meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

Manifesto de um cara quieto

Eu não conseguia entender o que havia de tão errado assim com o silêncio. Acho que as pessoas confundem-no com a solidão, mas nem sempre eles estão relacionados: você pode se sentir sozinho mesmo se estiver cercado de gente, e pode se sentir completo se estiver com uma pessoa certa.


“Por que você tá tão quieto?”

Passei a minha vida ouvindo essa pergunta. Pais, amigos, professores, psicólogos. Nunca achei a resposta.

Sim, eu sou um cara quieto. Tímido, desses que precisa de um elogio bobo e três segundos pra ficar com a bochecha toda vermelha. Não gosto de multidões, principalmente porque não sei me comportar diante delas.

As pessoas sempre se preocuparam com esse meu desvio de personalidade. “Um garoto tão saudável, e tão quieto, coitado”.

Ninguém nunca me perguntou se eu era feliz sendo quieto. Aparentemente esses adjetivos não podem, nunca, ser sinônimos.

Tímido Ainda assim, por boa parte da minha vida olhei com um misto de inveja e admiração para aqueles meus amigos que não se importavam em subir no palco e cantar uma música no karaokê para uma plateia de desconhecidos. Eles adoravam aquilo, exalavam felicidade, atraíam olhares, risadas, garotas. E tudo parecia legal pra caramba.

Eu voltava pra casa cabisbaixo, com raiva de mim mesmo, por não compartilhar toda aquela empolgação: a verdade é que eu não queria ser como eles, mas queria querer ser como eles, porque as pessoas os achavam melhores do que eu. E eu era tímido demais pra contestá-las.

É, eu sei, ser tímido me atrapalhou. Fez com que eu me calasse, mesmo quando sabia o que dizer. Me fez viver assustado com a certeza absoluta de que, mais cedo ou mais tarde, eu iria escorregar e cair na frente de uma multidão, pronta pra rir de mim. Passava meus dias preocupado em evitar essa queda.

Me atrapalhou nas festas, nas conversas, nas danças, nos beijos. Me fez perder garotas para meus amigos que sorriam, cantavam, e sempre tinham uma frase romântica pra dizer, ainda que decorada. Eu me achava estranho por preferir criar as minhas próprias frases românticas.

Mas ser tímido também me ajudou. E isso me surpreende por que, se você parar pra pensar, não é algo que a gente costuma ouvir por aí; quando as pessoas falam de alguém tímido, normalmente apontam os defeitos que esse alguém carrega consigo. Quase nunca falam das qualidades. E todos nós, tímidos ou não, somos cheios das duas coisas.

Minha timidez me ensinou a ler, e meu silêncio me ensinou a ouvir. Aprendi a refletir. Descobri que alguns dos meus amigos que cantam no karaokê não conseguem se concentrar o suficiente para apreciar um bom livro, ou uma boa música, e acho isso estranho pra caramba. Outros nunca escreveram sobre si em um diário, e, portanto, não tiveram a oportunidade de reler suas besteiras e avaliar o próprio crescimento. Alguns não aguentaram ficar deitados em suas redes pra assistir àquele pôr do sol na praia.

Passei a sentir menos inveja dos meus amigos, mas continuei a admirá-los de coração. Deve ser muito legal ser tão feliz o tempo inteiro, mas, se pudesse escolher, tenho cada vez menos certeza de que queria ser como eles. Às vezes, uma dose de tristeza faz bem.

E aprendi a me virar. Fiz amigos tímidos, extrovertidos, desafinados, pensativos, felizes. Ri até chorar, fui a festas, pulei muros, pisei na grama, dancei e beijei. Escorreguei e caí incontáveis vezes, e todo mundo riu de mim, inclusive eu.

Acabei, por fim, me conhecendo, e gosto tanto da minha companhia que não preciso desesperadamente me cercar de gente. Assim, posso escolher a dedo as pessoas com quem quero viver.

Eu queria que alguém tivesse me dito que “ei, tudo bem, ser tímido pode ser legal, é só aprender a tomar as atitudes na hora certa”. Essa pessoa teria me poupado uma boa dose de sofrimento. Mas talvez os tímidos que tenham descoberto isso estejam por aí, de mãos dadas com a própria felicidade, aproveitando o pôr do sol na praia, cercados pelas pessoas que amam.

Isso me soa bem.


Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe..
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