megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

Sangue, Sêmen e Lágrimas

O diretor franco-argentino Gaspar Noé se lança ao desafio de contar uma história de amor a partir do ponto de vista sexual em seu filme mais recente, Love.


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Love [Idem]. Escrito e dirigido por Gaspar Noé. Com Aomi Muyock, Karl Glusman, Klara Kristin, Juan Saavedra, Gaspar Noé, Vincent Maraval, Benoît Debie, Isabelle Nicou, Stella Rocha, Déborah Révy e Xamira Zuloaga.

Gaspar Noé é Love, e no filme ele explica a si mesmo, ou seja, a ambição do próprio longa, contar uma história de amor do ponto de vista sexual. Dessa forma, Noé atinge seu objetivo. É através do tipo, da intensidade e da forma como os atores transam em cena que sabemos imageticamente como os personagens se desenvolvem.

O filme conta a história de Murphy (Glusman), um americano que vai estudar cinema em Paris. No dia de ano novo ele é acordado ao lado de Omi (Kristin), mãe de seu filho, por um telefonema, trata-se da mãe de Electra (Muyock) perguntando sobre o paradeiro da moça, a quem não vê há dois meses. Electra é a ex-namorada de Murphy. Ele então passa o dia recordando-se da ex-namorada e se queixando da sua vida atual. O filme segue uma sequência cronológica inversa, uma característica do diretor que levou esse recurso ao extremo em Irreversível (2002). Esse fator, aliado á montagem baseada toda em flashbacks, nos apresenta a história aos poucos e muda a percepção do público sobre os fatos a medida que são inseridas novas informações.

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No entanto o filme tem seu ponto forte na estrutura visual e não na história em si. Vemos belíssimos planos banhados em tons vermelho e laranja. Cenas longuíssimas de sexo acompanhadas de solos de guitarra ou música clássica. Planos onde vemos apenas a silhueta dos personagens em contraste com o fundo iluminado e até um inusitado e curioso plano frontal de um pênis ejaculando que, aliado ao 3D, torna a experiência peculiar. Todas essas formas e cores constroem aos poucos a personalidade de Murphy, Electra e Omi, e oferecem informações sobre seus estados afetivos nos vários momentos do filme. Há ainda um recurso interessante utilizado por Noé, há pequenos cortes que escurecem brevemente a tela e a imagem retorna para onde estava ou não. São pequenas elipses, introduzidas no filme assim como nosso cérebro trata de introduzir elipses em nossas memórias, não lembramos das coisas na ordem cronológica correta ou nem exatamente como eram de fato, e o filme de Noé é quase todo construído a partir de flashbacks da memória de Murphy.

Outro fator que auxilia de forma muito eficiente na composição dos personagens é o design de produção dos ambientes frequentados por eles. Locais escuros e sombrios quando experienciam algo novo ou em momentos tensos, ou claros e leves quando em um momento romântico tal qual uma passeio no parque ou um café em um restaurante. O próprio quarto de Murphy é por vezes inundado em uma luz vermelha que contrastando com os cartazes de Saló (1975) de Pasolini e M (1931) de Fritz Lang, e o emaranhado de adesivos e objetos pelas paredes representam visualmente a angústia do personagem que tenta sem sucesso falar com sua ex-namorada.

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O 3D do filme é um problema à parte. Na grande maioria dos filmes tal recurso acaba por não ser um elemento narrativo, ele não ajuda a contar a história, apenas soa como diferencial em relação ao 2D. Um indício claro disso é que os filmes não são lançados apenas em 3D mas também em versões tradicionais. Dessa forma o diretor e o diretor de fotografia não podem pensar em uma fotografia e em uma decupagem exclusivas, logo, se em alguns momentos o 3D soa eficiente ao retratar luzes que saltam na tela, em quase todos os outros atrapalha pois os óculos escurecem a projeção já bastante escura e nos faz ter dificuldade em observar algumas cenas. Em outros casos os planos tem um ponto específico em foco e o restante desfocado, esse é um elemento do 2D que simula a profundidade, no 3D ele não seria necessário já que o próprio recurso se encarrega disso. E o efeito é que ao vermos uma imagem em 3D e desfocada, embaralhamos nosso cérebro, o que ao longo de duas horas de projeção pode gerar dor de cabeça e náusea.

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Noé inclui vários elementos pessoais no filme, Murphy é o sobrenome de sua mãe. Há dois personagens no filme chamados Noé e Gaspar. Murphy é um jovem cineasta em busca de uma carreira na França. Dessa forma, o filme se apresenta, se não como autobiográfico, pelo menos com uma forte característica pessoal do diretor. Em dado momento Murphy diz que seus filmes serão basicamente sobre sangue, sêmen e lágrimas, fluidos essenciais da vida. Love é um filme repletos de cenas de sexo não simuladas, essa é a forma como Noé pontua o filme, por isso não são gratuitas, é o elemento que ele elegeu para ser o central de sua história. Em torno dessas cenas ele constrói as relações que podem gerar lágrimas e sangue, ainda que indiretamente. Conhecido exatamente por subverter o ponto de vista em seus filmes, Love aparenta ser um filme-ensaio que testa o sexo como uma forma poética de versar sobre as relações humanas.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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