meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

Repúdio às reticências

Pense, por um momento, numa vida sem reticências. Uma vida em que não há o não dito e, portanto, as pessoas se surpreendem constantemente por falarem o que estão pensando.


Costumo odiar poucas coisas na vida. Nem mesmo as segundas-feiras, campeãs de audiência, são capazes de despertar meu ódio. Ódio é coisa forte, sentimento que merece ser reservado apenas àquilo que realmente merece ser odiado.

É por isso que odeio as reticências. Aqueles três pontinhos no final da frase me matam.

Não que não as use. Pelo contrário: reconheço sua utilidade e, é claro, sua necessidade. Uso-as, muito mais do que queria, sempre que me convém, ainda que com um quê de culpa e uma nebulosa noção do tamanho da corrupção desse meu ato.

Uso as reticências sempre que me deparo com coisas difíceis de serem ditas, na esperança de que aqueles três pontinhos digam-nas por mim.

Dá pra entender porque as pessoas usam-nas. As reticências são fáceis. Mas também são dissimuladas, injustas, e dão a entender ao invés de esclarecerem.

Não gosto delas principalmente porque pouca gente percebe o perigo que trazem. As reticências podem ser, ao mesmo tempo, o que um quer falar e o que o outro quer ouvir, e isso é assombroso. “Mas eu disse que...”. Não, você não disse. Pode ser que as reticências tenham dito por você. Mas também pode ser que não.

As pessoas não ligam para as reticências porque acham que elas só podem ser escritas. Não percebem que as reticências estão conosco o tempo inteiro e manifestam-se em diversas formas. São o suspiro, o não dito, o ponderado, o “pensei duas vezes” e, embora possam eventualmente servir para apaziguar, elas nunca eliminam de fato. O não dito continua ali, escondido, mascarado mas, de alguma maneira, crescendo, pronto para voltar à tona assim que possível, muito mais forte. As reticências são o incompleto e nunca resolvem coisa alguma.

Pense, por um momento, numa vida sem reticências. Uma vida em que não há o não dito e, portanto, as pessoas se surpreendem constantemente por falarem o que estão pensando.

Pode ser perigoso, eu sei. Pense nas brigas que aconteceriam e nas outras tantas que seriam resolvidas. Sem as reticências, a gente talvez brigasse com quem a gente não gosta, mas talvez fizesse as pazes com quem a gente gosta. Desconfio que não seria tão ruim assim. Imagine as verdades vindo à tona, não por maldade simplesmente ou sinceridade transparente, apenas porque não se sabe ser diferente. Pense no impulso assumindo seu posto e imagine que, sem reticências, cai também a resistência de falar o que se pensa.

Imagine a beleza do amor sem reticências. Aquele amor que surgiu porque ele resolveu simplesmente falar, ao invés de continuar esperando que ela entendesse, percebesse, interpretasse. Aquele amor que surgiu porque ele apertou o “enviar” ao invés de apagar e reescrever.

Pense em tudo o que existe por trás de simples reticências. E me diga se você não as odeia também.

Pois é...

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Thales Mendes

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