megafone vermelho

Um pouco de cinema com um bocado de detalhes.

Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG

Infinitamente Urso Polar

Maya Forbes, roteirista de Diário de Um Banana e Monstros vs. Alienígenas estreia na direção com uma obra poderosa e sensível, marcada por grandes atuações e por uma segurança em transitar entre o drama e a comédia.


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Sentimentos que Curam [Infinitely Polar Bear]. Dirigido e escrito por Maya Forbes. Com Mark Ruffalo, Zoe Saldana, Imogene Wolodarsky, Ashley Aufderheide, Keir Dullea e Beth Dixon.

Sentimentos que Curam, antes de nos apresentar uma história de fato interessante e envolvente, nos apresenta grandes atuações, tanto das garotas Amelia (Wolodarsky) e Faith (Aufderheide) quanto da mãe Maggie (Saldana) e principalmente do pai Cameron (Ruffalo), tratado no filme por Cam. Cam é um pai e marido maníaco-depressivo (ou bipolar, o filme se passa nos anos 70 e o próprio Cam confessa não saber mais como sua doença é chamada naquela época) que fica encarregado, após se recuperar de um colapso nervoso que pôs fim ao seu casamento, de cuidar das filhas do casal em Boston enquanto a mãe vai para Nova Iorque fazer um MBA para tentar alavancar a carreira e assim proporcionar uma educação e consequentemente um futuro melhor para as filhas.

Cam então passa a cuidar das meninas e transforma o ambiente onde eles vivem. A antes sempre arrumada casa onde as meninas viviam com a mãe passa a ser um ambiente quase inóspito, recheado de caixas com diversos objetos que Cam se recusa a jogar no lixo. Partes de bicicletas, fotos, ferramentas, colagens, canecas, Cam não joga fora um objeto que ainda pode ser útil. Mesmo uma bucha de lavar louça que eles utilizam por meses. Hoje em dia, quando algum aparelho ou objeto, principalmente os eletrônicos, deixam de funcionar, somos compelidos a comprar outro, graças ao inexorável avanço tecnológico e à obsolescência programada. Antigamente, esses produtos eram consertados; na França, o sujeito que consertava esses aparelhos se chamava bricoleur. A postura de Cam se assemelha a de um bricoleur, um indivíduo que vê no próprio mundo a solução para este, e não na compra de um subterfúgio fabricado que seria a solução para o problema, seja ele qual for. É assim que o filme de Forbes parece tratar o ser-humano, em especial o ser-humano vivido por Ruffalo. A facilidade apresentadas nas fórmulas, remédios, livros, terapias e soluções fabricadas dão lugar à tentativa e erro. Fatos que se acumulam ao longo do filme, e nos é conduzido através de uma decupagem cuidadosa.

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Durante o filme, somos apresentados a pequenos zooms e diversos planos de câmera na mão seguidos por cortes rápidos, close-ups e planos médios. A câmera parece inquieta, sempre tentando ajustar a imagem, reprojetar a realidade para que a percebamos de outra forma. Associada às atuações, essa decupagem se torna essencial na percepção de que o que está em jogo é como aquelas pessoas se relacionam e como elas tentam aperfeiçoar esse relacionamento, e não o que elas utilizam pra se relacionar, ou quais elementos alheios àquela realidade que elas lançam mão para conseguirem se relacionar. E quando essa questão vem à tona (na forma dos medicamentos receitados à Cam, por exemplo) ela se configura menos importante do que realmente é. Novamente, não se trata da construção de uma solução, talvez nem na busca de uma, mas na reorganização de uma realidade.

No entanto Cam é bipolar, sua postura influencia diretamente as relações, é ele quem conduz a trama, quem demonstra se as coisas estão fluindo bem ou não. A figurinista Kasia Walicka-Maimone escolheu um código cromático específico como uma das formas de demonstrar o estado psicológico de Cam, se ele usa azul, ele tende a estar bem ou se recuperando, sua relação com as filhas é boa e ele ganha esperanças com a ex-mulher. Se ele usa vermelho denota estar passando por um momento difícil, e é exatamente essa cor que ele usa quando tem sua primeira crise, a que interrompe seu casamento, nessa cena Cam usa apenas uma sunga e uma faixa no cabelo vermelhas. Quando aparenta ter sua segunda crise, no momento em que sua relação com as filhas está tumultuada não importando seus esforços para conter essa situação e a depressão e o isolamento o afetam cada vez mais, Cam traja uma camisa listrada vermelho e azul. Ele ainda não esta sofrendo seu segundo colapso nervoso, está em um processo que pode desenrolar para tal colapso. Ainda em outro momento, quando Cam esta visivelmente deprimido mas tenta com a ajuda das filhas sair desse estado, o vemos com uma camisa vermelha e um sobretudo bege por cima, é sua forma de tentar esconder aquele estado, colocando por cima da cor que demonstra sua frustração e raiva uma cor neutra, apática e sem vida.

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Quando usados por sua esposa o vermelho é o estopim. Maggie visita as filhas aos finais de semana, seus tons são sempre variações do vermelho, indo do escuro ao claro. Afinal, quando ela volta pra Nova Iorque, ao término do fim de semana em Boston, sempre deixa a dúvida sobre o futuro do casal, o que desnorteia Cam. Após essa quase crise onde ele usa a camisa listrada, ela chega de viagem trajando um vermelho vívido, provocativo. Ela, mais do que nunca, tende a desequilibrar Cam, seja para um lado ou para outro. O indivíduo bipolar não controla a intensidade de suas emoções, no entanto essas emoções são provocadas, não surgem a esmo, o fato de Maggie estar presente apenas em breves visitas tem importância vital no estado de Cam e isso é retratado no figurino do casal.

Além das cores do figurino, a fotografia de Bobby Bukowski também é marcante para delinear o momento das personagens. O filme se passa em 1972 mas em várias passagens vemos o que parecem ser sequências caseiras filmadas em super 8, anteriores àquele período. Nelas sempre há uma fotografia ensolarada, enquanto que nos planos que representam o momento presente há sempre uma sombra que escurece o ambiente retratado. Na casa onde moram as janelas parecem nunca ser abertas, o dia lá fora está sempre nublado, no primeiro emprego de Maggie na cidade quase não é possível ver os arquivos por onde ela circula e sempre que estão em um ambiente fechado os personagens parecem escolher precisamente aqueles lugares onde a luz não chega. Em dado momento Amelia reclama que não consegue dormir pois os refletores que iluminam o pátio deixam seu quarto muito claro, parecendo dia. Quando vemos esses refletores eles servem apenas de contraluz para o rosto de Cam, mergulhado na escuridão, que acaba de sair de casa, respira fundo de alívio por estar longe das filhas e segue para o bar mais próximo para “estar com adultos”.

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Se a interpretação de Ruffalo é digna de elogios, isso se dá, principalmente, graças à dinâmica criada entre sua personagem e a de suas filhas. Se a trama se concentra em Cam, é no entanto, Faith e Amelia quem de fato sofrem as maiores transformações durante o longa, são elas que deixam de ser duas crianças, transformam seus medos e amadurecem, mudam psicologica e fisicamente durante o filme. E também são elas que proferem alguns dos melhores diálogos, quando, por exemplo, Faith diz para os amigos ao entrarem na sua casa e se depararem com a bagunça que o pai é infinitamente um urso polar (infinitely polar bear) e sua irmã corrige dizendo que ele é infinitamente bipolar (inifinitely bipolar).


Pedro Lacerda

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha - MG.
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