extremamente atrativas, principalmente para os jovens do local, por se mostrarem vibrantes, esperançosas e animadas. Algo bem representado pelas cores quentes que o salão de Jimmy vai ganhando de acordo com a efervescência das atividades que nele ocorrem e que contrasta com a frieza da igreja (a outra organização atuante no vilarejo), representada sempre com tons azulados. Porém essa efervescência acarreta também no incomodo àqueles a quem a disseminação de ideias socialistas pode ser algo prejudicial, a saber, a própria igreja e os grandes proprietários de terras. E estes lançam mão de suas formas de opressão para tentar impedir que a população frequente o salão. E a forma mais caricata é a leitura na missa pelo padre dos nomes daqueles que foram ao baile no salão na noite anterior. E aqui reside uma das críticas mais importantes de Loach, pois é a partir da leitura do nome de sua filha que um dos principais opositores do salão e consequentemente de Jimmy, o comandante O’Keefe (O’Byrne), se acha no direito de açoitar a menina como forma de castigo por frequentar o local, ou seja, a palavra de um clérigo servindo como justificativa para atos de violência. E mais, violência perpetrada por um homem contra uma mulher.

O fotógrafo Robbie Ryan capricha no papel expressivo da luz no filme. Ainda usando película, o que acarretou em dificuldades para terminar o longa devido à escassez do material (o filme foi auxiliado pelos estúdios da Pixar que enviaram alguns rolos). O que vemos é uma paisagem bucólica e rural, ambiente que se contrapõe às primeiras imagens do filme, a Nova Iorque dos anos 30, agitada e repleta de arranha-céus. As primeiras imagens de Jimmy no salão são escuras e azuladas, e sua primeira ação é abrir as janelas e deixar entrar uma forte luz branca que clareia o ambiente e nos revela um local abandonado. Jimmy rememora algumas passagens de sua vida antes do exílio, e essa é a forma de Loach nos explicar o motivo dos dez anos de ausência do protagonista no vilarejo. Ao longo da projeção a luz pontua passagens dramáticas fortes. O exílio acabou, por exemplo, com a possibilidade de Jimmy ter uma vida com Oonagh (Kirby), a mulher por quem era apaixonado antes de deixar a Irlanda. Quando eles se reencontram a sós no salão, é através da luz expressiva e dos passos de dança ensaiados por eles, mesmo sem música, que vemos se concretizar na tela todo o desejo represado que ambos sentiam (sentem?) um pelo outro, mas que já não seria mais possível de ser concretizado, Oonagh agora é casada e mãe de dois filhos.

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Outro elemento que Loach trabalha muito bem é a montagem do filme. O montador Jonathan Morris é preciso nos cortes e nas justaposições. Apesar de se localizarem em momentos espacial e temporalmente diferentes no filme, a cena do baile que ocorre no salão e a cena da missa na manhã seguinte são mostradas simultaneamente. O discurso do padre, que deveria ser puramente religioso, assume tons políticos, enquanto a atividade do salão, que se pressupõe política, ganha contornos lúdicos. A montagem relaciona os dois discursos e cria um interessante debate entre eles, redimensionando o sentido de tais ações. Outro ponto forte, como dito, reside na justaposição. A primeira cena após a reabertura do salão é de Jimmy ceifando um matagal com uma foice. A foice, junto com o martelo é o símbolo do socialismo, sendo que o martelo representa os trabalhadores industriais, enquanto a foice representa o campesinato. O filme é todo permeado por essas sutis justaposições que enriquecem a trama e remetem inclusive à dois dos principais cineastas da União Soviética, Lev Kuleshov e Sergei Eisenstein, os primeiros a teorizar dentro do cinema sobre o efeito da justaposição de imagens visando a construção de um novo sentido que não seja simplesmente a soma das imagens, mas sim um produto delas.

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Ken Loach examina um pequeno pedaço da Irlanda para refletir sobre as feridas da Guerra de Independência e assim joga um pouco de luz sobre as discussões oriundas das transformações que ainda sucederiam no mundo no século XX, as discussões entre direita e esquerda, entre o que são e o que representam essas ideologias. Se a esquerda não é tão carrancuda e opressiva quanto a grande mídia costuma divulgar, a direita também não representa a liberdade como prega em seus discursos. E mesmo sempre seguindo essa linha dialética em seus filmes, não é possível pensar que trata-se de um assunto esgotado, pois nada é mais flagrante para testemunharmos a necessidade de que se produzam cada vez mais filmes como os de Loach do que a presente realidade e animosidade política que vivemos no Brasil.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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