meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

Ele seria Tim Maia se não fosse tão “Tim Maia”?

Ele é um dos artistas mais talentosos da música brasileira. É, também, um dos mais polêmicos, irresponsáveis e malandros. E uma coisa está, necessariamente, ligada às outras.
Tim Maia é, assim como todos nós, uma grande lista de prós e contras. Só que, no caso dele, às vezes os contras transformam-se em prós. E isso é para poucos.


TIM MAIA

Vale a pena exaltar o malandro? O que não honra seus compromissos, não paga impostos, o que briga, xinga, suborna, explode de ciúmes. Vale? E se esse cara for Tim Maia?

É injusto que o talentoso não se esforce para brilhar e que, por mais que o esforçado se desdobre, ainda lhe falte aquele milésimo de dom capaz de fazer com que os outros se arrepiem. É injusto. Mas acontece.

Não que Sebastião Rodrigues Maia não tenha se esforçado; sua infância sofrida, sua ida aos Estados Unidos sem saber um pingo de inglês, sua vontade de ser alguém e a confiança no próprio talento de certo foram merecidamente recompensadas. “Pobre, preto, gordo e cafajeste”, Sebastião teimou, ralou e demorou a virar Tim.

Mas, quando virou...

“Dar pro Tim é fácil, quero ver é dar pro Sebastião”, disse, naquela que muito provavelmente é a frase que melhor representou sua vida, em todos os sentidos.

Estourou. Cantou, compôs, engordou, cheirou, bebeu, fumou, brigou, brilhou. Furioso com um mercado que não premiava o artista, criou sua própria gravadora, a Seroma (as iniciais de seu nome que, se lidas ao contrário, formam a palavra “Amores”. Isso é Tim.).

Diz a lenda (que na verdade não é lenda, mas um trecho de “Vale Tudo”, a biografia de Tim Maia escrita por Nelson Motta) que a criação de “um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”, essa frase que fala de sociologia, política, futebol e tudo o que você quiser, foi feita por um Tim solitário, depressivo, mendigando amor em vão no apartamento de um amigo (que, piedoso, até pedia para as amigas “darem uma chance ao menino”). Escreveu, num momento máximo de tristeza, o seu maior sucesso. Isso é Tim.

Tempos depois, escreveu “Me dê motivos” porque precisava de uma “música de corno” em seu repertório. Afinal, elas fazem sucesso. Jamais revelarei que só fui me viciar em “Me dê motivos” quando minha garota me deixou, porque você provavelmente não vai acreditar em mim. Seria muita coincidência, né?

Não há o que dizer do talento de Tim, um dos maiores da nossa Música. Ainda assim...

Imagine o seguinte cenário: em pleno 2015, no auge do mundo politicamente correto, vamos, você e eu, eu e você (juntinhos!) a um show de Tim Maia. Pense nos preparativos: nas centenas de reais investidos, naquela inconveniente taxa de conveniência. Talvez um de nós apele para a imoral carteirinha falsa porque, afinal de contas, “tá tudo errado no país mesmo”. Chegando lá, entre hashtags e selfies, descobriríamos, com horas de atraso, que não haveria show algum. Intuiríamos, talvez com razão, que trata-se de mais um triatlon de Tim Maia (sua sagrada tríade uísque-cocaína-maconha). Nos sentiríamos frustrados, irados com tamanho descaso. Xingaríamos muito no Twitter.

Mais tarde, em casa, de banho tomado e de cabeça fria, lembraríamos da situação. “Ah, esse Tim Maia...”, diríamos, aborrecidos, lutando desesperados contra um princípio de sorriso que começaria a brotar no canto de nossas bocas, como aquele pai que censura o filho por uma travessura da qual, secretamente, se orgulha.

Mas, não, sejamos francos, não dá pra sorrir de uma situação dessas: quem é que ri depois de ser humilhado?

Até que, de algum lugar, brotaria uma voz com a pergunta: “Ei, o que você queria?”.

E aí a gente pararia pra pensar. Imaginaríamos um Tim certinho. Responsável, honrando seus compromissos. Talvez um rascunho do que foi na sua época Racional: saem os absurdos e exageros, ficam o foco, a responsabilidade e a limpeza da voz. Seria esse o nosso Tim ideal? Será? Cá pra nós, se ele não fosse tão “Tim Maia”, será que ele seria Tim Maia, pra começo de conversa?

Talvez não. Música é um lugar pra onde a gente vai quando quer se rebelar, transgredir, gritar, xingar, bater, beijar, odiar e amar, tudo ao mesmo tempo. E, sejamos francos, são poucos os que conseguem fazer isso; e são desses que a gente mais gosta. “Não entendo como alguém consegue viver assim” e, ao mesmo tempo, “queria eu ser só um pouquinho Tim Maia”.

Ainda assim, continua nebulosa, pra mim, essa aparente relação entre a capacidade de mudar o mundo e o desapego pela própria vida. Fosse um pouquinho menos Tim Maia, Sebastião talvez ainda estivesse conosco. E eu poderia ir a um de seus shows pra comprovar o quanto vale a pena exaltar o irresponsável.

Tim Maia é, assim como todos nós, uma grande lista de prós e contras. Só que, no caso dele, às vezes os contras transformam-se em prós. E isso é para poucos.

Tô cansado do certinho. Por favor, me faça ouvir Tim Maia.


Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Thales Mendes