megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

Terra de Ninguém

Denis Villeneuve, em mais um filme poderoso e seguro nos apresenta um drama político. A relação entre Estados Unidos e México que se dá na fronteira e como ela afeta a sociedade.


S_D016_04133_R2.jpg

Sicario: Terra de Ninguém [Sicario]. Dirigido por Denis Villeneuve. Roteiro de Taylor Sheridan. Com Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan, Raoul Trujillo, Julio Cedillo, Hank Rogerson, Bernardo P. Saracino, Maximiliano Hernández, Kevin Wiggins, Edgar Arreola e Kim Larrichio.

Sicário, em diversos países de língua latina, significa assassino de aluguel. Quando Kate Macer (Blunt) encontra uma casa repleta de corpos o filme parece indicar a busca á um assassino. No entanto Villeneuve não nos entrega um suspense que se baseia em apenas um vilão, mas sim um filme muito mais profundo, recheado de personagens complexos e multidimensionais, e concentra-se não em apenas nos explicar o significado de cada cena mas sim em tentar traçar um panorama das demonstrações de poder.

S_D037_09788.jpg

Após descobrir os corpos a agente do FBI Kate Macer é convidada à integrar uma força tarefa que tem como finalidade descobrir quem são os chefões do cartel mexicano responsáveis por milhares de mortes que acontecem no submundo do tráfico todo ano. Idealista, a agente aceita integrar à missão, no entanto aos poucos vai percebendo que pouco sabe a respeito do que se passa ao seu redor e sua busca por respostas é árdua e quase sempre infrutífera. Tanto Matt (Brolin) quanto Alejandro (Del Toro), os chefes da missão, informam-lhe apenas aquilo que parece ser vital para a permanência da moça junto a eles.

Apesar de o filme se assemelhar mais ao gênero policial e não á um suspense ou á um terror, a carga de tensão do filme é bastante pesada. O som bem construído e alinhado com uma trilha musical poderosa parece nos esmagar na cadeira. Somado a isso temos imagens abertas dos desertos da região entre os Estados Unidos e o México que são pontuadas por questões climáticas como nuvens carregadas ou um pôr do sol em um horizonte plano e limpo. Todos esses recursos criam uma tensão constante e uma sensação de impotência que nos faz sentir exatamente como Macer durante a missão.

S_D045_11529_R.jpg

O filme não se esforça em nos explicar obviedades, ele nos informa somente o que precisamos saber para não ficarmos perdidos e tal dica é dada quando Macer pergunta a Alejandro sobre a missão e este responde que “ela o está perguntando sobre como o relógio é feito, e no momento basta manter os olhos no ponteiro”. Villeneuve dirige o filme em altíssimo nível ao nos dar essas informações de forma sutil e no momento exato. É eficiente também ao nos apresentar elementos narrativos não verbais quando, por exemplo, nos apresenta Alejandro com um terno claro sobre uma camisa escura. Trata-se de um sujeito misterioso que esconde algo por baixo de sua aparência calma e aos poucos vai nos revelando, e assim seu figurino vai escurecendo cada vez mais.

Benício Del Toro, inclusive, nos entrega uma das melhores atuações de sua bela carreira. Trata-se de um personagem complexo que consegue nos surpreender, assustar e transmitir confiança apenas com seu olhar fundo e sua voz meticulosamente trabalhada. É um deleite à parte para os amantes do cinema ver um ator tão talentoso entregue à um papel tão bem escrito e bem dirigido.

S_D018_05049_R.jpg

E por prestar atenção em todos esses detalhes mesmo que eles não pareçam estar lá, é interessante notar que, lá para o meio da projeção, mesmo sem muitas informações disponíveis, percebemos não estar perdidos no meio da história, que aos poucos vai se encaixando e construindo um panorama cruel e assustador sobre (e aqui é o máximo que eu revelarei sobre a trama) a relação entre Estados Unidos e México. Inclusive esse ponto é bem exemplificado pelas diversas imagens que Villeneuve nos mostra da fronteira entre os dois países. Em algumas delas há um trânsito intenso para ir do sul para o norte e trânsito livre no caminho contrário. Em outras vemos o muro que separa alguns pontos da fronteira, que, obviamente, visa impedir a ida de mexicanos para os Estados Unidos e não o contrário.

Seguindo a linha de Incêndios (2010), Villeneuve constrói mais uma vez um filme com alto teor político e crítica ácida à forma como países e povos vizinhos tratam uns aos outros. E como as fronteiras parecem ser cada vez mais parte do problema e não da solução para os reais problemas que afligem os países e seus povos mas não seus governantes.


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Pedro Lacerda